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Política

Arquivo JP (47)

O sim é o não

 

(Jornal Pessoal 244, outubro de 2000)

Há um elo entre as eleições de 1996 e de 2000 em Belém: o povo da capital paraense não quer o retorno das velhas lideranças políticas do Estado. Qualquer que venha a ser o resultado da votação do dia 1º, os maiores nomes do poder estadual já foram derrotados. Com uma campanha milionária e acabando por se envolver diretamente na propaganda, o que até então os marqueteiros vinham evitando, o governador Almir Gabriel não conseguiu colocar o seu candidato, o deputado federal Zenaldo Coutinho (PSDB), no páreo decisório.

Desses limites sempre permaneceu de fora o candidato do senador Jader Barbalho, o ex-prefeito Augusto Rezende (PMDB). Boicotado pelo maior grupo de comunicação do norte do país e alcançado pelos respingos do alto índice de rejeição ao ex-governador Hélio Gueiros, o deputado federal Vic Pires Franco (PFL) dilapidou o patrimônio que lhe dera a condição de ter sido o parlamentar mais bem votado em Belém na última eleição.

A reeleição de Edmilson Rodrigues, já no primeiro turno, ou apenas no segundo turno, confirma essa tendência: o candidato do PT se manteve como favorito provavelmente porque ainda não está identificado com os velhos caciques políticos (ou ainda não é identificado como tal pela maioria dos eleitores).

À força de obras disseminadas pela cidade (várias realmente populares, mas muitas delas nitidamente eleitoreiras), de uma propaganda massiva, da mística que ainda subsiste em torno da legenda do seu partido (principalmente quanto a honestidade) e do uso da máquina oficial, Edmilson suportou os efeitos da campanha sem cair de uma posição próxima da metade das preferências nas pesquisas de opinião, que, desta vez, assumiram a feição de autêntico caso de polícia.

A uma semana da eleição, faltavam dados seguros para prever se realmente seria factível uma definição no 1º turno. Apesar dessa margem de incerteza, o grupo Liberal não vacilou em abrir manchete de primeira página, na última edição dominical, proclamando a inevitabilidade do 2º turno, com uma surpreendente reviravolta: a vitória de Duciomar Costa, nominalmente candidato do PDS, mas, na verdade, uma espécie de PSDB do B, sobre Edmilson Rodrigues.

A intensa atuação das Organizações Romulo Maiorana nos bastidores do processo eleitoral deste ano em Belém constituiu um capítulo à parte, uma marginália capaz de criar um campo gravitacional próprio, muito além do alcance da justiça ou do ordenamento administrativo público. O grupo Liberal perseguiu vários objetivos.

Conseguiu dois deles: inibir o crescimento da candidatura de Vic Pires Franco, interditado pela família Maiorana como seu inimigo preferencial, e criar um trampolim para Duciomar Costa se projetar. Um outro intento foi só parcialmente obtido: frear o crescimento de Edmilson (sabotagem apenas iniciada e abortada). O último dos alvos se frustrou: viabilizar a candidatura de Zenaldo Coutinho.

O paradoxo de Almir

O fracasso do esquema do governador é uma das principais consequências da disputa em Belém. Mesmo sendo o governante que mais obras realizou na capital nos últimos anos, uma das quais, a macrodrenagem das baixadas, de efeito multiplicador expressivo, Almir Gabriel não conseguiu transferir para Zenaldo os dividendos políticos das suas realizações administrativas.

Ao aparecer na propaganda eleitoral defendendo seu candidato, sem fazê-lo subir na preferência dos eleitores entrevistados nas pesquisas, expôs-se aos mesmos desgastes: o povo que lhe dá apoio como administrador não vota (ou não vota na mesma proporção) nele como político, ou em seus aliados. Ao que parece, o governador já entrou na faixa de desgaste em que se encontram as lideranças políticas mais antigas do Pará.

Esse é um dado significativo para a próxima eleição, de 2002. Indica que Almir Gabriel precisará de uma boa base de sustentação se quiser se eleger senador. Tendo que se desincompatibilizar do governo, precisará deixar em seu lugar alguém de extrema confiança e de alguma competência, que não o atrapalhe e possa multiplicar os votos. Quem se acomoda melhor nesse figurino é o vice-governador, Hildegardo Nunes.

O problema é que Hildegardo é do PTB e não do PSDB, já está montando um esquema de poder independente para segurar a sua candidatura (provocando ciumada entre os tucanos) e tem um apetite voraz. Almir poderá barrá-lo se decidir permanecer no cargo até o fim do seu mandato, escolhendo outro nome para sucedê-lo. Ainda restaria a alternativa da rebelião para o filho do ex-governador Alacid Nunes, mas ela o deixaria enfraquecido (com o agravante de possíveis mudanças na legislação eleitoral para acabar com a reeleição ou impor a desincompatibilização a todos os candidatos).

O governador ainda tem tempo, embora não muito, para encontrar um nome confiável com maior densidade e melhores atributos do que Zenaldo Coutinho para contrapor a Hildegardo no âmbito da sua coligação, ou, não conseguindo essa solução, sacrificar os sonhos senatoriais e continuar a comandar a máquina estadual para colocá-la a serviço de uma candidatura de circunstância. Já advertido pela disputa deste ano na capital de que fórmulas mágicas, como a que permitiu a eleição de Luiz Otávio Campos, o “senador do governador”, não são eternas, nem universais.

O dilema de Jader

Já o senador Jader Barbalho nem esse tempo mínimo tem mais. Não por mero acaso, ele já começou sua campanha eleitoral para tentar voltar (pela terceira vez) ao governo do Estado ou tentar mais uma vez o senado (alternativa cada vez mais remota), em 2002. Jader deve saber que em alguns redutos seu índice de rejeição aumentou. Em outros, o que se elevou foi a taxa de esquecimento do seu nome. Ele já está bem perto daquele caminho sem volta que fulminou a carreira de Jarbas Passarinho quando ele se distanciou da base eleitoral e, com isso, referendou, pela omissão, o discurso dos adversários.

Por mais que consiga a presidência do Senado e se manter à luz dos refletores da imprensa, é pouco provável que a carreira nacional de Jader vá mais longe de onde se encontra agora. Sustentá-la permanecendo mais tempo em Brasília é expor-se ao mesmo risco de Passarinho.

Trocando Belém pelo interior, Jader está tentando recuperar ou consolidar suas fontes de votos, enquanto usa Augusto Rezende como se fosse um apagador dos borrões que mancham a sua imagem na capital, na expectativa de ainda poder resguardar um terço dos votos nesse reduto. Belém já só representa pouco mais de um quinto do colégio eleitoral paraense. Mas se não garante uma eleição majoritária, pode inviabilizá-la, caso o índice de rejeição do candidato na capital chegue a um índice muito alto, para onde aponta uma tendência em relação a Barbalho.

Se efetivamente desviar seu rumo do senado para o governo do Estado, é quase certo que Jader vá encontrar Edmilson no caminho. O prefeito armou sua aliança política prometendo ficar no cargo até o fim e apoiar outro nome para o governo, sua correligionária Ana Júlia Carepa ou o senador Ademir Andrade (PSB). Mas essa é uma história da carochinha. Reeleito, ele dará o passo que falta para apresentar sua candidatura como a primeira do PT com possibilidades reais de vitória na principal disputa no Estado dentro de dois anos.

Sairá de Belém com mais votos do que qualquer outro concorrente. Mas, e o interior? O governador Almir Gabriel terminará a eleição municipal deste ano com a maior fatia dos votos, mas deverão estar com Jader Barbalho alguns dos principais colégios (como Santarém, Marabá e Castanhal). A participação do PT nesses currais ainda será residual, a mais expressiva, entretanto, de toda a história do partido. Já tendo percorrido alguns dos municípios, Edmilson deverá dedicar boa parte do tempo na nova gestão, se a obtiver, para ampliar seu raio de expectativas no Estado.

O interior (um conceito necessariamente falho em sua generalidade diante da diversidade de situações no vasto território paraense) poderá dar o mesmo recado que a capital está mandando aos políticos através das sondagens prévias? Certamente não. Mas a ânsia de renovação parece permear todos os redutos eleitorais. Pode até ser imprecisa, não ter direção certa ou mesmo estar completamente equivocada, mas a busca existe.

É o que explica, ao menos em parte (a visível), o crescimento da candidatura de Duciomar Costa, o mais cotado para dividir com Edmilson Rodrigues a cédula eleitoral no 2º turno em Belém, e que chegou mais perto dele do que podia imaginar a vã filosofia petista. O eleitorado terá motivos para se arrepender dessa opção no futuro. O governador Almir Gabriel poderá pagar caro por essa aliança – e isso, não apenas em sentido figurado.

O eleitor, desesperançado, maltratado e muitas vezes enganado por aqueles aos quais destinou seu voto no passado, parece disposto a aceitar o pior depois, desde que seja o diferente agora. Quer uma novidade, na esperança de que ela mude uma situação na qual já não acredita, ainda que esteja trocando o seis pela meia dúzia. Ou o XIII pelo 13.

Discussão

Um comentário sobre “Arquivo JP (47)

  1. Lúcio,
    O compromisso do Edmílson de ir até o fim do 2º mandato, e apoiar os candidatos do PT ao governo do estado (no caso, Maria do Carmo) e à Prefeitura de Belém (Ana Júlia), nem era, assim, tão história da carochinha, né mesmo?.

    Trabalhei bem junto ao Edmílson ao longo de todo o segundo mandato, e nunca o vi se referir seriamente à possibilidade de se candidatar a nenhum cargo majoritário em 2002 ou 2004. Desde o início de 2004, ele só falava em fazer o que realmente fez: dar um tempo na política partidária e fazer o doutorado que ele adiara desde quando aceitou candidatar-se à Prefeitura de Belém, em 1996 (ele não havia se candidatado à reeleição para deputado estadual, exatamente para avançar em sua formação acadêmica, a essa altura já autorizada pela FCAP — atual UFRA — de cujo quadro docente Edmílson faz parte).

    Pessoalmente, gostaria que Edmílson assumisse um ministério no primeiro mandato de Lula. Eu o considerava — e considero — preparadíssimo para um cargo nesse nível. Acho que sua escolha para o Ministério da Previdência Social, p.ex., teria feito enorme bem ao país. A esta altura da vida, a Previdência Social brasileira provavelmente já estaria modernizada, mais independente em relação ao governo e à demagogia politicoide, e, certamente, bem longe da deprimente situação em que se encontra hoje.

    Não rolou! Infelizmente…

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 14 de setembro de 2018, 11:46

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