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Imprensa

O site e o Raimundo

Foi coincidência, mas uma coincidência feliz: meu site foi ao ar hoje, exatamente no dia em que nasceu meu irmão, Raimundo José Pinto (em Santarém, em 1953), um dos quatro jornalistas numa família de sete irmãos,. Se não tivesse morrido, em 3 de setembro de 2009, ele faria 65 anos, quatro a menos do que eu. Era o irmão seguinte a mim. Luiz e Elias, que vieram depois, também se tornaram jornalistas.

Trabalhamos no mesmo jornal entre 1971 e 1989, a partir de 1975 no mesmo conjunto de salas que abrigaria a sucursal amazônica de O Estado de S. Paulo. O projeto acabou se reduzindo a ele e eu, até eu pedir demissão para me dedicar exclusivamente ao Jornal Pessoal. Também esteve ao meu lado no Bandeira 3, semanário alternativo lançado em Belém, em 1975.

Raimundo foi um irmão fiel, um amigo leal e um excelente companheiro de trabalho, dos melhores jornalistas com os quais trabalhei. Em sua homenagem, reproduzo o obituário que a Folha de S. Paulo publicou e a not´ciia da Agência PÇará, do governo do Estado.

MATÉRIA DA FOLHA DE S. PAULO

O jornalista do Pará que ninguém percebia que era gago

TALITA BEDINELLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Raimundo era gago desde criança, mas ninguém percebia. É que logo que descobriu o problema e as primeiras gozações começaram, criou uma técnica de disfarce: estendia as letras que seriam repetidas na gagueira.
“Não po-po-de dizer” virava “não pooode dizer”, exemplifica o irmão Lúcio. Já tinha trauma porque antes de ser gago trocava as palavras.
Era chamado pelos seis irmãos de “badi bau a”, forma como passava a ordem da mãe: “não pode ir para a rua” [na verdade, era assim que ele respondia quando os moleques amigos vinham me buscar para jogar bola e eu estava de castigo: dizia que eu “não badi baua”].
Tornou-se uma criança “tímida e bastante observadora”. Já na adolescência passou a se expressar por meio da escrita e virou jornalista, profissão do pai e de três dos irmãos.
Começou no jornal “A Província do Pará” e tornou-se correspondente na Amazônia para “O Estado de S. Paulo”, conta Lúcio.
Ganhou dois prêmios “Esso” na década de 1970 e virou presidente do Sindicato dos Jornalistas do Pará.
Gostava de contar como escapou da morte, aos 25 anos: deveria viajar em um avião teco-teco para o Amapá, onde havia acontecido um naufrágio. Raimundo se atrasou e acabou perdendo o voo. A aeronave caiu e nenhum dos ocupantes sobreviveu.
Morreu aos 56 na última quinta-feira, em decorrência de um câncer no estômago descoberto há três anos. Deixou a mulher e três filhos.
NOTA DA AGÊNCIA PARÁ

O jornalista paraense Raimundo José de Faria Pinto, 56 anos, faleceu na noite desta quinta-feira (3), em um hospital de Belém, vítima de câncer. Nascido em Santarém, Raimundo Pinto foi um dos mais importantes jornalistas de sua geração. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Pará, eleito em 1992. Nos últimos anos, era editor do site Pará Negócios, voltado à cobertura de assuntos econômicos, sociais e políticos na Amazônia.

Ao reconhecer a importância e a seriedade do trabalho realizado pelo jornalista em 38 anos de plena atividade, o Governo do Pará manifesta seu profundo pesar à família, amigos e admiradores de Raimundo José.

A paixão pela reportagem, vivenciada em vários jornais do país, foi a grande motivação de uma carreira iniciada em 1971, no jornal “A Província do Pará”, na época um dos mais importantes do Estado. De 1975 a 1993 foi correspondente em Belém dos jornais “O Estado de S. Paulo” e “Jornal da Tarde”, e da revista “Visão” a partir de 1978.

Trabalhou como repórter do jornal “O Liberal” em 1976. Foi repórter e editor do jornal “O Estado do Pará”, no período de 1977 a 1980, e editor do jornal alternativo “Bandeira 3”. Trabalhou como repórter e editor da Sucursal do jornal “Gazeta Mercantil” em Belém, de 1996 a 2004. Como assessor de imprensa, atuou na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de 1981 a 1989, e na assessoria de comunicação do Governo do Pará em dois períodos – de 1995 a 1996 e de 2003 a 2004.

A larga experiência no mundo da reportagem Raimundo registrou no livro “Repórter”, editado em 1995. Também foi co-autor dos livros “Panará – a volta dos índios gigantes”, publicado em 1997 pelo Instituto Socioambiental, e “O Novo Brasil”, editado em 2002 pela Editora Nobel.

O trabalho de Raimundo José Pinto alcançou reconhecimento nacional com o Prêmio Esso de Jornalismo, que ele ganhou em 1976 pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, e quando recebeu Menção Honrosa do Prêmio Esso em 1977 pela série de reportagens “Amazônia, a ocupação ilegal”, também publicada no “Estadão”. No Pará, Raimundo ganhou o Prêmio Aimex de Jornalismo em 2003, 2004 e 2005.

Raimundo Pinto era casado com a jornalista Sílvia Sales e tinha três filhos.

Discussão

2 comentários sobre “O site e o Raimundo

  1. É sempre bom recordar o Raimundo. Excelente pessoa. Extremamente ético e profissional.

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    Publicado por Jose Silva | 7 de janeiro de 2019, 16:12

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