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Cultura

A França que vira cinza

Eu estava catando livros no meio do acervo da biblioteca do seminário de Ananindeua que seriam descartados. Fiz uma pausa e fui ao bebedouro. Acima dele, uma televisão estava ligada. Enquanto bebia a água, observei uma cena na tela: um prédio pegava fogo. Pensei: esses filmes de desastres estão cada vez mais realistas. Subitamente, um avião se choca com outro prédio. Saio então da minha letargia: não era ficção. Os prédios eram as torres gêmeas de Nova York, que eu visitara anos antes. A colisão era verdadeira. Mas não podiam ser. Afinal, era a cidade símbolo do império americano, então completamente hegemônico no mundo. NY era inexpugnável. Inconcebível aquele atentado. Os Estados Unidos perdiam de vez a presunção de invencibilidade.

Tive sensação semelhante ao entrar numa padaria suburbana no fim desta tarde. Passando diante de um aparelho de televisão pendurado na parede, vi a catedral de Notre-Dame pegando fogo. Não um incêndio qualquer: enormes labaredas atravessavam o telhado e subiam aos céus. O telhado, aliás, já não existia mais. Todas as peças de madeira do templo já viravam cinzas. O fogo ainda estava muito alto e as pessoas já davam como ameaçado de destruição um dos mais belos e importantes monumentos edificados pelo homem em todos os tempos, visitado por dezenas de milhões de pessoas. Todos pareciam impotentes.

Como isso pôde acontecer em pleno coração de Paris? Que França é esta, incapaz de proteger uma das mais preciosas joias arquitetônicas e históricas, bem da humanidade, relíquia inesquecível na memória dos que tiveram a ventura de conhecê-la? O amor dos franceses por sua terra e sua cultura tornava impossível sequer conjecturar, no momento de maior pessimismo, que um incêndio pudesse irromper na catedral e cumprir a sua tarefa devastadora diante de espectadores paralisados pelo choque da surpresa absoluta, enquanto autoridades já afiavam o seu vocabulário para as perorações cartesianas de estilo.

Quase duas décadas da depois da destruição das duas catedrais do império made in USA, com seu pragmatismo e seu gigantismo refratário aos detalhes e delicadezas, a destruição de Notre-Dame reduz os responsáveis pela guarda e segurança do monumento ao que agora se revelam: pigmeus da história. A França está descendo mais alguns patamares da sua grandeza de outrora.

Discussão

6 comentários sobre “A França que vira cinza

  1. Terminando “O Antigo Regime e a Revolução” do Tocqueville e aí vejo esta notícia. É realmente muito triste.
    Talvez líderes hábeis usem a comoção para poder resolver de maneira justa a crise com os Coletes Amarelos. Talvez. Senão vai mesmo parecer o que você escreveu Lúcio: a França vai continuar se apequenando.

    Abraços.

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    Publicado por Aldrin Iglesias | 15 de abril de 2019, 19:18
  2. Segundo especialistas, mesmo hoje, até para os mais modernos softwares de arquitetura, é inconcebível replicar a arte personificada nas catedrais góticas, com inúmeros simbolismos, antigos símbolos maçônicos e outras, erigidas a luz dos antigos arqueômetros.

    O Quasimodo também é lembrado nesse momento de cinzas.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 15 de abril de 2019, 20:33
  3. Verdade. Fiquei também atônito, em silêncio e contrito vendo pela TV quase mil anos de história consumidos rapidamente pelo fogo. Lembrou a tragédia do Museu Nacional. Torço pra que esses restauros não fiquem só na promessa, na memória cinzenta ou na fotografia. Vai doer.

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    Publicado por alce | 15 de abril de 2019, 22:35
    • Espero que não seja como foi no Pátio do Colégio, o embrião jesuítico de São Paulo, posto abaixo e depois reconstruído artificialmente. Nem vire a tardíssima catedral neogótica da Sé da cidade. Ou a St, Augustine, primeira cidade americana, na Flórida, paródia do original espanhol.
      O incêndio do Museu Nacional, além da tristeza que causou, aumentou o já péssimo conceito internacional que temos de destruidores de cultura. Mas o que dizer da França dos macron e demais arrivistas? Se tivesse dinheiro, iria a Paris ver com os próprios olhos o que ainda desafia a minha percepção. Mas isso aconteceu com Notre-Dame?
      Um amigo me cobrou: e o Museu de Arte Sacra? E todos os maltratados museus de Belém? Como estão em matéria de segurança?
      Entregue aos cuidados de Deus, provavelmente.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 16 de abril de 2019, 10:25
  4. A lembrar que o prédio da prefeitura pegou fogo uma vez, como as tantas habitações belemenses públicas ou privadas, de importância histórica às palafitas habitacionais. Casas de madeira ou estruturas sujeitas aos riscos. Vez ou outra os acidentes acontecem em algum lugar, só lembrando questionando o caso quando ocorrem. São esses e outros tantos acidentes. Os incêndios acabam fazendo parte da nosso história, nossa falta de cuidado ou organização. Depois prédios como o da Receita Federal e outros ficam lá desabitados, com riscos, só lembrando o que constantemente esquecemos. Mas o Museu nacional é o caso que lembra nossa preocupação e a valorização com a cultura, e ainda há quem menospreze o museu brasileiro – podia ser o tão imoortante Louvre. Queimou, queimou, como dizia o então candidato, e agora o que faremos com a nossa cultura? Mas fica a pergunta do que aconteceu com Notre Dame. Será que desceram a este nível brasileiro? Tantas perguntas e tantas reflexões.

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    Publicado por Fabrício | 10 de julho de 2019, 17:02

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