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Imprensa, Sem categoria

Jornalismo de combate

O que se pode esperar de um jornal quinzenal, em formato pequeno (equivalente à folha de papel A4), sem o uso de cores, sem fotografias (apenas poucas ilustrações a traço), escrito por uma única pessoa, com matérias analíticas e interpretativas por vezes longas, sempre crítico (principalmente ao poder público), defensor da Amazônia, que nunca aceitou propaganda, vendido em bancas de revistas em Belém do Pará?

Quando fundei esse jornal, em setembro de 1987, achei que, como mais de dois terços dos jornais alternativos, não completaria um ano de vida. A teoria vigente no país a partir da redemocratização, dois anos antes, era de que a fase das publicações alternativas se esgotara. Sem a censura estatal e o regime ditatorial, a grande imprensa (conservadora, burguesa, reacionária – aos olhos da esquerda) publicaria tudo que quisesse, sem precisar de complemento.

Jornal Pessoal, contrariando essa tese, só surgiu porque a grande imprensa se recusou a publicar a história completa (e explosiva) sobre o assassinato do ex-deputado estadual Paulo Fonteles de Lima. Eleito pela sigla do PMDB (atual MDB), ele foi o primeiro advogado de posseiros nos fronts violentos da disputa pela terra na Amazônia. Desagradou muitos fazendeiros, líderes empresariais e políticos. Quando não conseguiu se eleger deputado federal, abandonou o PMDB (que ocupara o poder local) e assumiu a sua filiação ao PC do B, como comunista. Foi assassinado oito meses depois da derrota eleitoral.

Durante três meses levantei todas as informações necessárias para dizer quem o matara, como fora o assassinato, os mandantes do crime, seus interesses. Foi o primeiro crime político de responsabilidade de um consórcio, reunião de proprietários de terras organizados num conglomerado, sob regras de sigilo.

Criei o JP para que essa matéria chegasse ao público, já que a imprensa não se interessara pela história ou não queria assumir o risco. Talvez algumas semanas depois, como de regra, o jornal encerraria a sua carreira, dando por cumprida a sua missão. Mas o JP sobreviveu até o mês passado. Com 31 anos e meio, sua última edição, em dezembro, foi a cabalística 666.

Em mais de sete mil páginas, o jornalzinho fez o que pôde para não deixar que passassem em brancas nuvens acontecimentos fundamentais da história contemporânea da Amazônia e que uma tentativa de contextualização pudesse ser empreendida com base em fatos concretos, não em lendas, devaneios ou mitos.

Ao longo desse período, fui processado 34 vezes na justiça por desembargadores, empresário, madeireiro, político. Em 19 ações, os autores eram jornalistas ou donos do que era então o mais poderoso grupo de comunicação do norte do país, algo inédito nos anais da imprensa mundial.

Não prevaleceu o primado da verdade nesses processos. Em um deles, fui condenado por chamar um empresário, o poderoso Cecílio do Rego Almeida, de pirata fundiário. A justiça estadual reconheceu a ofensa à honra do empreiteiro, embora eu tenha provado que ele era mesmo grileiro. Não um apropriador de terra pública qualquer: a área que ele quis tornar sua por um golpe cartorial era de tamanho suficiente para constituir o 21º maior Estado brasileiro. A justiça federal anulou os registros imobiliários fraudulentos, usando inclusive provas apresentadas no meu jornal.

Também fui processado por ter classificado como espancamento o que não passara de “agressão”, quando fui atacado por um dos donos do grupo Liberal, insatisfeito com uma das matérias que escrevi sobre a corporação, sem citá-lo. Dois policiais militares da ativa davam cobertura ao agressor, em horário de trabalho. Eram seus seguranças particulares.

Não foi fácil manter um jornal desse tipo por tanto tempo, remando contra a corrente dominante, como um outsider. Mas não foram apenas espinhos nesse jardim de incidentes e acidentes. Recebi vários prêmios internacionais, sendo reconhecido, pela organização Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, como um dos 100 heróis da imprensa no mundo. Matérias sobre o jornalzinho saíram – e com destaque – em publicações como Washington Post, New York Times, Los Angeles Times, Le Monde, The Guardian, Corriere de la Sera ou La Reppublica.

Acabei vencido pelas contingências do tempo, como me vi obrigado a admitir em uma mensagem ao meu leitor, que partilho com os que me acompanham neste espaço, como se segue:

Jornal Pessoal não circulará na 1ª quinzena de dezembro, nem na 2ª quinzena. Na verdade, deixou de existir na versão impressa em papel. Tomei a decisão de encerrar suas atividades neste último dia 19, depois de uma reflexão extensa e intensa sobre a sua existência. Para não se repetirem os finais anteriores, que nunca chegaram a ser definitivos, não haverá uma edição de despedida. O anúncio do fim é este, pela via eletrônica.

São várias as causas da exaustão do JP, algumas mais antigas, outras mais recentes. Sua prolongada sobrevivência, por 31 anos e meio, deveu-se mais a um ato de vontade (ou de teimosia), cada vez menos sustentável nos fatos concretos e numa tendência histórica voraz.

1 – O jornal nunca teve real viabilidade comercial, por se recusar a aceitar publicidade, opção que fez para garantir sua plena independência e autonomia, como crítico do poder, fora do alcance dos grupos de pressão, ainda quando recorressem à força intimidatória.

A tênue margem de lucro foi se estreitando na medida da redução da venda avulsa, efeito de novos hábitos de leitura e, como derivação, da redução drástica dos pontos principais de venda, as bancas de revista, ameaçadas de extinção. Atualmente, o jornal já não se paga. Sem capital, não tem como cobrir o prejuízo.

2 – O apoio voluntário se revelou incerto; na apuração dos números, insuficiente para garantir a perenidade da publicação. A esmagadora maioria dos que se declararam favoráveis ao JP se comportou, quando muito, como simples leitor, não como voluntário na defesa de um jornalismo crítico.

Não é inexpressivo o número dos que simplesmente deixaram de comprar o jornal por algum motivo diverso da proposta que ele encarnava, ou nunca o compraram. A 5 reais o exemplar, o jornal era tido até como caro.

3 – Com o surgimento deste blog e dos quatro outros que criei, há mais de quatro anos, manter o padrão do JP ficou cada vez mais difícil e sacrificante. Nas últimas edições, cresceu o aproveitamento de matérias do blog. Mesmo reescritas, aumentadas e atualizadas, elas foram ocupando espaços cada vez maiores.

A rigor, nem poderia ser de outro jeito. Houve dias em que escrevi mais de 10 notas ou matérias mais longas neste blog, na tentativa de ser contemporâneo de eventuais avalanches de fatos importantes. O blog era quase um jornal diário, a despeito de tão poucas contribuições de seus leitores – e tão numerosas críticas e acusações. Impossível não abordar os mesmos temas no JP sem desatualizá-lo.

Ainda mais porque, informado gratuitamente, muito leitor não se dispunha a pagar para manter o jornal em papel. Em ação, a lei do menor esforço ou o mandamento de Gerson para tirar vantagem de tudo.

 

4 – O desgaste físico e emocional não foi só por causa de uma produção em escala industrial de textos, precedida, evidentemente, por pesquisa e investigação, acompanhada por reações tão diversas dos leitores, a exigir a resposta devida nos casos extremos.

Sozinho, tinha que cuidar da edição, impressão, expedição e distribuição do jornal, num processo que costumava se alongar e atrair acidentes de percurso. Por vezes, o tempo decorrido entre a finalização dos textos e a chegada do jornal às ruas alcançou uma semana. O JP envelhecia nesse percurso, para minha frustração e angústia.

Esses fatores e mais alguns, de natureza mais pessoal do que o previsto pelo título do jornal, me levaram a amanhecer no dia 19 com a decisão tomada: o fim da edição impressa em papel do JP. Como o jornal não terá mais um número, a circunstância me dará a aptidão necessária para uma decisão final.

Final, porém, não do meu jornalismo – ou, pelo menos, ainda não.

Está em finalização um site para abrigar todos os meus blogs, com o incremento do noticiário cotidiano deste, a coleção do JP, meus livros e vídeos. O acesso será possível com o pagamento mensal de 12 reais, renovável a cada 30 dias. Quando o site estiver pronto, comunicarei o endereço ao leitor, talvez na quarta-feira da próxima semana, dia 26.

Sigo o rumo que me dizem ser inevitável como um desafio a mais na minha vida e com a nítida sensação de que muito de mim ficou pelo caminho rumo à atualização tecnológica, mas ainda em busca de um mundo melhor, um Brasil à altura da sua grandeza e uma Amazônia com direito de ser o que é. Se possível, na companhia dos meus leitores.

O site já está no ar. Pode ser acessado pelo endereço www.lucioflaviopinto.com. Espero todos vocês por lá.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

9 comentários sobre “Jornalismo de combate

  1. O fãboy do Moro e da Lava jato reclamando da justiça? Que coisa rapaz.

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    Publicado por James | 12 de janeiro de 2019, 23:30
  2. A luta não foi em vão e vai fazer falta.

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    Publicado por adson | 13 de janeiro de 2019, 15:45
  3. Infelizmente acabou, esse espaço na internet é mais acessado, seus sonhos Lúcio foram realizados agora é aguardar o sucesso deste seu trabalho na interne. Parabéns pelo seu empenho e dedicação com a verdade.

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    Publicado por Antônio Villar Pantoja Júnior | 13 de janeiro de 2019, 17:46
  4. … como nos bancos privados:
    Esperar competência de um governo brasileiro é sonho; mas se a equipe Bolsonaro aproveitar o rompante e a verborragia despejada na posse dos novos presidentes dos bancos nacionais – aqueles que disseram que “a coisa tem de ser como nos bancos privados” – sugiro começar por um serviço de atendimento ao público minimamente decente, que faça descer a “ponte-elevadiça-do-castelo” e os boçais venham atender o público c.o.m.o n.o.s b.a.n.c.o.s p.r.i.v.a.d.o.s – principalmente aquela turminha encastelada no prédio da Governador José Malcher esquina com a José Bonifácio, que tem uma assessora especialista em engambelar os outros com conversinha fiada pelo interfone e um gerente que em vez de cafezinho bebe nitroglicerina.

    A volta do Pastore…
    O novo presidente da CAIXA, Pedro Guimarães, ao defender o retorno dos juros leoninos praticados no sistema finançeiro habitacional acessível à classe média, me lembrou aquela famosa frase do Pastore: “e se não tiver condições de quitar a hipoteca só metendo uma bala na cabeça e deixando o imóvel quitado para a viúva”.
    _____

    Helder e a herança do Jatene:
    Receio que Helder Barbalho vá passar quatro anos apenas consertando aquilo que foi abandonado pelo ex-governador em nome da “poupança do Simão”. Na lista já estão as reposições do piso nacional dos professores, a precariedade do sistema prisional (onde fugas ocorriam quase diariamente), o mangueirão caindo aos pedaços, etc.

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    Publicado por J.Jorge | 15 de janeiro de 2019, 08:07
  5. Utilidade pública:

    Jornalismo e jornalista, pois!

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2019/01/por-ora-o-comeco.shtml

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    Publicado por Luiz Mário | 24 de janeiro de 2019, 11:00
  6. INTERVENÇÃO FEDERAL NA VALE, JÁ!

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    Publicado por Luiz Mário | 28 de janeiro de 2019, 11:33

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