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Ecologia, Minério

A lágrima secou

“Nós estamos chorando a seco”, respondeu, triste, desolada, uma das vítimas da tragédia de Brumadinho. Vítima, sim, embora com vida. Tão vítima quanto quem morreu. Ela como milhares de outras pessoas atingidas pelas ondas da tragédia.

Quatro dias depois do rompimento da barragem, quando a senhora foi entrevistada, anteontem, amigos e parentes dela continuavam desaparecidos. Mas ela já não possuía mais lágrimas para expressar a sua dor. Dor multiplicada pela reconstituição imaginária do momento do acidente.

Imagine-se uma das cenas do desastre, a cena predominante. Dezenas de pessoas almoçando no refeitório, conversando animadamente, relaxadas entre os expedientes matutino e vespertino de jornada. Elas ouvem um estrondo e se assustam. Quem não conseguiu reagir com uma rapidez excepcional, foi atropelado, esmagado e arrastado por uma densa lama formada por água, solo e lascas de ferro. Seus corpos foram estraçalhados e espalhados por uma vasta área. Sobre elas, toneladas de matéria agressiva, num sepultamento selvagem, brutal, desumano.

Tudo isso sob a tutela da maior empresa privada brasileira (que foi estatal por 55 anos, até 1997), a maior exportadora da economia do país, a segunda maior mineradora do mundo, com valor de mercado de 300 bilhões de reais. Esse valor caiu R$ 70 bilhões depois do desastre, mas já está se recuperando no feroz jogo especulativo da compra e venda de papéis nas bolsas de valores. Logo, voltará ao valor anterior.

A Vale foi saneada financeiramente, reduziu sua enorme dívida, melhorou-lhe o perfil, bate recordes de produção, tem muito dinheiro vivo, tem as melhores jazidas de minério de ferro do planeta, dentre façanhas que deverão ser exibidas no seu balanço, no próximo mês, se tudo continuar normalmente, ou até o final de abril.

O complexo minerário de Brumadinho representa 2% da sua produção. Mesmo quando toda atividade de lavra for suspensa para o fechamento de 10 barragens semelhantes, condenadas há muito tempo e proibidas em alguns países, o corte não irá além de 7%. As minas de Carajás, que utilizam a melhor tecnologia ao dispor de qualquer mineradora em todo mundo, garantirá a sua condição de maior vendedora interoceânica de minério de ferro do mundo.

Já Brumadinho se juntará à Itabira de Carlos Drummond de Andrade como mais uma foto na parede. E como dói!

Discussão

Um comentário sobre “A lágrima secou

  1. Cadê o nacionalismo do embusteiro milico que grita contra a comunista Cuba?

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    Publicado por Luiz Mário | 30 de janeiro de 2019, 10:38

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