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Colonização, Estrangeiros, Floresta, Grandes Projetos, Militares, Política

Amazônia será prioridade

A Amazônia deverá ser prioridade no governo de Jair Bolsonaro, a partir de 1º de janeiro do próximo ano. Ao menos se depender da iniciativa do general (da reserva do Exército) Augusto Heleno Ribeiro Pereira, de 71 anos, que deverá ser o ministro da Defesa. Para ele, que foi comandante militar da região entre 2007 e 2009, “com orgulho”, a Amazônia é “prioridade um do Exército brasileiro, um comando importantíssimo”.

Ao deixar esse comando para assumir um cargo burocrático na diretoria de ciência e tecnologia, negando que o ato fosse uma punição não declarada por suas críticas ao governo Lula, o general referendou a aplicação da doutrina de segurança nacional como fonte da ação regional do governo federal:

“A Amazônia brasileira é Brasil, é nossa, e não tem ninguém que deva ficar dando palpite na Amazônia. Nenhum país no mundo tem a moral para dar palpite em termos de conservação ambiental, preservação, não sei o quê”.

As forças armadas poderiam continuar a agir simultaneamente como guardiãs da integridade nacional na vasta fronteira e agências de desenvolvimento regional, como fizeram, principalmente entre as décadas de 1960 e 1970.

Por isso, o general criticava a ênfase na manutenção e ampliação de áreas indígenas nas faixas de fronteira amazônicas, que se estendem por nove mil quilômetros com quatro países do continente (Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia), quando a prioridade deveriam ser os pelotões de selva. Não como ele os comandou, com graves carências, “submetidos a um enorme sacrifício”, mas qualificado – em efetivo, armamento, tecnologia e condições de vida – para bem desempenhar a sua missão.

“A nossa grande arma na Amazônia é dispor do melhor combatente de selva do mundo. Cerca de 60% [dos militares que servem na região] são de origem indígena. Eles conhecem profundamente a selva e aproveitam a selva como ninguém”, declarou à imprensa.

Embora considerasse “caótica” e “lamentável” a política federal para a Amazônia no seu período de comandante, ressaltou que o planejamento federal previa a instalação de unidades militares em todas as áreas indígenas, embora discordasse da forma de execução dessa diretriz:

“É uma coisa boa, logicamente, mas eu sempre disse que não é o efetivo que está atuando que vai resolver o problema. Temos que lutar, na Amazônia, por qualidade, por capacidade de projeção de poder, capacidade de atuação com material moderno, o reequipamento das nossas organizações militares na Amazônia. Não me comove profundamente aumentar o efetivo. Inclusive tenho pleiteado que se termine o que já existe. Tenho brigadas na Amazônia que ainda não foram completadas. Tenho instalações de pelotões na Amazônia que ainda não têm luz durante 24 horas e nem água potável saindo nas torneiras”, reclamou.

Suas críticas à ação estatal em relação aos índios se acentuaram quando ele se opôs à demarcação da reserva Raposa-Serra do Sol, dos índios Yanomami, em Roraima, a mais extensa da região, como território contínuo. Mas se calou quando o Supremo Tribunal Federal, por 10 a 1, manteve o ato. “Decisão se cumpre”.

Talvez porque, em outro ponto da sua teoria geopolítica sobre a maior fronteira de recursos naturais do planeta, sua posição coincidisse com a de todos os presidentes que ocuparam o Palácio do Planalto, mesmo depois da redemocratização: de que as organizações não-governamentais estrangeiras deveriam ser fiscalizadas e controladas, como forma de impedir a biopirataria, a influência internacional sobre os índios e a venda de terras na floresta amazônica.

O ministro da Justiça de Lula, Tarso Genro, declarara que grande parte das 100 mil ONGs que atuariam na Amazônia não cumpriam suas finalidades estatutárias: “Muitas delas escondem interesses relacionados à biopirataria e à tentativa de influência na cultura indígena, para apropriação velada de determinadas regiões, que podem ameaçar, sim, a soberania nacional”.

O projeto de uma nova lei de estrangeiros foi concebida para que estrangeiros, ONGs e instituições similares internacionais, mesmo com vínculos religiosos, precisassem de autorização expressa do Ministério da Defesa, além da licença do Ministério da Justiça, para atuar na Amazônia Legal. Sem esse procedimento, o visitante estrangeiro teria seu visto ou residência cancelados e seria retirado do país. Nesse ponto, esquerda e direita têm partilhado a teoria sobre a permanente cobiça internacional da Amazônia, um perigo constantemente a rondar a grande floresta.

Agora, ao que sugerem os fatos recentes, o general Heleno terá a oportunidade de voltar a comandar a Amazônia a partir do ministério da Defesa e não mais de um posto subordinado, aplicando as suas ideias. Ele acompanhou o presidente eleito na visita que ele fez durante a campanha eleitoral a Marabá, no sul do Pará, a principal cidade do vale do Araguaia-Tocantins, que ocupa a 11.ª posição no ranking do Atlas da Violência.

Foi nessa região que o Partido Comunista do Brasil instalou um movimento guerrilheiro, entre 1969 e 1972. Para combatê-lo, o Exército transferiu mais de dois mil militares e criou a 23.ª Brigada de Infantaria.

Apesar de as unidades militares locais terem duplicado em relação à época da guerrilha, na reunião com os integrantes da unidade o general Heleno garantiu que o passado está superado e não tem conexão com o presente. O aumento do efetivo foi em função da relevante participação do 23º BIS na missão das Nações Unidas no Haiti, comandada por ele entre 2004 e 2005.

Admitiu, porém, que essa presença destacada do Exército se justifica por se tratar de “uma região enorme no coração da Amazônia Oriental, de grandes problemas internos, de desmatamento, de conflitos sociais e atuação de movimentos de reforma agrária. Politicamente, é importante manter uma tropa”.

Apesar dessa forte presença, os índices de criminalidade têm aumentado nesses municípios. Atividades como mineração, garimpagem, pecuária, extração madeireira e agricultura, tendo como principal eixo a província mineral de Carajás, a maior do mundo, atraem numerosos contingentes de imigrantes. A estrutura de serviços do poder público não acompanha essa progressão. A violência cresce ainda mais com esse vácuo institucional, que, provavelmente, o general Augusto Heleno queira preencher.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

3 comentários sobre “Amazônia será prioridade

  1. Para qualquer comandante militar, a Amazônia deveria ser prioridade. É onde estão a maioria das fronteiras. É onde estão os maiores estoques de biodiversidade, água doce, minerais. É onde está a vantagem competitiva brasileira no presente e no futuro. Defendê-la é essencial.

    O que não está claro no discurso do general é defendê-la de quem. Até onde eu sei quem dilapida a região não são as ONGs sérias e muito menos as populações indígenas. Basta fazer um rápido perfil dos desmatadores, dos grileiros, dos traficantes de drogas e dos políticos que querem destruir unidades de conservação e invadir terras indígenas. Qual a origem deles? A quem eles servem? Estes sim são os verdadeiros inimigos da pátria. São estes que deveriam ser os verdadeiros alvos do general. Agora ele poderá fazer alguma coisa? Talvez sim, talvez não. Basta olhar o mapa de votação do Bozo. Ele ganhou naqueles municípios onde o desmatamento ilegal é mais alto. Qual a razão de tal associação?

    Por fim, há uma inconsistência. Terra indígena na fronteira não limita a presença das forças armadas. Nunca limitou. Ao contrário, sempre houve uma relação produtiva. A relação é tão produtiva que o próprio general reconhece que o exército que protege a Amazônia de fato são nativos de origem indígena.

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    Publicado por Jose Silva | 2 de novembro de 2018, 07:16
  2. Na semana passada o general Heleno “informou” que o Bolsonaro não compareceu aos debates eleitorais, para evitar um atentado de uma “organização terrorista”, cuja identidade ele, Heleno, não revelaria naquele momento, “por motivos óbvios”.

    Se todas as declarações dele tiverem a mesma credibilidade que essa, estamos fritos!

    O Brasil tem um dos 25 maiores orçamentos militares do mundo. O orçamento militar brasileiro é maior do que o do Irã, que vive metido em confusões de bom tamanho, enquanto que o Brasil não entra em guerra pra valer em seu território desde o século XIX (na guerrilha do Araguaia, o inimigo eram 50 pessoas, mal treinadas, sem apoio popular, militar ou logístico, portando um punhado de armas enferrujadas, e cujos paióis foram destruídos nos primeiros meses de combate).

    Agora, a bandidagem brasileira enfrenta a polícia e o Exército (no RJ), portando o que há de mais moderno, em matéria de armamento.

    O Brasil não fabrica essas armas. Como, então, elas vão parar nas mãos dos bandidos brasileiros?

    Só há 3 hipóteses: (1) as armas são compradas em outros países e contrabandeadas para o Brasil; (2) as armas são desviadas de arsenais brasileiros e vendidas aos bandidos; (3) as duas coisas juntas.

    Em qualquer das hipóteses, isso é problema das Forças Armadas brasileiras. E elas têm falhado redondamente no enfrentamento desse problema.

    É preciso analisar com cuidado o que vem sendo feito com um dos maiores orçamentos militares do mundo, num país que não está em guerra e, mesmo assim, não consegue guarnecer as fronteiras nem evitar que seus arsenais sejam pilhados por bandidos.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 2 de novembro de 2018, 20:22
  3. Aliás, em benefício da precisão, eu deveria dizer que o Brasil tem um dos 15 maiores orçamentos militares do planeta.

    Dependendo da instituição que estuda o assunto, o Brasil oscila entre a 11ª e a 13ª posição, entre os maiores orçamentos militares do mundo, em termos absolutos.

    Esse aí é mais um dos aspectos da gestão pública em que nosso país gasta muito, e gasta mal.

    E, pelo andar da carroça, nada faz crer que alguma coisa vai mudar pra melhor.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 2 de novembro de 2018, 21:39

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