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Cultura

Do freio ao acelerador

Conversei algumas vezes com o cardeal Agnello Rossi, arcebispo de São Paulo no auge da ditadura militar. Era, com o cardeal Eugênio Salles, no Rio de Janeiro, e Vicente Scherer, em Porto Alegre, o trio de apoio institucional do regime nas duas maiores cidades do país e no perigoso extremo sul, reduto do proscrito varguismo – de Getúlio, Jango e Brizola, e do III Exército.

Apesar do seu forte acento conservador, dom Agnello (como, por aqui, dom Alberto Gaudêncio Ramos, arcebispo de Belém) proporcionava boas conversas para um repórter jovem, curioso e de origem católica, como eu. Ele parecia gostar de mim. Abria o seu palácio para esses encontros. Lembro-o em função de uma frase que ele costumava usar para definir a sua posição:

“Meu filho, na Igreja é preciso saber a hora de pisar no acelerador ou no freio – ou no ponto morto”.

Confesso que, no fundo, admirava essa sua capacidade, tendo os militares do II Exército e do DOI-Codi nos calcanhares. E padres afoitos ou indignados na linha de frente. Nos momentos em que deixava o carro ficar em ponto morto, ele dava boas informações. Na ocasião de frear, ele desconversava, sem perder a paciência pastoral.

Conto a história a propósito do recente e inaugural encontro promovido pelo papa Francisco com a cúpula da Igreja, em Roma, para tratar da pedofilia no clero. As líderes feministas não deixam de ter razão na sua crítica. De concreto, realmente, nada foi decidido no local. Mas enquanto se realizava o conciliábulo, o cardeal número 3 do Vaticano era condenado por esse crime. E o papa, com o pé no ponto neutro, mandou que ele se afaste dos menores, enquanto se consuma a sua condenação pela justiça.

O celibato ainda subsiste, contrariando a própria evolução histórica. Mas as portas de acesso às entranhas da Igreja foram abertas. Sem revolução, mas com mudança efetiva. O papa francisco veio para ficar, se ficar.

Discussão

3 comentários sobre “Do freio ao acelerador

  1. Vive-se, apesar da maioria ainda não ter acordado, a era da Transparência. Os dogmas, não só das igrejas, irão se desfazer. Paz&saúde

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    Publicado por Valdemiro A. M. Gomes | 26 de fevereiro de 2019, 10:30
  2. Mas é preciso que se diga que as portas estão sendo escancaradas não pelo Papa e o Vaticano, mas apesar de ambos. O cardeal George Pell já respondia a processo por estupro e abuso sexual de crianças, quando o Papa Francisco o nomeou prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano, e membro do C9, o conselho de 9 cardeais que assessora diretamente o pontífice. Seu segundo julgamento foi encerrado em dezembro do ano passado. Só agora, em fevereiro de 2019, depois da divulgação do resultado — que já era conhecido pelos diretamente envolvidos — é que o Papa finalmente o afastou de suas funções.

    Nesse quesito, o Papa Francisco ainda está devendo. E muito! Tem que tirar o pé do freio, pra variar…

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 26 de fevereiro de 2019, 12:31
  3. Ministro, escolas federais, bandeira, execução de hino nacional, gravações e o slogan do capitão-presidente.

    Vivi em minha juventude no colégio marista algo muito parecido com aquilo que o governo federal tenta ressucitar nas escolas públicas. Lá era quase diária a execução do hino nacional (e do colégio) e eles também gravavam e tiravam fotos em todos os eventos cívicos – muito frequentes, tudo isto temperado com uma segunda conotação, religiosa conservadora.

    Obrigar hoje alunos de escolas a fazer o mesmo, trocando a conotação religiosa por palavras de ordem direcionadas por lideranças políticas controvertidas é algo ainda mais desnecessário.

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    Publicado por J.Jorge | 27 de fevereiro de 2019, 08:17

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