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Justiça, Polícia, Violência

A justiça é mesmo cega?

Reproduzo abaixo um texto de Suelen Cunha, enviado pelo leitor Fabrício. Ele ajuda o debate sobre tema tão candente como é a morte de pessoas atropeladas por motoristas embriagados, cada vez mais frequente nas grandes cidades brasileiras.

Se vocês tiverem paciência de ler, essa foi a justiça aplicada ao Filho do Maiorana, e a outra foi a justiça aplicada ao Tiagão. Tiagão é um amigo meu de Belém sem antecedentes criminais tal como o filho do dono do Jornal.

Em março de 2018, Tiagão foi conduzido por policiais à delegacia por dirigir bêbado e causar a morte de uma criança em Belém. Muitas pessoas dirigem bêbadas em Belém. E isso é crime. Infelizmente, Tiagão precisou tirar a vida de alguém pra entender isso.

Mas pro Tiagão (que é um rapaz de classe média) a justiça foi feita e ele está preso por homicídio doloso. Tiagão também não tinha nenhum antecedente criminal, os crimes foram parecidos, os dois com o mesmo flagrante. Acompanhei tudo que aconteceu, e em nenhum momento eu passei a mão na cabeça dele, ele cometeu um crime e a lei foi aplicada. Homicídio doloso. Eu sabia que ele seria preso por doloso e a justiça foi feita. Espero que ele tenha ao menos se arrependido do que fez.

Agora, o MESMO juiz que condenou o Tiagão é o juiz que deu LIBERDADE pro filho do Maiorana que matou 3 pessoas, uma possivelmente grávida, mas o Maiorana é de uma família das mais ricas. O juiz cotou 500 mil com a seguinte legenda “o valor arbitrado deve ser proporcional e adequado à natureza da infração e extensão de seus danos”.

Na acusação do Tiagão o juiz diz que haviam provas concretas que ele estava dirigindo sob efeito de álcool e por aparentar dirigir alcoolizado ele foi considerado um perigo pra sociedade e foi dito que sua prisão preventiva era pra “resguardar a sociedade de maiores danos”.

Contudo, nos autos do Maiorana o juiz ignorou que ele dirigiu bêbado, dizendo que não haviam provas do mesmo, ainda que tivessem latinhas de cerveja e drogas no carro do rapaz e com o vídeo do artista Gominho no seu stories do Instagram em que eles bebiam juntos antes do acidente.

Em Belém, de acordo com o juiz, uma vida vale 166 mil reais ou até menos, já que a moça que o filho do Maiorana matou estaria grávida. Isso se você for rico. Porque se não for, vai preso.

Pro Tiagão, não teve fiança, teve cadeia. O que é justo pra um, não se aplica ao outro. Por causa de 500 mil reais que o pai de um tinha pra pagar e a mãe de outro não tinha, o rico tá solto e o classe média preso. As vidas perdidas ninguém vai devolver.

Agora fica a pergunta: O sofrimento das mães e dos familiares o juiz vai pagar com 500 mil? Não né. Ao menos um deles está pagando pelo que fez com justiça.

UM PESO DUAS MEDIDAS.

Rico não vai pra cadeia.

Leiam os autos.

Selecionei três comentários, os mais relevantes.

Suzanne Calandrini – Os advogados do Tiagão deram mole. É pacifico nos tribunais superiores que matar alguém dirigindo alcoolizado é no máximo homicido culposo. Claramente se vê a justiça distinguindo pessoas pela classe social, muito triste.

Suelen Cunha O Tiagão foi defendido por uma defensora pública.

Rafael Oliveira Na verdade, devido a vacatio legis, essa lei de 2017 que dá entendimento de que o homicídio em questão é culposo só entrou em vigor a partir de abril de 2018.

Discussão

2 comentários sobre “A justiça é mesmo cega?

  1. Caro Lucio,

    O Delegado deveria ter levado o homicida daí ao instituto de criminalítica e submetido o preso a exame clínico.Ponto, apenas este é o modo legal de se constatar dosagem alcóolica de ajguém legal e cientificamente. Mas testemunhas servem sim para dentre de um Processo Penal convencer-se um Juiz sobre embriaguez de alguém.

    O Delegado pediu a concessão de uma prisão preventiva indevida. Fez até bem em requerer e o Juiz fez melhor ainda em negá-la, pois não há justa causa na prisão, que cautelares não asseverem e garantam. O depósito em dinheiro é algo provisório. FAÇAM sim É O PROCESSO penal correr, ANDAR CELEREMENTE,O tempo é inimigo da Justiça.

    A Lei Fleury já é uma outra questão. E para ricos então… .

    É culposo desde sempre pois o homicida assumiu a possibilidade mas não a pretendia expressamente. Nunca haverá dúvidas disto. A verdade é que Maiorana não desejava matar ninguém DELIBERADAMENTE.

    Seria bom ler o processo de Tiagão e ver porque o Promotor de Justiça e até mesmo o próprio Juiz do feito não reclassificaram o tipo penal, pois poderiam perfeitamente fazê-lo. Perguntem ao Promotor que queria homicídio por dolo eventual fajuto. Mas escrever algo sem ver um processo é sempre algo temerário e precipitado. Mas sempre pode caber uma revisão criminal .

    Curtir

    Publicado por Pikachú | 29 de setembro de 2018, 16:37

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