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Ciência, Ecologia, Educação

O kibutz científico

Minha última esperança em um destino melhor para a Amazônia, diferente do que lhe vem sendo imposto há meio século, é o kibutz cienífico.Há vários anos apresento esse projeto, sem qualquer retorno. Por isso, fiquei feliz com a matéria divulgada pelo site AmazôniaLatitude (o link é amazonialatitude.com/2019/04/10/kibutz-cientifico-na-amazonia/)., sob o título “Kibutz Científico: uma saída para a Amazônia”. É o texto a seguir, de responsabilidade da publicação.

Lúcio Flávio Pinto é o único brasileiro na lista dos 100 jornalistas mais importantes da ONG Repórteres sem Fronteiras, publicou mais de 20 livros sobre meio ambiente e Amazônia (entre eles Guerra Amazônica, Jornalismo na Linha de Tiro Contra o Poder), foi professor visitante no Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida (1983-84), assim como no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos e no curso de jornalismo da Universidade Federal do Pará. Ao longo de seus 50 anos de experiência, acumulou cerca de 33 processos relativos ao seu trabalho de denúncia e combate aos grandes monopólios na região amazônica. Com tanto tempo de luta, Lúcio acredita apenas em uma utopia para solucionar a destruição da Amazônia.

“Não é o desmatamento zero, que ninguém nunca vai conseguir alcançar, não é fechar porteira, porque é constitucionalmente impossível, a prática é impossível – seria colocar o cientista na linha de frente”.

Lúcio defende a construção de um Kibutz Científico na Amazônia, com a criação de um campus universitário dentro da floresta com o objetivo de formar doutores em engenharia florestal com fortes ligações ao meio em que estão inseridos. Na visão do jornalista, o candidato à vaga nessa universidade teria que, já no ingresso, apresentar um projeto de doutorado que deve ser executado durante todo o curso. Esse projeto, que pode ser alterado durante o percurso, deve ser viável econômica, social e ambientalmente. Ao final do curso, o engenheiro recebe, além do diploma, os 500 hectares de terra no qual ele desenvolveu sua pesquisa no regime de comodato – que consiste no empréstimo de um terreno ou imóvel por determinado período de tempo e pode ser firmado oralmente, uma forma de acordo informal entre comodante (que empresta) e comodatário (que recebe o empréstimo).

“Certamente, nesses sete anos em que ele executar o projeto, ele vai conversar com as populações nativas, os vizinhos vão lá no projeto dele, é o que o Banco Mundial criou como PDA ( Projeto Demonstrativo), mas não demonstrativo cientificamente, com uma base em Nova Iorque, Londres, Brasília, São Paulo, mas sim no meio da mata, conversando e demonstrando para a população nativa que a ciência tem um grande fator – ela economiza tempo”, avalia Lúcio.

Kibutz

Concebidas em território israelense, os Kibutz são uma modalidade de fazenda comunitária que buscam a sustentabilidade da produção e a igualdade social dentro de suas delimitações. Todo o trabalho e seus frutos são divididos igualmente entre os membros. Sua estrutura contempla escolas, hospitais e indústrias para o beneficiamento da produção interna – seja ela voltada para a agricultura ou pecuária.

Mesmo dentro de um modelo de democracia participativa, os Kibutzins (como são chamadas as fazendas individualmente), falharam em conseguir a autossuficiência na produção de suprimentos básicos, necessitando de ajuda financeira do Estado de Israel. Com o tempo, algumas comunidades desenvolveram manufaturas como alternativa para a economia interna, o que culminou em uma indústria para a fabricação de ferramentas para corte de diamantes no Kibutz Degania, que rende milhões de dólares todos os anos. O famoso modelo de irrigação por gotejamento também foi desenvolvido dentro dessas comunidades, especificamente no Kibutz Hatzerim, resultando na multinacional Netafim, que teve uma renda bruta de US$133 milhões em 2017, e projeta um amento de 50% em sua receita até 2020. Segundo o site do Kibutz Hatzerim, a empresa possuí 17 fábricas ao redor do mundo e emprega mais de quatro mil pessoas.

Adaptação do Kibutz para a Amazônia

Lúcio compreende que para implantar um regime de Kibutz na Amazônia será necessário o apoio do Governo Federal, uma vez que a possibilidade de auto sustentabilidade é inviável, tanto na área de manutenção quanto de segurança. Essa ideia se reflete o argumento de tornar o projeto a ser desenvolvido pelos estudantes economicamente viável, que possa encontrar um mercado e coexistir com a sociedade de consumo de forma sustentável – a mesma alternativa encontrada pelo Kibutz israelense. Para isso, defende que o cientista precisa ter uma relação pessoal com a terra, pois tem ciência que o cientista incauto tem a capacidade de agravar a situação.

“Então eu acho que se não colocar a ciência dessa forma, não a ciência convencional, mas essa ciência do Kibutz…. o que é o Kibutz? É uma unidade que luta contra as questões adversas – um regime socialista. Não é que eu queira o socialismo, é o capitalismo que vai continuar, mas a forma ali é a da missão, mas não uma missão pela ciência – é o cidadão que começou lá, solteiro, jovem, iniciando a graduação, que se torna, ao fim de sete anos, o dono de um imóvel de grande valor, que vai produzir bens que encontram um mercado, com preços que remuneram, e que é viável economicamente, e que ele mostrou aos vizinhos que ele é o melhor plantador daquela área. Se ele não mostrar isso, do que adianta a ciência? ”

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. É o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014.

Discussão

15 comentários sobre “O kibutz científico

  1. Lúcio, a idéia ë excelente. O problema é convencer os urbanóides viverem e produzirem no interior. Cada vez mais os jovens querem menos aventuras e mais estabilidade em um emprego público qualquer.

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    Publicado por Jose Silva | 11 de abril de 2019, 08:19
    • Também os grupos dominantes da ciência brasileira não querem. Muito menos o governo. Alguns anos atrás, expus minhas ideias para técnicos da área ambiental do BNDES. Eles aprovaram a ideia. Mas nem o artigo que escrevi saiu na publicação do banco sobre o Fundo Amazônia.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 11 de abril de 2019, 09:01
  2. o pior entrave, impedimento ou indisposição para com uma proposta viável e melhor que as intervenções impostas até hoje a toda a amazônia, é termos um povo cuja maioria nascida aqui na região, sem a necessária e cada vez premente educação amazônida, um povo analfabeto para sua própria história, se não, não estaríamos vendo um amazônida como este jornalista, clamando só no deserto!

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    Publicado por felipe puxirum | 11 de abril de 2019, 10:13
  3. Há que continuar semeando. Nem todas as sementes germinam. O semear é acreditar. Eu acredito em tua semente , caro, bravo, persistente, Lúcio. Eu aqui venho regar tua semente. Você, que lê este, regue também a semente Kibutz da Amazónia para que ela possa chegar ao seu amigo, a Embrapa, ao reitor, ao Governador, ao Presidente, a ONU, …
    Regar, acreditar, é preciso
    Paz&saude

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    Publicado por Valdemiro A. M. Gomes | 11 de abril de 2019, 10:39
  4. Eu só vou depois que o Lúcio e seus camaradas estiverem lá. Quem deu a ideia vai na frente. Mandem fotos pelos jornais que eu vou.

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    Publicado por Zé Carlos | 11 de abril de 2019, 17:04
    • Caro Zé Carlos: esse é o tipo de resposta que desfavorece a inteligência e favorece a manutenção dos erros. É ironia vazia e estéril. Sozinho, já fui muito ao interior da Amazônia. Você encontrará textos meus sobre os mais remotos lugares da região, onde a notícia estivesse. Percorri a Amazônia inteira entre fins dos anos 1960 e fins dos 1990. Por que, a partir daí, as viagens foram rareando? Porque viajar pela Amazônia exige dinheiro, matéria prima que sempre me faltou a partir do momento em que rompi com a grande imprensa e me meti no jornalismo alternativo. O capital do JP não me permite ir além do Ver-o-Peso. Felizmente, supro essa falta com as fontes que estabeleci nas viagens e a minha experiência “ao vivo”.
      Quanto ao kibutz, vou ignorar o seu sarcasmo, tão absurdo ele é.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 12 de abril de 2019, 09:19
      • É verdade. Sou burro demais. E me perdoe por não atentar ao fato de que você não pode ir além do Ver-o-Peso. É que eu não estou conseguindo ultimamente cruzar as fronteiras da realidade. Mas seria uma boa lição de vida montar um esquema kibutiano no mato, e a gente tudo ganhar a mesma coisa, um paraíso perdido no Éden amazônico. Sou burro em não antever o quanto seria maravilhoso uns ganharem pelo trabalho dos outros, e acabar logo com a iniquidade da desigualdade econômica e social. Preciso ler mais Karl Marx, até que se funda em meu próprio ser e se torne minha razão de existir, às favas com os fatos.
        Sua ideia é boa. Um casamento surreal de kibutz com livre mercado, mas vá lá, é boa…
        Não deu certo ainda a tal sustentabilidade, em Israel os kibutz já estão há muito desfigurados, onde hoje prevalecem as ideias de livre mercado, o mérito os move por grandes empresas, mas isso porque não foi tentado ainda nos rincões amazônicos para mais um teste. Dessa vez vai, a gente toca “Imagine” do John Lennon ao redor da fogueira.
        Suas experiências falam mais alto. Vale confiar. Se der certo, juro que mudo para algum kibutz na mata, estou precisando me aposentar às custas de alguém trabalhando para me sustentar, e com apoio do governo, claro. Mas prometo não fumar maconha com os jovens da “missão”. Seria absurdo demais.

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        Publicado por Zé Carlos | 12 de abril de 2019, 19:58
      • Não o chamei de burro. Esta expressão não consta do meu comentário. O que lhe peço é que releia o texto. Parece que sequer o leu.
        Não proponho uma reedição do kibutz como unidade de produção e modo de vida de colonos em uma fronteira, mas um novo modo de fazer uma ciência ajustada à realidade amazônica. Não um Éden coletivo ou individual. Um campus de formação universitária conectado a uma utopia: colocar a ciência na linha de frente, na vanguarda, adiante das frentes pioneiras econômicas. Ao inés de colonos, como em Israel, futuros cientistas dos quais se cobra a aplicação do seu conhecimento.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de abril de 2019, 09:56
      • Ok. Mas as universidades já existem por quase todo o interior da Amazônia, já vêm se espalhando pelo menos pelo interior do Pará há muito tempo. Existem boas oportunidades para os jovens, tanto nas universidades quanto na Embrapa, por exemplo.
        Considere ainda a hegemonia da esquerda mais radical e retrógrada que dominam as universidades, principalmente as públicas, que logo dariam um jeito de transformar o projeto em kibutz no sentido estrito, células socialistas no campo como o MST, a pedir dinheiro ao governo e praticar todo tipo de arbitrariedades sob o argumento de incentivo à ciência. Isso sem falar na ideia de transferir terras públicas (tomara que sejam públicas mesmo) para particulares em mais uma oportunidade para a grilagem que você tanto denunciou. Alguma dúvida de que logo começariam a aparecer os “Cecílios do Rego Almeida”?
        Vou dar uma sugestão à sua ideia: Se você quer os seus kibutz com característica de livre iniciativa e mercado, compre você mesmo um pedaço de terra e faça seu investimento. Se der certo algo que “ninguém nunca pensou”, os dividendos serão só seus. Mas não me venha com esse negócio ‘criar’ capitalismo pelas mãos de universidades públicas com projetos subsidiados pelo governo, ou melhor, pelo contribuinte, que disso já estamos todos cansados (exceto quem vive disso).

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        Publicado por Zé Carlos | 13 de abril de 2019, 10:39
      • Como parece que você não leu mesmo o meu projeto, vou reproduzir o texto.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de abril de 2019, 11:56
      • Ah, fala sério. ..

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        Publicado por Zé Carlos | 13 de abril de 2019, 15:09
      • Zé Carlos, o Lúcio vive numa atmosfera socialista. Tudo que leu e aprendeu na vida foi sob um ambiente de cultura socialista. Tirar esse viés de suas opiniões e reportagens seria como tirar a religião da cabeça de uma pessoa. Seria uma espécie de solidão total em sua vida. Há casos raros de salvação, é bem verdade.
        Ele não vai enxergar a utopia no meio de suas próprias ideias.
        Gosto muito do Lúcio como repórter. Já como ideólogo…

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        Publicado por Rosa Carla | 13 de abril de 2019, 16:41
      • Não sou ideólogo, Rosa. Neste aspecto, sou apenas um consumidor, não um propagador. Minha cultura de formação é eclética. Li muito tanto Marx quanto Weber e Manheim. Filósofos de esquerda e de direita. Muito teólogo, à esquerda, como Harvey Cox, quanto o conservador Urs von Balthaasar. Meu projeto de mestrado e doutorado era sobre o conteúdo renovador de intelectuais de direita, como Oliveira Viana e Azevedo Amaral. Daí eu não ser sectário. E merecer ataques à esquerda e à direita.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de abril de 2019, 16:55

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