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Ciência, Cultura, Educação

Minha utopia: o kibutz amazônico

O governo federal, como o principal agente no processo de ocupação da Amazônia, criou mecanismos de apoio a diversos atores no cenário dessa fronteira. Financiou grandes empreendimentos de mineração, metalurgia e siderurgia, obras de infraestrutura, assentamentos de colonos, abertura de fazendas de gado, garimpos, cultivos agrícolas – ou seja, atividades produtivas convencionais e seu suporte logístico.

Além do incremento de indicadores quantitativos, o principal efeito dessa ofensiva, que já dura mais de meio século, foi a destruição dos recursos naturais da região, traduzido, principalmente, pela derrubada de floresta numa escala jamais experimentada até agora em qualquer outro país, em qualquer época. Além da desestruturação social, repressão à cultura nativa e consolidação de um modelo colonial de exploração econômica.

Feito um balanço de todas as parcerias até agora experimentadas, resta uma, que não é inédita apenas em relação à expansão da fronteira nacional na Amazônia, mas em todo mundo: o assentamento de um novo personagem, esquecido ou maltratado pela ação oficial: a ciência e os cientistas.

O governo colocaria, nos pontos de vanguarda do espaço amazônico, núcleos de formação de mão de obra científica e de experimentação da ciência, os “kibutzim científicos”. A definição dos locais obedeceria a diretrizes extraídas do zoneamento ecológico-econômico federal, em combinação com os zoneamentos estaduais e – se existentes – municipais.

As atividades a serem desenvolvidas se compatibilizariam com as principais demandas de conhecimento nos diversos locais nos quais a frente econômica toca nas áreas ainda não ocupadas, ou onde os conflitos, produzidos tanto pela tensão entre os grupos sociais como pela incapacidade de utilizar os recursos adequados para a penetração nessas áreas, exigem a presença do poder público, como agente arbitrador e normatizador.

Vejamos um exemplo. A Terra do Meio, no vale do Xingu, no Pará, é, hoje, a principal zona de tensão entre a frente desmatadora oriunda do sul do país e a população nativa ainda em equilíbrio (mesmo que imperfeito) com a natureza. Seriam criados campi para abrigar um instituto de floresta, um centro de estudos agrários, um instituto de águas (tendo como referência a polêmica em torno da hidrelétrica de Belo Monte), um instituto de agricultura da terra firme, um núcleo de antropologia e entidades ainda a examinar.

Esses campi dariam cursos de graduação e pós-graduação, recrutando tanto os candidatos à iniciação no ensino superior quanto os que já estão em condições de se dedicar a pesquisas. As vagas seriam limitadas, para possibilitar o melhor rendimento possível. Os alunos teriam aulas convencionais, mas, já na graduação, teriam que desenvolver projetos de pesquisa que se desdobrariam para a pós-graduação.

Não apenas enquanto trabalhos acadêmicos. Um estudante de engenharia florestal receberia, a partir do momento da aceitação da sua candidatura, por comodato, um talhão de mata nativa (500 hectares, por exemplo) para nele realizar suas ideias.

Além de uma bolsa de valor significativo, ele teria acesso a um empréstimo para desenvolver operacionalmente seu lote, empréstimo que se tornaria a fundo perdido com a aprovação da tese de doutorado, no final do curso integrado (no caso de não aprovação, o pagamento seria feito em forma de prestação de serviços na rede pública de ensino, computando-se o valor subsidiado do empréstimo).

Esse aluno/pesquisador receberia permanente assistência e supervisão de técnicos de notória qualificação, nacionais e estrangeiros, submetendo-se ainda a auditagens contábeis e financeiras.

Os campi, instalados nos pontos de tensão e transição da presença humana, seriam bases para a circulação e atuação prática dos graduandos, pós-graduando e cientistas, tanto pelos ambientes acadêmicos como na interação com a população local. O objetivo seria fazer a demonstração da ciência para os habitantes nativos, ao mesmo tempo em que absorver seu conhecimento. Da mesma maneira como os alunos e seus orientadores realizariam atividades junto à população local, os moradores seriam incentivados a frequentar cursos específicos nos campi, de acordo com a natureza da s suas atividades.

Uma boa realização dessa diretriz acabaria com o velho e cruel ditado brasileiro, segundo o qual quem sabe, faz; quem não sabe, ensina. Também – e principalmente – faria a ciência ter participação direta e imediata no drama amazônico, ao invés de ser ferramenta de retaguarda ou fonte de referência remissiva, sobretudo sobre os erros cometidos.

Ela passaria à linha de frente dos acontecimentos, tornando-se protagonista da história. Não uma ciência qualquer, mas a melhor que seria possível constituir com base nas qualificações nacionais e no intercâmbio internacional.

Os kibutzim cumpririam um plano de desenvolvimento científico da Amazônia, com horizonte de 20 anos, tendo como principal suporte os zoneamentos e recursos suficientes para enfrentar um desafio que poucos empreendimentos científicos representam hoje no mundo. Evidentemente, os recursos nacionais não serão suficientes.

Acredito que todo um plano, como o que agora se quer iniciar, caso a proposta venha a ser considerada pelo menos como merecedora de apreciação, teria que ser dedicado integralmente a essa iniciativa, pelo menos para poder atrair outras fontes de financiamento.

O orçamento dos kibutzim científicos será pesado. Terá que possibilitar construir campi confortáveis em locais distantes e isolados, dar-lhes o melhor que a ciência e a tecnologia pode oferecer em cada um dos ramos do saber utilizado, oferecer aos alunos e pesquisadores remuneração capaz de mantê-los nesses locais por pelo menos oito anos e verba de investimento para seus projetos executivos ou produtivos.

Tudo isso para colocar a ciência e os cientistas onde estão as frentes pioneiras ou além delas, antecipando-as, no esforço para impedir que cheguem até esses locais, se tal é necessário ou façam melhor do que já vinham fazendo. Conciliando a inteligência com a natureza, enquanto há Amazônia para permitir essa utopia.

(Publicado pela última vez em 2017)

Discussão

4 comentários sobre “Minha utopia: o kibutz amazônico

  1. Esqueceu do fundo 157?

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    Publicado por Antonio rocha | 13 de abril de 2019, 12:10
  2. E você ao final ainda reconhece isso como utopia? Não vou comentar. Você acaba dizendo que eu não li.

    Curtir

    Publicado por Zé Carlos | 13 de abril de 2019, 15:27
  3. O MODELO QUE DEVERÍAMOS DESEJAR PARA NOSSA AMAZÔNIA – convite à reflexão sobre um filme

    Acabo de assistir ao excelente “O menino que descobriu o vento”, original Netflix, 2019. Trata-se de uma história baseada no livro de memórias “The Boy Who Harnessed The Wind”, de William Kamkwamba e Bryan Mealer. Foi exibido na seção premier do Festival de Cinema de Sundance de 2019, e começou a ser exibido na Netflix em 1º de março passado. O ‘release’ pode ser encontrado na internet, para quem se interessar por mais detalhes sobre a história de superação extrema.

    O filme conta a história de um garoto e sua família passada em um pequeno vilarejo da República do Malawi, na África Oriental, devastado pela fome após a crise mundial que se sucedeu aos ataques de 11 de setembro, fato que piorou a situação dramática das constantes secas e de um governo tirânico. Contudo, os valores da família, da livre iniciativa e da cooperação da comunidade do vilarejo prevaleceram, tornando possível vencer a mais cruel das provações humanas, a fome. Fossem esperar pelo governo, jamais teriam saído da situação desesperadora em que se encontravam, tornar-se-iam eternos clientes do poder, escravizados por uma cultura de assistencialismo a esperar sempre pela boa vontade do “príncipe”. Porque quando expostos a uma cultura coletivista e assistencialista, os homens acabam acreditando no governo como única solução para todos os seus problemas, e aos poucos vão perdendo a capacidade humana natural de superação por sua livre iniciativa. Ao revés do modelo (desfigurado) de ‘kibutz’ sugerido por você, Lúcio, está no filme muito bem explícito o que tira as pessoas da miséria, de forma sustentável.

    Mas não quero dar “spoiler” do filme; meu desejo sincero é apenas indicá-lo a quem se interessar por uma comparação do modelo de sociedade sugerido no ‘kibutz’ amazônico do Lúcio e a livre vontade de um povo, e o faço por meio de um excelente filme baseado em fatos reais, cujo ator coadjuvante é Chiwetel Umeadi Ejiofor, vencedor do Oscar de melhor ator por “12 anos de escravidão”. O ator é realmente um colosso de interpretação, um dos melhor atores de todos os tempos.

    Fosse eu professora de sociologia, jamais me perdoaria perder a oportunidade de levar “O menino que descobriu o vento” para dentro da sala de aula. Daria um excelente debate sobre a natureza humana, e de que forma se pode superar as dificuldades mais extremas (estudando, o milagre do conhecimento), sem esperar que alguém assuma a obrigação por nossas próprias vidas.

    Em especial, faço esse convite a você, Lúcio, como sociólogo, jornalista e homem culto. Assista ao filme e correlacione com a proposta que você acaba de fazer em seus dois ‘posts’. Tenho a mais absoluta certeza de que você iria se comover com a história mais emocionante de superação que você talvez nunca tenha visto. Um modelo não só de sociedade, mas de gente que deveríamos desejar para nossa Amazônia, para nosso Brasil: nunca esperar pelos outros, muito menos pelo governo, o tipo de vício mais difícil de abandonar.

    Aguardo resposta.
    Abraço de sua leitora.

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    Publicado por Rosa Carla | 14 de abril de 2019, 01:01

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