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Ciência, Ecologia, Estrangeiros

Arquivo JP (45)

Estar no mundo

 

(JP 243, setembro de 2000)

Foi no Museu da Ciência de Barcelona, na Espanha, cinco anos atrás, que eu vi a melhor exposição sobre a Amazônia. Os pontos altos foram uma enorme árvore transplantada viva da região para ocupar o centro de exposições e uma maquete computadorizada simulando todo o ciclo da água na região a partir de três perspectivas: em terra, desde a copa das árvores e do alto de um satélite. A exposição foi uma realização hercúlea de Jorge Wagensberg.

Como faz há sete anos, ele circulou novamente por aqui, agora também como assessor do Museu Goeldi para o novo parque da instituição, ao mesmo tempo que está montando uma nova exposição amazônica. Não pude conversar com ele, mas, pelo que noticiou a imprensa, Wagensberg está enfrentando resistências – e seus parceiros brasileiros também. Por conta das cautelas com a bioparataria, até mesmo a cooperação científica se tornou empreendimento problemático entre nós. Suspeições, nem sempre fundadas, mas largamente propagandeadas, podem inviabilizar uma empreitada binacional.

É claro que é preciso ter muita atenção e ser rigoroso antes de autorizar a coleta de material ou projetos de pesquisa. A legislação ainda é permissiva e a consciência – ética e moral – claudicante, além da imorredoura corrupção. Mas deve-se tratar desigualmente os desiguais.

Isto não deve significar maior condescendência, mão na cabeça ou exceções indevidas. Não se pode, porém, deixar de considerar o passado, com seu acervo de realizações. A partir da compreensão de que sem cooperação internacional caminharemos sempre mais lentamente do que os países mais adiantados. O resultado será que, a despeito de uma retórica nacionalista e protetora, ou mesmo por causa dela, só aprofundaremos o fosso que nos mantém no atraso.

A maneira de separar o joio do trigo e desvendar os mistérios é submeter todos esses programas e projetos ao debate público, sem sonegação de informações e sem estratagemas de camuflagem. O Museu da Ciência já fez pela Amazônia, em matéria de difusão e divulgação científica, mais do que muita instituição nacional. Tem um conceito estabelecido. A Amazônia pode ganhar muito nesse intercâmbio. Basta que a relação evolua à luz do dia, aberta ao exame e à investigação, quando o caso, e sempre prestando contas do que realiza.

O mundo tem explorado a Amazônia. Mas sem interagir com o mundo, a Amazônia não encontrará uma alternativa válida para a utilização do seu fantástico potencial de recursos naturais. Este é o seu grande desafio. Sem enfrentá-lo, virará as costas ao seu futuro.

Discussão

Um comentário sobre “Arquivo JP (45)

  1. Visitei a exposição lá em Barcelona. É uma maravilha. Espero que ainda continue por lá demonstrando a importância da Amazônia para o mundo.

    Infelizmente os nascidos na Amazônia, os únicos que podem compreender realmente o que pode significar desenvolvimento sustentável para o mundo, preferem ser atores secundários nos destinos da sua própria região. Pior ainda, tal como carangueijos no paneiro, a elite regional (hoje composta por muita gente de fora) prefere puxar as pernas dos locais que tentam escapar da mediocridade.

    Fazer o que?

    Curtir

    Publicado por Jose Silva | 12 de setembro de 2018, 11:02

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