//
você está lendo...
Economia, Estrangeiros, Minério, Política

Aciaria: para valer mesmo?

Reproduzo a seguir, a pedido do leitor Eduardo Brasil, o post que Hiroshi Bogéa publicou hoje no seu blog. Abre-se passagem para Marabá, já que Belém parece indiferente à questão.

O Correio de Carajás, final da semana passada, divulgou tratativas entre o governo do Estado e a Vale no sentido de anunciarem, ainda neste mês [A imprensa diz que será na próxima quinta-feira], a construção de um polo metal-mecânico em Marabá, resultante de parceria com um grupo chinês.

Maiores detalhes sobre o empreendimento, não surgiram ainda.

O que se sabe é que seria um projeto avaliado em U$ 300 milhões para produção de 700  mil toneladas/ano (no mínimo) até um milhão.

O anúncio, até agora, não provocou auê no seio da sociedade, decepcionada com promessas de outros dois projetos anteriores (Alpa e Cevital) que não passaram mesmo de promessas.

A configuração de um projeto como o que deve ser anunciado é o ideal para colocar em ignição o processo de verticalização no Distrito Industrial de Marabá?

Essa pergunta o blogueiro encaminhou a um empresário do setor siderúrgico, exímio estudioso do assunto, que pediu em anonimato a conversa.

“A questão central, disse, é que de um lado a Vale tenta postergar o máximo possível a confirmação do projeto e por outro, nosso Estado e o Governo precisam materializar o tema verticalização ineral  urgentemente, seja pelos empregos a serem gerados e ativação da economia ou pelos compromissos políticos firmados”

Permeando estas duas forças, esclarece que existe também o limite da paciência da sociedade.

“Não é aceitável outro modelo de negócio aos moldes do ´circo´ montado pela Cevital. Precisamos tratar as coisas de forma mais coerente, técnica e responsável. Um novo erro do tipo Cevital custaria muito caro para a sociedade de Marabá e estado do Pará”, adverte o empresário, ratificando a existência de tratativas em curso com parceiros chineses sérios e maiores que a Vale para desenvolvimento da Siderúrgica ALPA.

“O próprio governador Helder Barbalho foi participado disso pela mineradora de forma ainda bastante superficial”, diz.

Em sua análise, o empresário relata que a Companhia Siderúrgica do Pecém, localizada no Estado do Ceará, na qual a Vale tem 50% de participação mesmo não produzindo uma pedra de minério por lá, “produz 3 milhões de toneladas de aço (placas)”.

Em seguida, o entrevistado faz algumas contas.

“A siderúrgica Pecem custou US$ 5,4 bilhões, exatamente 18 vezes este investimento anunciado nesta semana  (U$  300 milhões,)  o que nos leva a concluir que essa Alpinha possa ser qualquer coisa, menos uma siderúrgica com utilização de minério, alinhada à verticalização  mineral. Em verdade,  Isso é apenas uma laminadora que não criará mais que 250 postos de trabalho e será um “cala boca” no estado”, garante.

E em sua explanação, prossegue:

“Uma siderúrgica pequena de um milhão de toneladas, produzindo aço do tipo placas e tarugos, custa pelo menos US$ 2 bilhões. Diga-se de passagem, a Sinobrás precisa de tarugo para concluir sua expansão e atender à região. Atualmente entra muito aço chinês na Região Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Podem acreditar que a demanda dessa região possa já estar próximo de dois milhões de tonelada de bobinas e tarugos”.

 Indagado, então, qual conceito de siderúrgica viável na região, o empresário responde, em cima da bucha:

– Precisa produzir bobinas de espessuras diversas, inclusive com linha de laminados a frio e tarugos direcionados,  a princípio,  para as demandas da SIinobrás, e, claro,  considerando uma operação integrada com uso do minério da Vale. Este é o conceito que os investidores chineses acreditam e já conceitualmente estruturaram o projeto, incluindo também linha de financiamento e cooperação societária.

Na avaliação do entrevistado, o governador Helder Barbalho, açoitado pela vontade de ver a verticalização acontecer realmente no Estado, “dá sinais de que não percebeu o risco que ele corre de ser ´enrolado´ e perder a oportunidade real de iniciar imediatamente um projeto perfeito. Além disso, promessas infundadas da mineradora vão ganhando vida e a realidade de uma parceria para uma siderúrgica integrada produzindo tarugos e bobinas, com financiamento e participação chinesa,  se perdendo”.

Convicto do conhecimento profundo que tem sobre o assunto, o empresário, em tom de apelo, afirma que “alguém precisa alertar nosso governo estadual, porque estamos  próximos de cair novamente no golpe da  Vale.  Alguém precisa dar esta orientação para o governador, pois ao meu ver ele caminha a passos largos para ser levado com a barriga, por um ou dois anos em termos de um projeto sustentável para o estado.”

Ele lembra ainda que a China vem crescendo em produção de aço algo superior a 50 milhões de toneladas por ano –  e já produzem anualmente quase 930 milhões -, enquanto o Brasil, t e o Brasil apenas 35 milhões de toneladas/ano.

“Só os tarugos que poderiam ser sinergicamente produzidos para a Sinobrás já indica um projeto bem maior que as notícias que começam a surgir. E isto  sem considerar as bobinas a frio e a quente demandadas nas regiões mais ao Norte do País. Lembrando também que a China exporta para América Latina mais de 7 milhões de toneladas de aço, sendo grande parte para o Norte, Nordeste e até Centro-Oeste do Brasil”.

Outra informação muito importante do empresário:  a expressiva parcela das importações colombianas, superiores a 2,2 milhões de tonelada, estando este país logisticamente próximo do Pará, seno possível de ser acessado pelo Porto Barranquilla – Atlântico.

“Ainda insisto que o projeto dessa siderúrgica deveria ser capitaneado pelo nosso Governo Estadual, mas corre-se o risco de nascer por vias federais. Quero dizer, um projeto coerente e que realmente se alinhe com o que temos,  e precisamos no nosso estado –  e não esta laminadora de U$$ 300 ou 450 milhões anunciada informalmente pela revista Valor”.

Finalizando, ele arremata:

– “Qualquer ideia diferente da rota sinterização, alto-forno, aciaria, lingotamentos e linhas de tarugos e laminados planos , vai nos manter na mesma dependência de grande parte do aço continuar sendo importado da China, impactando negativamente a balança comercial. Precisamos fazer o inverso, ou seja, produzir volume de aço para cobrir todas as nossas necessidades regionais e, se possível for, até exportar. A se aceitar um projeto de U$$ 300 ou 450 milhões para o local da Alpa,  me leva a concluir que, ou a Vale não entendeu que o Estado precisa produzir de imediato tarugos e bobinas num volume maior e a um custo menor só alcançado por uma siderúrgica que utiliza minério e rotas tradicionais ou nosso Governo está aceitando um projeto que não terá sustentação ao longo do tempo, com limitada geração de empregos, desconectado do mercado existente e não irá no fundo fazer a verticalização mineral. E, pior, ainda irá afastar a cooperação com países ou parceiros de envergadura e sérios, a exemplo dos chineses.”

Na imagem originalmente publicada neste blog, local onde seria construída a siderúrgica de Marabá.

Comentário de Luis Sergio Anders Cavalcante:

A dura e perversa realidade se impõe, para, à princípio, se esclarecer : Nós temos o minerio in natura(bruto) os orientais compram, industrializam e vendem até para nós(Brasil) mesmos. Ou seja, continuamos Pará-Colônia, onde o Estado não consegue traduzir suas riquezas, em benefícios aos parauaras do Sul/Sudeste. 18.05.19, Marabá-PA.

Discussão

4 comentários sobre “Aciaria: para valer mesmo?

  1. Realmente, a população de Marabá já há algum tempo, está descrente desses anúncios de projetos para a região que são produzidos lá em cima, “nas cúpulas”, e chegam aqui embaixo, como mais um engodo político econômico. Anúncios podem ser produzidos a qualquer hora! São bonitos! Já notaram que ninguém mente pra menos; mas, só para engrandecer!

    Curtir

    Publicado por George Hamilton Maranhão Alves | 22 de maio de 2019, 01:58
  2. Esse filme foi contando em verso e prosa no tempo da Ana Júlia, que acreditou. De fato, o exposto pelo empresário é real e, pior, apesar do desejo do Helder, que é até justo, o mesmo carece de uma boa equipe econômica que entenda do riscado, inclusive evitando esse engodo. De outro modo, o melhor exemplo de mineração é o Amapá, vide Serra do Navio, one parece que esquecem o esqueleto que lá existe. Para Marabá e região há outras opções integradas a sua economia, numa visão sustentada e distanciada da questão mineral, pois envolve a cadeia hoje existente podendo internalizar efeitos e, principalmente, arrecadação as prefeituras, cuja mineração não dá, apesar do PIB pela ótica do produto encher os olhos da elite local, porém sem a contrapartida em termos de qualidade de emprego e renda.
    O caminho é aposta em outra rota, porém o discurso populista e político, assumido pelo Helder aliado ausência de uma equipe econômica estrategista com visão portadora de futuro o impede de ver, infelizmente, pois poderia fazer a diferença, que não fará dado seus compromissos de curto prazo e com a classe política estadual que só reza pelos seus interesses.

    Curtir

    Publicado por Luis Lima | 22 de maio de 2019, 10:27
  3. O pior é que essa laminadora, a “alpinha”, ainda está condicionada à hidrovia… que, por seu turno, depende do equacionamento da questão do Pedral do Lourenço…

    Tem tudo pra não dar certo.

    Curtir

    Publicado por Elias Granhen Tavares | 22 de maio de 2019, 22:35

Deixe uma resposta para Luis Lima Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: