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Ecologia, Minério

Minas não há mais?

Há semanas, 90 mil moradores de uma região serrana de Minas Gerais em torno da cidade de Barão de Cocais vivem sob enorme tensão. Há uma semana, o medo aumentou muito. Foi quando os técnicos começaram a monitorar as rachaduras na barragem do Gongo Seco, da Vale. No momento em que escrevo, o rompimento pode já ter ocorrido. A contagem regressiva pode se consumar em minutos, horas ou dias. O paredão de proteção cedendo de vez, poderá arrastar tudo que estiver abaixo e levar os rejeitos da mineração de ferro ali acumulados.

São 6,8 milhões de metros cúbicos de lama densa e pesada, pouco mais da metade da carga que arrasou Brumadinho, também em Minas, também da Vale, no início do ano. Para se ter uma ideia, seriam 6,8 bilhões de litros de água, o equivalente a quase 20% do reservatório da hidrelétrica de Tucuruí, a quarta maior do mundo, no rio Tocantins. Com pouco mais de três mil quilômetros quadrados (ou 300 mil hectares, ou três bilhões de metros quadrados) , é o segundo maior lago artificial do Brasil.

É uma ameaça dessa grandeza que pende sobre as vidas e o patrimônio de 90 mil cidadãos brasileiros, que se agrupam em três cidades ao longo dos 30 quilômetros pelos quais avançará a lama destruidora. Ela começará a devastação uma hora e 12 minutos depois dos rompimentos e completará sua obra oito horas depois. Quanto destruirá? A quantos matará? Qual o valor material dessa destruição?

Esses números só serão definidos depois do desastre. Mas danos profundos se sucedem há semanas na forma de medo, ansiedade, depressão, insônia, perturbação mental e outras formas menos tangíveis do que o deslocamento compulsório das residências, o abandono do trabalho e de outras atividades de subsistência. Tudo isso precisa ser apurado, apontado e apresentado ao responsável por essa situação, a Vale, a maior empresa privada do país, a segunda maior mineradora do mundo, mineira em sua origem e minera, ainda hoje, na sua cultura. Desgraçadamente mineira nos últimos tempos.

Já recorri a todos os meios indiretos de percepção e visualização para sair do estado de choque e de indignação em que me encontro desde que a tragédia de Barão de Cocais se tornou pública. Mais de três anos depois da tragédia de Mariana e a quatro meses de Brumadinho, completados hoje, me esforço para ir além da revolta que a conjuntura provoca para ter um horizonte histórico do acontecimento.

As tragédias provocadas pela mineração no Estado mais montanhoso do país (retratado ficcionalmente pelo escritor mineiro Cyro dos Anjos em um livro com título exato: A Montanha) geram um paradoxo. Centenas de pessoas morreram soterradas pelos rejeitos da mineração que extravsaram pelo rompimento das barragens que os retinham. Milhares foram seriamente prejudicadas. Depois de Mariana e Brumadinho, temos um terceiro capítulo, agora inédito: o desmoronamento não vem de surpresa, mas previsto, esperado e quase com data marcada para acontecer.

É um notável avanço que as pessoas não sejam surpreendidas pela avalanche dormindo, almoçando, descansando, caminhando – em sua rotina normal, portanto. Foi assim em Mariana. Foi de novo assim três anos depois em Brumadinho. Tinha que ser assim em Barão de Cocais? Essas bombas retardadas não poderiam ser desativadas ou, ao menos, um esquadrão antibomba não poderia ser convocado para tentar se antecipar à consumação da tragédia anunciada? O país está levando realmente a sério a ameaça dessas estruturas sobre as vidas e os patrimônios humanos?

A mina do Gongo Seco, a que agora está na iminência de ruir, é de extração de ferro mais recentemente. Mas é mina de ouro desde o século 18. A imagem lúgubre e tenebrosa da imensa cava enegrecida dá uma ideia do que foram as agressões, erros e indiferenças ao longo da intensa história dessa mina. Dela e de outras tantas nesse Estado tão particular, que leva o nome de Minas Gerais. Não se pode, uma vez estabelecida a consciência do problema pela ocorrência e repetição, voltar a agir com a displicência e a irresponsabilidade do passado, sob a convrsa para boi dormir dos agentes desses fatos.

Minas merece respeito.

Discussão

2 comentários sobre “Minas não há mais?

  1. Uma tragédia, num País que faz seus projetos sem considerar os riscos futuros.
    Como vivemos em um Estado explorado por predadores de minas e de energia, estamos livres desses desastres contratados?
    Nossas barragens, Tucuruí, Belo Monte e outras que nem sabemos que existem, podem nos ameaçar com inundações de água ou lamas de rejeitos?
    Podemos dormir tranquilo com o nosso rio Tocantins e depois Pará, maiores atingidos pelos projetos de nossos colonizadores, depois do que já assistimos, como o genocídio bovino de 2015?
    P.S.: Horror!
    Imagem do desastre agendado para Barcarena.
    E continuam insistindo nesse tipo de negócio, que não trz nenhum bom resultado para a economia de nosso Estado. Só devastação.

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    Publicado por Jab | 25 de maio de 2019, 17:47
  2. Quando só restar o bagaço as estatais serão devolvidas.

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    Publicado por Luiz Mário | 25 de maio de 2019, 19:13

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