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Política

A busca da verdade

No início de 2016 caminhei pelos quase três quilômetros da avenida Paulista, em São Paulo. Fui da Consolação até o Paraíso pela mais importante via urbana do país. Nesse percurso, cruzei com milhares de pessoas, que formavam um caleidoscópio bem representativo do Brasil.

Não uma amostragem científica em função de algum viés metodológico. A Paulista, aberta no final do século XIX, com o que havia de melhor no mundo para estabelecer uma avenida, sempre foi um símbolo da mais poderosa elite brasileira, na época sustentada pelo café. Ainda assim, com o tempo e o gigantismo de São Paulo, e com a demolição das mansões da plutocracia paulistana, passou a abrigar todas as camadas sociais existentes, uma coleção dos tipos nacionais e dos imigrantes, que nela têm sua maior capital.

Fiz essa caminhada do hotel até o centro cultural do Itaú na outra extremidade. Pude sentir a força do trabalhador brasileiro, fosse ele um empresário (dos que ainda caminham pelas ruas) ou um office-boy, homens e mulheres, negros e brancos, nativos ou imigrantes. Todos caminhando numa direção, aparentemente com um sentido. Esse dinamismo criava um clima de produção, de trabalho, de resultados da ação humana. Um Brasil com riquezas naturais e capital humano para fazer jus à sua grandeza, de 5º maior território nacional da Terra e a 5ª maior população mundial.

Ao chegar ao meu destino, fui orientado a descer as escadas para o subsolo, que se assemelhava a uma garagem. Era o auditório no qual eu participaria de um debate alternativo sobre o Brasil. Observei na mesa de debatedores e no público o que, afinal, se confirmaria: eram todos – ou quase todos – petistas ou simpatizantes do Partido dos trabalhadores, ou, por último, esquerdistas de diversos matizes.

Ouvi a arenga de uma professora de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre a importância dos contextos explicativos dos acontecimentos. Muito mais importante do que os fatos, apregoou ela, é a sua compreensão, a interpretação, o significado de eventos simbólicos, concepção que se pode verificar em manuais de história para o ensino médio, repletos de conceitos que se satisfazem em si mesmos, sem precisar de fundamentação nos fatos. Os fatos são supérfluos, arrematou.

Fiquei chocado. Comecei a minha intervenção descrevendo o lugar que nos foi destinado, com tubulação de água e fiação à mostra e falta de uma arte final nos acabamentos de alvenaria, em contraste com as instalações superiores do edifício. Ali éramos, literalmente, undergrounds. Lembrei que o Itaú se tornara o maior banco do Brasil, desbancando o Bradesco, sob os governos petistas, sempre tão combativos contra os juros extorsivos do Brasil, a concentração bancária e a falta de liberdade de mercado no setor financeiro – conforme a ladainha que Fernando Haddad entoou nos últimos dias. E que Eike Batista, no seu ápice o 8º homem mais rico do mundo, fizera a sua fortuna na era dos companheiros, que abriram as burras do tesouro para o maior número de bilionários já surgidos no Brasil, “como nunca antes”.

Em seguida, quase pedi desculpas por ser um profissional da informação, para o qual o conhecimento dos fatos e a capacidade de descobri-los e revelá-los é a própria razão de ser do jornalismo, no que ele pode ter de melhor: fornecedor de dados diários para municiar a agenda dos cidadãos e garantir matéria prima para a ação dos pesquisadores que vierem depois, com a lupa do rigor científico.

Perguntei então aos presentes de quem eles mais gostavam: Mozart ou Beethoven? O auditório e a mesa se dividiram. Encerrada a sondagem, disse que cada um poderia seguir seu gosto e definir a opção por aquele que mais lhe toca os sentidos. Mas que Beethoven era, tecnicamente, superior a Mozart. Por um fato: entre Mozart e Beethoven emergiu o piano, instrumento com mais recursos musicais do que o piano forte e o cravo (imortalizado por Bach).

Felizmente, um colega de mesa, negro, gordo, barbudo, instrumentista e compositor de periferia (do tipo que Mano Brown projetou nacionalmente), autor de livro alternativo (que comprei), boa praça, meio constrangido, teve a coragem de admitir que eu tinha razão. Ele podia confirmar porque era pianista.

Agradeci pelo gesto soberano e altivo do companheiro naquela circunstância completamente desfavorável a mim, por ter tido a coragem de dizer o que aquele público não queria ouvir, mas que era o que eu pensava sobre o Brasil e a administração Dilma Rousseff e o que ela significava, nos seus estertores,, que pareciam então inalcançáveis. Minha opinião manifestada com educação, demonstração factual e sinceridade.

É o que peço neste texto a quem me dá a honra de ler: não agridamos os fatos nem os desnaturemos, nem o fraudemos ou utilizemos para um mal maior do que a mentira: a meia-verdade. E o impulso mais selvagem do que um murro: a agressão verbal, para destruir o adversário ou polemista, não para instaurar a verdade e servir ao bem coletivo, na dialética da razão e do respeito, patrimônio valioso da democracia, que, amanhã, mais uma vez, estará em cheque e sob risco no nosso querido Brasil.

Discussão

5 comentários sobre “A busca da verdade

  1. Se isso fosse pactuado, tudo seria mais fácil de entender

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    Publicado por Edyr Augusto | 27 de outubro de 2018, 15:57
  2. Por falar em verdades e mentiras, o general Augusto Heleno, que comandou as tropas brasileiras no Haiti, disse que o Bolsonaro não foi aos debates para preservá-lo de ataques terroristas. Não se trata de um gesto isolado, disse o general, mas de uma organização terrorista que atua no Brasil, e que está planejamento matar o Bolsonaro. O general Heleno falou que, “por motivos óbvios”, não pode revelar o nome da organização terrorista. “Isso é absolutamente verídico”, disse o general.

    Era só o que faltava…

    Vá lá… que seja, general. É verdade esse bilete.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 27 de outubro de 2018, 16:29
  3. Grata, Lúcio. Um sentido de sensatez e amor aos fatos, à busca por ele c/ a dignidade plena.

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    Publicado por Amelia A. Oliveira | 27 de outubro de 2018, 21:02
  4. Não entendi o objetivo do texto. Mas os exemplos citados foram fatos verídicos, do conhecimento de todos, porém por si só não significa nada. São apenas casos isolados de um governo que fez aumentar o poder de compra de todos os brasileiros, a renda média do trabalhador, a renda per capita, o PIB, diminuiu dívidas, bateu recorde de empregos. Atitudes de gestor responsável, que quer um nação grande e não pensando apenas nos seus correligionários…

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    Publicado por Vitor Castro | 29 de outubro de 2018, 16:23

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