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Cultura

Eduardo Angelim

Em outubro de 1999, Paulo Nogueira Batista Jr., então com 44 anos (64 hoje), economista e professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, escreveu um artigo na Folha de S. Paulo sobre um parente distante. Ninguém menos do que Eduardo Nogueira Angelim, terceiro e último governador cabano, em 1835. O artigo foi motivado pela revelação dos documentos que David Cleary encontrou nos arquivos do Ministério das Relações Exteriores da Inglaterra, em Londres. A visão da nação mais poderosa no mundo de então sobre uma das maiores rebeliões populares do Brasil – se não, a maior, em escala mundial.

Tive o privilégio, por deferência de Cleary, de ser o primeiro a ler os preciosos documentos e o primeiro a divulgá-lo, em texto que saiu no mesmo ano em uma página inteira de O Estado de S. Paulo e no meu Jornal Pessoal. Naturalmente, Paulo Nogueira não faz referência à minha matéria. A imprensa brasileira ainda mantinha o hábito incivilizado (hoje, felizmente, extinto) de não fazer qualquer referência ao veículo concorrente.

Reproduzo o artigo de Paulo Nogueira Batista Jr. para ver se motivo os estudiosos da cabanagem a refazerem suas interpretações e relatos com base nos “documentos ingleses”, publicados pela Secretaria de Cultura do Estado em acanhada edição, que precisa ser urgentemente relançada, em edição mais bem cuidada. Talvez consiga assim descerrar o manto de silêncio que ainda cobre os “documentos ingleses”.

Este texto poderá ser lido também no meu blog sobre a cabanagem, que reativei.

Quanto vale a soberania nacional para as camadas dirigentes brasileiras? Matéria publicada ontem pela Folha fornece uma pista importante.

Examinando os arquivos diplomáticos britânicos, um pesquisador de Harvard, David Cleary, levantou extenso material sobre a Cabanagem, a grande revolução popular ocorrida no Pará de 1835 a 1840. E descobriu um fato impressionante que, até onde sei, não era conhecido dos historiadores da Cabanagem: em fins de 1835, o regente Feijó pediu apoio militar estrangeiro às maiores potências da época -a Inglaterra e a França- para sufocar a revolução no Pará.

Ficamos sabendo que a principal autoridade do governo brasileiro, em reunião reservada com os embaixadores da Inglaterra e da França, solicitou a mobilização de navios e tropas de terra para apoiar a retomada da província rebelada do Pará, naquele momento governada pelo jovem líder cabano, Eduardo Angelim. O embaixador britânico foi informado de que o mesmo apelo estava sendo feito a Portugal, país do qual o Brasil se tornara independente, não sem derramamento de sangue, apenas 13 anos antes!

Em despacho confidencial ao ministro das Relações Exteriores da Inglaterra, de 17 de dezembro de 1835 (cuja tradução foi reproduzida na íntegra pela Folha ontem, p.1-8), o embaixador britânico relata a preocupação de Feijó em não permitir que viesse a público a solicitação do governo brasileiro, uma vez que “a Constituição do Império proíbe terminantemente a admissão de tropas estrangeiras no território do Brasil sem o consentimento da Assembleia”. Se fosse divulgado, o pedido de intervenção estrangeira “seria motivo de descrédito para o governo”, que estaria se mostrando incapaz de derrotar sem ajuda externa “um punhado de insurgentes miseráveis”, explicou Feijó.

Esse episódio vergonhoso revela a desorientação da Regência diante de um problema que era, evidentemente, muito maior do que a revolta de “um punhado” de miseráveis. A Cabanagem foi, senão a mais importante, certamente uma das mais importantes revoluções da história do Brasil. Durante um ano e meio, os cabanos dominaram a quase totalidade da Província do Pará. Depois da retomada de Belém pelo governo do Rio de Janeiro, que acabaria acontecendo sem apoio militar estrangeiro, e da prisão das principais lideranças da revolução, em 1836, os cabanos ainda resistiram no interior até 1840.

O leitor poderá estar se perguntando por que um economista deve se preocupar com esse tema a ponto de dedicar-lhe uma coluna de opinião econômica. Há dois motivos. O primeiro é de ordem nacional. A iniciativa de Feijó não foi a primeira e nem a última ocasião em que dirigentes brasileiros traíram a soberania do país em miseráveis manobras de bastidores. O seu comportamento é bastante típico da postura de muitos governantes ao longo da nossa história, da sua falta de compromisso com a nação e o povo brasileiros. Por essas e outras razões, o Brasil chega ao final do século 20 na condição lamentável em que se encontra, um país tutelado, ainda incapaz de exercer plenamente a independência proclamada há 177 anos.

O segundo motivo é de ordem pessoal. Cresci ouvindo meu pai falar, orgulhoso, do nosso parentesco com um dos principais líderes da Cabanagem, Eduardo Francisco Nogueira, apelidado Angelim, que nasceu em Aracati, no Ceará, na mesma família Nogueira da qual descendemos.

Angelim, um homem extraordinário, que foi aos 21 anos o mais jovem governador de Estado ou Província da história do país, demonstrou durante a Cabanagem grande coragem e altivez, inclusive nos contatos que teve com a Inglaterra e outras potências estrangeiras, num contraste notável com o comportamento de Feijó e muitos outros dirigentes brasileiros naquela época e até os dias de hoje.

Estimulado por essas memórias de infância e adolescência, aproveitei algumas viagens recentes a Belém para levantar material sobre a Cabanagem. Descobri, fascinado, a história emocionante de um dos episódios mais marcantes, e não obstante esquecido e pouco estudado, da história do país.

Políticos como o regente Feijó são sempre lembrados e até celebrados pela história oficial. Já as figuras muito mais nobres de Angelim e dos demais líderes cabanos são pouco conhecidas dos brasileiros.

John Kennedy disse certa vez que uma nação se define não apenas pelos homens que produz, mas também por aqueles que lembra e homenageia. O Brasil começará a se definir como nação quando deixar de celebrar os numerosos Feijós que figuraram e ainda figuram em nossa história e passar a recordar mais a trajetória de homens como Angelim e os outros líderes do movimento cabano.

Discussão

4 comentários sobre “Eduardo Angelim

  1. Muito bom que você volte a escrever sobre a Cabanagem. Poucos conhecem esse movimento, como você. Parabéns pelo artigo!

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    Publicado por Marilene Pantoja | 22 de maio de 2019, 10:25
  2. além de por ser mais uma homenagem à cabanagem, aqui posto este poema feito coletivamente (como coletivamente foi feita a luta cabana, e só podia mesmo ser obra da coletividade, como uma das principais lições das lutas sociais), e também como objeto de apreciação para quem quiser fomentar a discussão e compreensão deste memorável fato histórico das cidades e selvas amazônicas:

    A CABANAGEM

    1azuirfilho · Campinas, SP
    15/7/2009 · 50 · 47
    A CABANAGEM
    1835—1840

    Devido o distanciamento, a Lei não era comprida.
    Exploração sem alento, a vida era demais sofrida.
    Já não dava para suportar, tão desumana opressão.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Cada um Governador, queria era impostos receber.
    Como tirano repressor, lucro no recurso a recolher.
    Não faziam se importar, de como estava a situação
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Padre Batista de Campos, arma e povo ele benzia.
    A Igualdade e seus encantos, estava na sua liturgia.
    Fazia ao povo orientar, pra entenderem a confusão.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Da condição revoltante, muito trabalho e pobreza.
    Um governo acharcante, era sem nenhum nobreza.
    Bernardo pra governar, mais aumentou a repressão.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Novo ano se anuncia, e todo o povo esta revoltado.
    Fortalece a rebeldia, e o Governador é assassinado.
    E em janeiro vai rebentar, essa incrível insurreição.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    A situação é muito grave, e organizam a liderança.
    Malcher Angelim e Vinagre, a chance de esperança.
    Fazem Belém Ocupar, novo Estado e Organização
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Era muita desigualdade, com o vil aproveitamento.
    Era Hora da verdade, aflorando todo ressentimento.
    Tinha da escravidão acabar, junto a semi escravidão.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    A chance do povo oprimido, chance da liberdade.
    Foi um momento decidido, uma luz de brasilidade
    Queriam a República criar, e abolir a Escravidão.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Radicalizam o movimento, tudo precisa de evoluir.
    Os lideres agem todo tempo, há uma ordem a erigir.
    Os proprietários a conspirar, preparando a reação.
    A Cabanagem no Pará, teve o seu povo na Direção.

    Helio Vinagre e Angelim, buscam apoio no interior.
    Vai ser luta sem fim, de índio, mestiço e trabalhador.
    Vão vir tropas pra arrasar, vão vir para a execução.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Os cabanos Ocupam Belém, que do Brasil separou.
    A luta foi mais além, e a todos escravos se libertou.
    Na dureza a partilhar, cada cristão dividindo o pão.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Epidemia de bexiga, faz os revoltosos enfraquecer.
    Estranhamente surgida, como de aos índios vencer.
    Uma armadilha pra matar, arma secreta da Traição.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Chega a hora da batalha, com a Esquadra Imperial
    Nossa senhora que nos valha, a luta é tão desigual.
    O povo não faz acovardar, de faca enfrenta canhão.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Lutas descomunais, do índio, mestiço e trabalhador.
    Proprietários locais, caçam os cabanos pelo interior.
    Etnicamente a limpar, dizimam 30% da população.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Houve muitos traidores, criando toda dificuldade.
    Proprietários sabotadores, gente contra a liberdade.
    Movimento Popular, no Brasil de maior expressão.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Era Economia decadente, arrecadação de sangria.
    Faziam explorar toda gente, ao pobre que produzia.
    Sempre fizeram se revoltar, sempre houve execução.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    A Política da Aristocracia, era a escravidão manter.
    Sem perspectiva de alforria, fizeram 40 mil morrer
    Cinco anos a matar, os remanescentes da insurreição.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Gente de muito heroísmo, pioneiros da liberdade.
    Do digno Humanismo, pois lutaram pela igualdade.
    Um dia haverá de chegar, é viva em cada coração.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    O cabano o Brasil honrou, nosso fervor Guerreiro.
    A Liberdade se conquistou, graça a cada brasileiro.
    Cada sacrifício a somar, pra conseguir a Libertação.
    A Cabanagem no Para, teve o seu povo na Direção.

    Azuir Filho e Turmas: Do Social da Unicamp e, de Amigos,
    de: Rocha Miranda, Rio, RJ e, de Mosqueiro, Belém, PA.

    Poesia de Homenagem a Cabanagem do Pará, movimento Revolucionário que culminou com o Povo no poder, e por isso.foi reprimido violentamente como exemplo, para nunca mais ninguém ousarem de alimentar o Espírito Revolucionário nos populares, negros, índios e mestiços. A Repressão levou cinco anos de combates nas selvas de toda a região para atingir a pacificação, onde foi decisivo as Armas de fogo dos dominadores Imperiais com tropas mercenárias Inglesas, contra o Povo pobre que morava em cabanas na beira dos rios, e por isso tinham o nome de Cabanos. Foi uma História de muito heroísmo porque a medida em que as lideranças tradicionais eram vencidas ou superadas, o povo simples não deixava a luta cessar porque estava em jogo a continuidade ou não da Escravidão, que esse próprio Povo fez abolir com as suas vitórias e tomada de Belém que simbolizava o Governo da Região. Uma Linda Página na História do Brasil, que é tão rica e cheia de Lutas pela Liberdade, Lutas Contra a Escravidão e Lutas contra todas as formas de Desigualdades Sociais. O Povo Cabano deu lição de coragem, heroísmo e consciência organizacional, perderam na diferença das armas usadas e disponíveis. A Cabanagem no Pará, teve o seu povo na Direção. Temos de nos orgulhar.

    Curtir

    Publicado por felipe puxirum | 22 de maio de 2019, 13:20

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