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Ecologia, Imprensa, Minério

A imprensa que Vale

O desastre de Brumadinho tem sido acompanhado com destaque, Spreensão e indignação pela imprensa nacional e internacional. No Pará, o segundo Estado de maior atuação da Vale no país, com interesse decrescente. O Estado é o segundo a abrigar mais barragens destinadas à mineração, 20 no total, oito de alto risco potencial, como a do córrego do Feijão.

Hoje, o Diário do Pará reservou na sua capa ao rompimento da barragem o menor dos espaços, no pé da página, com quatro estreitas linhas de chamada. O texto está desatualizado. Cita 55 corpos, quando já eram 99, e 259 desaparecidos (haviam diminuído para 257). Os dados corretos só aparecem numa página interna.

Na capa, O Liberal deu ao desastre em Minas Gerais, provocado pela Vale, meia página, no alto, com uma foto aberta em todo esse espaço, como tinha que ser. Mas cometeu a façanha de não citar uma única vez o nome da mineradora. Aliás, dentro do primeiro caderno o noticiário é fraquíssimo. Jornais nacionais e mineiros dão de 2 a 4 páginas ao fato. Alguns chegaram a seis páginas de cobertura.

O noticiário interno do jornal do governador Helder Barbalho e do senador Jader Barbalho é até maior do que o da folha impressa dos Maiorana. Uma manchete do Diário até surpreende: “Desastre matou professora que era crítica da Vale”.

O texto descreve a morte de Sirlei Brito Ribeiro, de 48 anos, soterrada pela lama de rejeito de minério de ferro. Nenhuma referência, porém, à sua anunciada relação crítica com a Vale. Ela era secretária de Desenvolvimento Social de Brumadinho e coordenadora do curso de Direito da Faculdade Asa.

Sua sobrinha, Eliana Cristina de Brito, declarou ao jornal local O Tempo, que ela é lembrada por todos pela solidariedade e pela luta contra a atuação das mineradoras.

“O sentimento que a gente tem hoje, não só a família, mas a cidade como um todo, porque ela sempre foi muito ativista, é de tristeza e uma revolta muito grande. Ela sempre lutou contra os abusos que as mineradoras praticam aqui na cidade, principalmente na comunidade de Córrego de Feijão, onde ela morava, e acabou sendo levada por aquilo contra o que ela lutou por tanto tempo”, declarou Eliana.

Sirlei era vista pelas mineradoras como um obstáculo. “Ela estava sempre levantando questionamentos em reuniões públicas, com a comunidade, não só em relação à questão do dano ambiental que a mineradora traz para a região, mas também a riscos de rompimento de barragem. A gente espera que as autoridades tenham uma atitude contundente, porque isso vai acontecer de novo, e a Sirlei gostaria muito que a luta dela tivesse continuidade”, disse a sobrinha.

Sirlei estava em casa na hora da tragédia. Ela morava a cerca de 500 metros da mina da Vale. De acordo com o sobrinho, Vinicius Eduardo de Brito, de 25 anos, o caseiro e a empregada estavam com ela no momento do rompimento da barragem, mas conseguiram correr.

“A gente espera que a Vale pague por tudo o que cometeu. A gente espera que eles não saiam impunes, não façam como fizeram em Mariana e deem atenção para as famílias. Minha tia lutava porque sabia que um dia iria acontecer um acidente desse”, afirmou Vinícius ao jornal.

Na Câmara Municipal, Sirlei recebeu homenagens com faixas, músicas e orações. Os livros que ela escreveu também foram expostos. “Era uma pessoa maravilhosa, amiga, exemplar, com um coração em que todo mundo cabia dentro, fazia muita caridade. Aprendi demais com ela”, testemunhou o estudante de direito Maxwell Rosa, de 22 anos, aluno da professora por um ano.

Sirlei ainda fazia trabalhos sociais. Ela criou um grupo chamado “Solidariedade” e mantinha uma casa de acolhimento para crianças carentes em Brumadinho.

“Ela fazia festa de aniversário para as crianças, doava o tempo dela aos fins de semana para estar junto com elas, quem ela pôde ajudar ela ajudou. Era uma pessoa extraordinária mesmo”, contou o colega de grupo Ademir Cândido, de 49 anos.

A história de Sirlei ficou pela metade no Diário. O acidente de Brumadinho, que caminha para se tornar o maior desastre com vítimas humanas da história da mineração em todo mundo é detalhe na imprensa paraense. Ela parece estar fazendo tudo ao seu alcance para merecer a farta publicidade da mineradora Vale. E algo mais.

Discussão

3 comentários sobre “A imprensa que Vale

  1. Corrupta elite.

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    Publicado por Luiz Mário | 31 de janeiro de 2019, 12:11
  2. Mineração é vender o futuro a preço de miçangas.

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    Publicado por Cabano.. | 31 de janeiro de 2019, 17:21
  3. Jornalismo vergonha!

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    Publicado por Marcio Monteiro | 31 de janeiro de 2019, 21:12

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