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Imprensa, Justiça, Política

A reportagem perseguida

Acredito firmemente que o Brasil é um país democrático, que a liberdade de pensamento e de expressão é um dos seus principais pilares e que a constituição federal qualifica como essencial essa liberdade, como um dos valores superiores da nacionalidade. Sei que há limitações ao exercício dessa liberdade, mas que só podem ser apurados após essa manifestação. Proibir, impedir ou reprimir o exercício desse direito substancial é censura, vedada pela lei maior. A cobrança de responsabilidade pela prática da liberdade de imprensa, de pensamento e de expressão só pode ser promovida pelo devido processo legal, assegurado o contraditório e a ampla defesa.

Por tudo isso – e por considerar que meu leitor tem direito de saber a origem da atual celeuma, desencadeada pelo monstrengo que é o inquérito administrativo instaurado pelo presidente do STF, Dias Toffoli – transcrevo a reportagem com a qual a revista eletrônica The Intercept divulgou a matéria da revista Crusoé, que motivou a iniciativa do presidente do Supremo Tribunal Federal. A reportagem pode ser acessada normalmente na internet, onde ainda se encontra.

 ‘O AMIGO DO AMIGO DE MEU PAI’: PUBLICAMOS A REPORTAGEM DA CRUSOÉ QUE O STF CENSUROU

The Intercept Brasil

NESTA SEGUNDA-FEIRA, o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou que a revista Crusoé retirasse imediatamente do ar a reportagem “O amigo do amigo de meu pai”. Nela, a publicação revelou um documento da Lava Jato de Curitiba no qual o empreiteiro e delator Marcelo Odebrecht disse ser de Antonio Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, o apelido “Amigo do amigo de meu pai”. Toffoli era assim chamado pelos executivos da empreiteira, ainda segundo o delator, em conversas privadas, trocadas quando o magistrado ocupava o cargo de advogado-geral da União.

O apelido foi capturado pela investigação em um momento em que a Odebrecht tentava aprovar projetos importantes pagos com dinheiro público, como as hidrelétricas do Rio Madeira, nas quais a AGU poderia interferir positivamente – tese não comprovada até agora. Até pouco tempo atrás, não se sabia de quem era a alcunha. Em um e-mail enviado por Marcelo em 13 de julho de 2007 a Irineu Berardi Meireles e Adriano Sá de Seixas Maia, o chefe pergunta: “Afinal vocês fecharam com o amigo do amigo do meu pai?”. Adriano Maia respondeu pouco depois: “Em curso”.

Quando demandado pela Lava Jato, esta semana, a esclarecer que tipo de tratativa estaria “em curso” entre a Odebrecht e Toffoli, Marcelo desviou: “A natureza e o conteúdo dessas tratativas, porém, só podem ser devidamente esclarecidos por Adriano Maia, que as conduziu”. Ou seja: não há, até aqui, ilegalidade cometida por Toffoli – caso o codinome pertença, de fato, a ele, o que, por ora, não se sustenta com provas ou outras delações conhecidas. O processo corre em segredo de justiça.

O Intercept não publicaria a reportagem da Crusoé. A Lava Jato, ao longo de cinco anos, vazou a conta gotas pedaços incompletos de delações para manter a atenção do público. A estratégia, que levou apoio popular à operação, destruiu, inúmeras vezes, reputações de pessoas que, mais tarde, foram inocentadas por falta de provas, boa parte delas baseadas apenas em delações como as de Marcelo Odebrecht.

No entanto, a decisão de Alexandre de Moraes é extremamente perigosa. Em seu despacho, o ministro disse que Crusoé e o site O Antagonista publicaram uma notícia falsa e que extrapolaram a liberdade de expressão. O que Moraes chamou de “típico exemplo de fake news” – a pedido de Toffoli, que pediu “a devida apuração das mentiras recém divulgadas” – é uma reportagem baseada em um documento (leia aqui). Nem Moraes, nem Toffoli e nem ninguém podem censurar a imprensa ou qualquer cidadão com argumento tão pueril. A estratégia de adjetivar qualquer notícia que desagrade aos poderosos de turno como “fake news” vem se espalhando de maneira deletéria, ferindo cada vez mais nossa combalida democracia brasileira. Essa tese não pode prevalecer, sob risco de vermos calados os críticos ao humor dos juízes. É um absurdo que deve ser combatido.

Por acreditar nisso, o Intercept publica abaixo, na íntegra, a reportagem da Crusoé.
Leia.
Compartilhe.

“O amigo do amigo de meu pai”

Por Rodrigo Rangel e Mateus Coutinho

NA ÚLTIMA TERÇA-FEIRA, um documento explosivo enviado pelo empreiteiro-delator Marcelo Odebrecht foi juntado a um dos processos da Lava Jato que tramitam na Justiça Federal de Curitiba. As nove páginas trazem esclarecimentos que a Polícia Federal havia pedido a ele, a partir de uma série de mensagens eletrônicas entregues no curso de sua delação premiada.

No primeiro item, Marcelo Odebrecht responde a uma indagação da Polícia Federal acerca de codinomes que aparecem em emails cujo teor ainda hoje é objeto de investigação. A primeira dessas mensagens foi enviada pelo empreiteiro em 13 de julho de 2007 a dois altos executivos da Odebrecht, Irineu Berardi Meireles e Adriano Sá de Seixas Maia. O texto, como os de centenas de outras e-mails que os executivos da empreiteira trocavam no auge do esquema descoberto pela Lava Jato, tinha uma dose de mistério.

Marcelo Odebrecht pergunta aos dois: “Afinal vocês fecharam com o amigo do amigo do meu pai?”. É Adriano Maia quem responde, pouco mais de duas horas depois: “Em curso”. A conversa foi incluída no rol de esclarecimentos solicitados a Marcelo Odebrecht. Eles queriam saber, entre outras coisas, quem é o tal ”amigo do amigo do meu pai”. E pediram que Marcelo explicasse, “com o detalhamento possível”, os “assuntos lícitos e ilícitos tratados, assim como identificação de eventuais codinomes”.

A resposta do empreiteiro, que após passar uma longa temporada na prisão em Curitiba agora cumpre o restante da pena em regime domiciliar, foi surpreendente. Escreveu Marcelo Odebrecht no documento enviado esta semana à Lava Jato: “(A mensagem) Refere-se a tratativas que Adriano Maia tinha com a AGU sobre temas envolvendo as hidrelétricas do Rio Madeira. ‘Amigo do amigo de meu pai’ se refere a José Antonio Dias Toffoli”. AGU é a Advocacia-Geral da União. Dias Toffoli era o advogado-geral em 2007.

O empreiteiro prossegue, acrescentando que mais detalhes do caso podem ser fornecidos à Lava Jato pelo próprio Adriano Maia. “A natureza e o conteúdo dessas tratativas, porém, só podem ser devidamente esclarecidos por Adriano Maia, que as conduziu”, afirmou no documento, obtido por Crusoé.

Adriano Maia se desligou da Odebrecht em 2018, depois do turbilhão que engoliu a empreiteira. Ex-diretor jurídico da construtora, seu nome já havia aparecido nos depoimentos da delação premiada de Marcelo Odebrecht. Ele é citado como conhecedor dos negócios ilícitos da empresa. O empreiteiro diz que Adriano Maia sabia, por exemplo, do pagamento de propinas para aprovar em Brasília medidas provisórias de interesse da Odebrecht. Ele menciona, entre os casos, a MP que resultou no chamado “Refis da Crise” e permitiu a renegociação de dívidas bilionárias após acertos pouco ortodoxos com os ex-ministros Guido Mantega e Antonio Palocci.

Discussão

5 comentários sobre “A reportagem perseguida

  1. Sou Edvison Lima, professor do Município de mãe do Rio. Sou bacharel em direito pela ufpa e militante em direitos humanos. Peço ajuda e apoio ao jornal PESSOAL (O único que conheço que divulgaria este caso), pois os servidores novos, em estágio probatório, estão sofrendo sérios casos de assédio moral e profissional na Cidade de Mãe do Rio-Pa. Inclusive com confecção de livro de ocorrências negativas específico para degenerar e destruir o histórico dos servidores. Nos ajude probo é respeitável jornal pessoal e professor Lúcio F. Pinto. Sou seu leitor desde a época da academia.

    Ps: tenho prova material e testemunhais desse livro que fere o art. 6, XXXII da CF-88 e incorre em crime de acordo com alei de abuso de poder e autoridade.

    Ps: tenho Boletim policial feito e visita ao MP de mãe do Rio marcada.

    Certo de ser atendido,

    Professor Edvison Lima.

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    Publicado por Edvilson Lima | 18 de abril de 2019, 02:36
  2. Mais uma vez Lúcio traz um pouco da sujeira que esfola a nação. Há que exigir total liberdade, transparência, para que o poder dos mafiosos seja conhecido, eliminado/reduzido. Enquanto as máfias não forem atacadas onde dói, elas continuaram existindo. Não existe corrupção sem corruptores.

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    Publicado por Valdemiro A. M. Gomes | 18 de abril de 2019, 06:13
  3. Lúcio, excelente!

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    Publicado por Jose Silva | 18 de abril de 2019, 14:43

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