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Ecologia, Estrangeiros, Floresta

O embaixador americano fala. Em nome de quem?

(Publicado no Jornal Pessoal 246, de novembro de 2000)

O intervencionismo americano é um fato. Sem ele, o cidadão médio dos Estados Unidos não teria nas prateleiras dos seus supermercados produtos do mundo inteiro a preços acessíveis, frequentemente inferiores aos dos mercados de origem. A expansão desse intervencionismo no continente latino-americano é outro fato, derivado do desejo dos EUA de encontrar novas fontes de suprimento do que necessitam e novos compradores para o que produzem. Agora, se desse crescimento da presença americana na AL derivará uma ocupação militar ou formas intermediárias de ocupação, temos, por enquanto, uma incógnita – ou uma hipótese ainda em aberto.

A pax americana se expressa na Alca, a zona de livre comércio envolvendo o Canadá e o México, mas que se insinua para o sul do hemisfério americano. Os Estados Unidos não admitem mais países dotados de gravidade própria na sua área magnética. Como todos participam, ativa ou passivamente, de um bloco histórico, ainda estamos na fase de convencimento. Mas o diálogo tem premissas, ou, como diriam os juristas, cláusulas pétreas. Que, por isso mesmo, são invariáveis. Contra uma Europa unificada, ao menos como propósito, os EUA não parecem dispostos a admitir uma América fracionada. Muito menos pulverizada.

Mas até que ponto os americanos estão dispostos a ir para alcançar seus objetivos estratégicos? A voz oficial da Casa Branca garante que nem um passo além da normalidade institucional. O que é bom para os EUA, como a democracia representativa, tem que ser bom também para os seus parceiros. Mas esse reconhecimento ao livre-arbítrio alheio não interfere na formação dos preços do supermercado de esquina na terra do Tio Sam?

É o que fiquei a me perguntar ao final da leitura da entrevista dada à revista Veja pelo embaixador americano no Brasil, Anthony Harrington. Na entrevista, que mereceu as páginas amarelas da revista, há dois trechos que devem ser examinados com atenção por quem mora na Amazônia ou se interessa pela região. Ainda mais porque o embaixador é apresentado como “democrata de carteirinha, amigo pessoal dos Clinton, além de ser um dos donos do “maior e mais tradicional escritório de advocacia nos Estados Unidos” .

O embaixador considera absurda a ideia de uma intervenção americana na Amazônia em função da ameaça que a ocupação desordenada representa para a região. “Os americanos – diz ele – são fascinados pela floresta, tanto quanto a maioria das pessoas em todo o mundo. Nós sabemos que existem tecnologias de desenvolvimento sustentado das florestas tropicais e que o Brasil está genuinamente interessado em preservar a Amazônia”.

Não é exatamente assim. Os Estados Unidos destruíram no passado quase tanta floresta quanto nós, na Amazônia, nas três últimas décadas. O “quase” resulta do nível tecnológico existente durante o pique de desmatamento nos EUA, entre o século passado e o início deste século, ainda sem a motosserra. A diferença comparativa atual, desfavorável a nós, é função da menor área florestada que restou em território americano, onde já não há tanto o que destruir quanto na Amazônia.

Mas fiquei escandalizado com o que vi durante uma visita que fiz há 10 anos ao Oregon, no extremo noroeste do país, como convidado oficial do Departamento de Estado (essa maravilhosa contradição, de raízes jeffersonianas, é o que mais me fascina no sistema americano). Os madeireiros não apenas estavam pondo abaixo o que restava da última reserva de floresta nativa dos EUA, como podiam exportar madeira em toras, o que faziam, à larga, para o Japão. No Brasil, desde 18 anos antes, estava proibida a exportação de toras.

O fascínio pela floresta amazônica

A tradição americana não é propriamente a da convivência ou mesmo interação com florestas, exceto em parques e reservas, um modo de ver e agir responsável também pelas reservations para os índios. Interpretemos restritivamente a afirmação do embaixador: os EUA e o mundo são fascinados não pela floresta em geral, mas pela floresta amazônica. Até algum tempo atrás o fascínio tinha causas determinadas: a necessidade de madeira e a atração pela “vida selvagem”, esta uma combinação de Rousseau com relações públicas e marketing adaptada ao bandeirantismo made in USA, do qual Theodore Roosevelt foi um protótipo (ou emblema?).

Hoje, esse fascínio se explica pelo risco do aquecimento global do planeta. A principal fonte do problema é a indústria americana, que reluta em investir (o investimento é deveras pesado) no combate e tratamento da poluição que ocasiona; e o cidadão do império, que não abre mão do way of life ainda suntuário, principalmente se referido à maioria da população deste globo terrestre, nós incluídos, apesar da posição de liderança em que o generoso embaixador nos coloca.

A redução na atmosfera das emissões poluentes originadas do Primeiro Mundo, sobretudo dos Estados Unidos, não guarda proporção com a gravidade do problema, que ameaça perigosamente a habilitabilidade da Terra nas próximas décadas. Exagerado ou não, o problema é real. Os mais ricos não querem que ele cresça, mas não querem reduzir sua riqueza. Uma das saídas mais consideradas é usar a floresta amazônica para o sequestro de carbono.

Em termos teóricos, já se sabe mais ou menos bem medir a relação entre a emissão gravosa das chaminés das fábricas ou dos escapamentos dos carros e a massa florestal necessária para compensar a inexistência de sérios controles de emissões, que exigiriam conversão industrial pesada. O que não se sabe é como pôr em prática esses cálculos. Mesmo que essas relações fossem dominadas, como assegurar a seriedade desse processo compensatório.

Como a ameaça avança, o que interessa agora é segurar floresta para ter volume capaz de suprir a insuficiência dos outros mecanismos de absorção do carbono gerado pelo homem. O balcão de negócios com o sequestro de carbono já é ativo, mexendo com centenas de milhões de dólares. Do lado dos ricos há a demanda por floresta. Do lado dos pobres, há a busca por dinheiro. Sem uma instância arbitral e controladora, há um cenário favorável à especulação e à manipulação, sobre cuja tendência já temos entre nós sinais indicadores (de minha parte, estou carregando três cruzes por ter me colocado contra um desses especuladores).

O Brasil quer mesmo preservar?

O embaixador tem razão quando diz que há “tecnologias de desenvolvimento das florestas tropicais”, em tese, em experimentos restritos ou em atividades ainda pioneiras, algumas enredadas no ensaio e erro. Já não é tão incontroversa sua afirmativa seguinte, de que o Brasil “está genuinamente interessado em preservar a Amazônia”. Se os EUA dizem que, movidos pelo fascínio para com a floresta amazônica, estão dispostos a dar toda a colaboração possível para salvá-la, o governo brasileiro adiciona sua voz ao coro dizendo que age nessa mesma direção. Mas estamos apenas no plano do discurso, da retórica. E a realidade?

A realidade não é exatamente essa. Nem o Brasil mostrou capacidade (e empenho consequente) em sequer compreender a Amazônia, nem as interferência dos EUA são para corrigir esse desvio, já que o know-how histórico da casa não é esse. Se os dois países realmente querem tirar a Amazônia da pira do modelo de desenvolvimento econômico que a tem sacrificado, então o ponto de partida saudável é o de investir numa escala compatível com o desafio que a Amazônia representa para o conhecimento científico e tecnológico – e assegurar um grau máximo de democracia nesse processo, de tal maneira que não haja dogmas nem proibições na tarefa de enfrentar essa incógnita. O processo, portanto, precisa urgentemente de profundas mudanças.

Mais adiante, o embaixador reafirma que os Estados Unidos estarão “prontos a ajudar o Brasil a desenvolver a região de uma maneira que seja inócua para o meio ambiente e faça justiça aos formidáveis recursos naturais que os brasileiros possuem”. E completa, como se não quisesse nada, tudo querendo: “Algumas pessoas dizem que a ação das madeireiras asiáticas naquela região está fora de controle. Isso seria um risco considerável. Mas não tenho informação suficiente para fazer uma avaliação da situação”.

Ou seja: os EUA querem ser o árbitro de programas bipartites com o Brasil. Os brasileiros contarão com toda a boa vontade dos Estados Unidos desde que seguirem um cânone fixado em Washington, de onde viria a avaliação do que é inócuo ao meio ambiente e faz justiça à fabulosa reserva de recursos naturais do país, localizada na Amazônia. Nenhuma relação de equilíbrio pode resultaram dessa ostpolitik.

Ricos, os Estados Unidos podem apoiar os brasileiros com seus recursos materiais e seu conhecimento, mas para ajudar os brasileiros a chegar às suas próprias conclusões e encontrar suas próprias saídas. Essa é uma atitude boa ao mesmo tempo para a humanidade, os EUA, o Brasil e a Amazônia. Mas ela só é possível com tolerância para com o diferente, respeito ao contrário e aceitação da autodeterminação alheia. É uma equação viável?

É, de qualquer modo, um grande desafio, duro e ao mesmo tempo fascinante. Tão fácil quanto impor os interesses americanos através do big-stick é reagir a ele com o estigma do imperialismo. Contra Juracy Magalhães, o triste autor da frase “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”, vale pouco carimbar que o que vem dos EUA não nos serve.

Com o Projeto Colômbia, os Estados Unidos deram um passo muito grave dentro do nosso continente. Esse tipo de passada costuma ser dada pelos americanos com botas. Se assim for, de novo, será um erro de consequências funestas, se não de imediato, certamente a médio prazo. Mas não se pode esperar os desdobramentos do erro: para que ele não assuma a escala de uma tragédia, é preciso retificá-lo de imediato, a partir da premissa de que existe e é um fato anônomalo na evolução endógena da AL.

Ao invés de aceitar como fato consumado a americanização da AL, pode-se contrapor com a latino-americanização do continente. Já não mais com as frases empoladas dos nossos déspotas e os floreios formais dos diplomatas. Mas interligando nossas riquezas e fazendo-as convergir não mais para fora, enquanto matéria bruta, mas para dentro, enquanto elemento de um processo mais amplo. Será exportada quando a tivermos reelaborado, sejam as mercadorias, seja o conhecimento. Tudo carimbado com o selo da nossa identidade e a marca da nossa capacidade.

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