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Economia, Energia, Estrangeiros, Grandes Projetos, Hidrelétricas, Militares, Minério, Multinacionais, Política

A questão chinesa

“A China não está comprando no Brasil, ela está comprando o Brasil”, alertou Jair Bolsonaro na semana passada. “Você vai deixar o Brasil na mão do chinês?”, provocou ele, mexendo num vespeiro mantido até então sob aparente harmonia. Enfrentou um tema que a esquerda e sues aliados populistas evitaram tratar, apostando, talvez, numa acomodação natural.

Ocupando um espaço que a esquerda deixou vaga por inércia deliberada ou oportunismo, o candidato do PSL à presidência da república reaqueceu os laboratórios ideológicos da doutrina de segurança nacional, instalados principalmente nas instâncias militares. O vetor dessa preocupação é a Amazônia, onde a penetração chinesa é mais profunda e significativa, proporcionalmente, do que nas outras regiões brasileiras.

Academias e entidades da sociedade civil seriam um fórum mais adequado para responder com fatos e atualidades ao brado do capitão da reserva do Exército e deputado federal há 27 anos. Nos quartéis, esse debate não teria o mesmo clima de liberdade, controvérsia e respaldo técnico que a questão exige, por sua importância e urgência. A geopolítica tem sido má conselheira nas abordagens castrenses sobre a fronteira amazônica. Muitos equívocos foram gerados e causaram prejuízos históricos em função desse eixo doutrinário.

Se estivessem conectadas com a fantástica dinâmica da expansão das frentes econômicas na região, as universidades já teriam submetido à sociedade um painel global sobre a presença chinesa. Colocando os dados à luz do dia e abrindo um debate sem bitolas ou viseiras, permitiria ao país uma avaliação adequada sobre a questão, dissociando-a de abordagens ideológicas e políticas, e antes de erros do governo.

Com sua ofensiva maciça nas duas últimas décadas, a China deslocou do eixo mais dinâmico e cosmopolita da economia amazônica, voltada para a exportação, o vizinho Japão, que deslocara, por sua vez, a partir da exploração da província mineral de Carajás, os Estados Unidos.

Nenhuma presença estrangeira na Amazônia foi tão forte e ampla quanto a chinesa atualmente. Essa presença se acentuará ainda mais nos próximos anos, em função do enorme estoque de capital do país, usado para montar uma extensa rede de infraestrutura destinada a escoar para o litoral e, a partir dele, além-mar, as commodities vitais para a China, como minério de ferro e soja.

As linhas de transmissão a partir de grandes hidrelétricas amazônicas (Tucuruí, Belo Monte, Juruá e Santo Antônio) já estão sob o controle de empresas chinesas, que começam a avançar sobre as próprias usinas, fechando o pacote de energia. Esta situação levou Bolsonaro a uma metáfora doméstica que reflete o grau de conhecimento que ele tem dessa questão: “Suponha que você tem um galinheiro no fundo da sua casa e viva dele. Quando privatiza, você não tem a garantia de comer um ovo cozido. Nós vamos deixar a energia nas mãos de terceiros?”.

O alerta cai em solo propício a teorias conspiratórias por um detalhe omitido ou negligenciado: as empresas, à frente das quais se encontra a State Grid, são estatais. A Hydro Alunorte, dona da maior fábrica de alumina do mundo (instalada no Pará), que teve repercussão internacional ao ser acusada no início deste ano de despejar resíduos tóxicos da produção, é controlada pelo governo norueguês. A diferença é que a Noruega é uma democracia política. A China é uma ditadura. Mais refratária, portanto, ao controle externo – dentro e fora das suas fronteiras.

Não significa que, voltando aos idos de 1964, quando chineses foram arbitrariamente expulsos na onda de furor ideológico anti-esquerdista, só por isso a China esteja interditada no Brasil. Inegavelmente, porém, é preciso estabelecer um entendimento aberto e público sobre os grandes investimentos chineses, principalmente em setores estratégicos, como energia e transporte ferroviário, os que mais os interessam agora.

É possível combinar os interesses das partes num acordo proveitoso para ambas? É o que se deve tentar, já que o conflito previamente estabelecido (por uma diretriz do presidente da república, no caso de Bolsonaro ser eleito) “não é bom para ninguém”, tratou de ressalvar Fábio Schvartsman, o presidente da mineradora Vale, a segunda maior empresa brasileira, que tem na China o seu principal cliente. O executivo acredita que o candidato, se eleito, mudará o seu enfoque ao receber informações sobre “o estado das relações e da complementaridade das relações entre a China e o Brasil”.

Enquanto seu presidente falava, a Vale anunciou um novo recorde em sua produção de minério de ferro, em sintonia com o crescimento da demanda pelo mercado chinês.

No terceiro trimestre, a mineradora produziu 105 milhões de toneladas, 10,3% a mais do que no mesmo período de 2017, graças principalmente à nova mina de Carajás, a S11D, que entrou em operação no final de 2016. Ela passou a oferecer o minério de mais alta qualidade do mundo, recebendo prêmios por isso. É o que a China quer, na busca pela redução da poluição causada pelas siderúrgicas, as mais graves do planeta.

O Brasil não aproveitou a troca da hegemonia dos Estados Unidos pelo Japão, a partir do primeiro choque do petróleo, em 1973. Vai repetir o erro na onda chinesa ou vai aproveitar as lições do passado? Esta é a questão.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

6 comentários sobre “A questão chinesa

  1. E o Salame?

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    Publicado por jjss555 | 18 de outubro de 2018, 20:31
  2. De que forma o Brasil e os Estados fornecedores de matérias primas se posicionarão frente à sanha chinesa, creio q nada será alterado. A China tem um grande traçado neocolonizante p/ quase toda a A.Lat. Tende a passar como roldão sobre tudo que lhe for estratégico. Tomara que tenhamos uma “bancada” que ouça as academias e setores da soc.civil organizada que estudam e produzem reflexões críticas e alternativas à essa sanha mercadológica de profundo contra-senso que nos impacta diretamente hoje e idem no futuro.

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    Publicado por Amelia A. Oliveira | 18 de outubro de 2018, 21:40
  3. “Ela (a Vale\) passou a oferecer o minério de mais alta qualidade do mundo, recebendo prêmios por isso.” (Lúcio)

    Complete-se: a preço de banana.

    Pra Vale, vender minério de alta qualidade a preço de banana não é problema. O lucro está garantidíssimo pelos impostos que ela não paga.

    Quem perde é o Pará. E, como aqui é terra de índio manso, que não só apanha sem reclamar, como até pede mais, o Pará perde duas vezes: perde o minério e perde os impostos que a Vale deveria recolher.

    Nem sei se ainda tem sentido dizer que o minério do Carajás está sendo vendido a preço de banana. Afinal, a banana está cada dia mais cara…

    Se e quando encontrar banana — principalmente banana branca — sendo vendida baratinho, acho que vou dizer que estão vendendo banana a preço de minério do Carajás…

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 19 de outubro de 2018, 10:08
  4. Sugestão:

    “O ex-ministro da ditadura fala sobre diversos momentos em que presenciou a falta de caráter de Bolsonaro, como o uso do quartel para campanha eleitoral, roubo de projeto de lei e acusações levianas contra colegas.”

    https://www.obrasilfelizdenovo.com/mau-militar-no-exercito-bolsonaro-era-conhecido-como-bunda-suja/?fbclid=IwAR2b1Eb5ICucJxuiHCLgFoHIYGmJsoO5DyiqAQp9bv4MuXWIz8DMTN-Wc2g

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    Publicado por Luiz Mário | 19 de outubro de 2018, 11:06
  5. Uma boa análise sobre a Venezuela. Lúcio: quais são as lições para o Brasil?

    https://www.foreignaffairs.com/articles/south-america/2018-10-15/venezuelas-suicide?cid=nlc-fa_twofa-20181018

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    Publicado por Jose Silva | 19 de outubro de 2018, 14:02

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