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Política

Quem defende a corrupção?

No dia 20, a Câmara dos Deputados decidiu, por 228 votos a 210,  transferir o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) do ministério da Justiça para o ministério da Economia. O resultado significou uma grande derrota para o governo Bolsonaro; em especial, para o ministro Sérgio Moro. Esse parece ter sido o objetivo de muitos dos parlamentares. Eles conseguiram essa vitória política. Mas para chegar a ela, se colocaram numa situação no mínimo desconfortável junto aos eleitores.

A maioria do povo brasileiro já tem consciên cia de que a corrupção está muito longe de se reduzir a item formal de discurso moralista, como o foi para a sempre golpista UDN. O Brasil é um dos países mais corruptos do mundo. A taxa usual de corrupção no país varia entre 3% e 10% do valor dos contratos de empresas privadas com os governos, em todos os seus níveis. Em alguns casos, essa taxa é tão violenta, abusiva e criminosa quanto o custo dos juros do que os bancos emprestam na forma de crédito rotativo. Em certas situações, excedem a agiotagem legal. É crime de lesa-república, um atentado à nação.

Com uma sangria dessa, o governo perde dinheiro que falta aos investimentos necessários para reduzir o péssimo serviço que presta aos cidadãos e diminuir o imenso fosso que separa os mais ricos dos mais pobres. Como a máquina burocrática estatal é paquidérmica, insaciável e insensível, particularmente nos escalões mais altos do poder, para sustentá-la é preciso também sangrar o pagador dos impostos, atormentando-lhe a sobrevivência e onerando a atividade realmente produtiva. Ainda assim, o déficit fiscal é uma das marcas da administração pública irresponsável, como a brasileira.

O cidadão também está convencido de que a Operação Lava-Jato abriu uma nova fase na história do combate à corrupção. Seu saldo, abatidos erros e vícios, é altamente positivo. Ela colocou colarinhos brancos na cadeia, escancarou os esquemas de corrupção, mesmo os mais engenhosos, e devolveu parte do saque desviado aos cofres do tesouro. O juiz Sérgio Moro foi providencial na 13ª vara criminal da justiça federal em Curitiba.

Ele provavelmente sofreria uma nova derrota, como a do “caso Banestado”, que o traumatizou, se as ações não fossem preparadas por grupos-tarefa de promotores, delegados da Polícia Federal e agentes da Receita Federal e do Coaf, a melhor inteligência financeira do serviço público, capaz de combater no mesmo nível corruptores e corruptos de alto coturno.

Errando no varejo, essa força combinada tem acertado no atacado. Por que então mudar essa estrutura, se ela está promovendo a transição de uma era de corrupção desenfreada para o atual momento, no qual as probabilidades de descobrir os ladrões do dinheiro público aumentaram? Por que transferir para um ministério cujo titular, Paulo Guedes, não só diz que não o quer o Coaf como sustenta que o órgão deveria continuar vinculado à pasta da Justiça? Por que ir contra a evolução histórica do Brasil no combate a essa praga?

A resposta está na ponta da língua: porque os políticos que votaram pela mudança, além de visar Bolsonaro, numa politicagem rasteira, estão preocupados com a eficiência do Coaf, que pode vir a atingi-los, ou deram o recado de personagens nessa situação, dos quais são aliados, dependentes ou criaturas. É tão absurda a posição, mesmo que ser contra Bolsonaro pudesse atenuá-la, em tese, que os deputados que votaram pela transferência do Coaf perderam a presunção da inocência. São culpados até prova em contrário. Culpados de omissos, coniventes ou coautores de corrupção no Brasil.

Dos 17 deputados da bancada paraense na Câmara dos Deputados, 13 compareceram e votaram, 7 deles a favor da mudança e 6 da situação atual. Votaram para colocar o Coaf no ministério da Economia: Olival Marques, Cristiano Vale (irmão do vice-governador do Estado), Vavá Martins, Edmilson Rodrigues, Airton Faleiro, Beto Faro e Eduardo Costa. Votaram contra: Cássio Andrade, Éder Mauro, Joaquim Passarinho, Celso Sabino, Nilson Pinto e Júnior Ferrari.

Dois deputados do PT e um do Psol, DEM, PL, PRB e PTB mandaram o Coaf para Paulo Guedes. Três do PSD, dois do PSDB e um do PSB o queriam ainda com Sérgio Moro.

Deduz-se da votação que a esquerda, combatente da corrupção quando na oposição, no poder passou, no mínimo, a preferir conviver com o assalto aos cofres públicos? Todos os gatos pardos se tornaram pretos no ambiente carregado do parlamento?

Discussão

16 comentários sobre “Quem defende a corrupção?

  1. E ainda tem os faltosos, alguns dos quais nem precisa falar a opção.

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    Publicado por Dulce Leoncy | 26 de maio de 2019, 12:58
  2. “Por que então mudar essa estrutura, se ela está promovendo a transição…”

    Epa!!!

    O COAF no Ministério da Justiça ainda não promoveu nada! Ele foi colocado lá pelo Bolsonaro, em janeiro de 2019. A transferência para o Ministério da Justiça ainda nem foi concluída.

    Tudo o que se conseguiu até aqui, em termos de combate eficaz à corrupção, foi, sim, em grande medida, graças à participação do COAF, mas com ele FORA do Ministério da Justiça.

    Tecnicamente, não existe razão pra se dizer que, fora do Ministério da Justiça, o COAF será menos eficaz. Além do mais, o COAF é um organismo totalmente profissionalizado, constituído por técnicos, servidores efetivos do Serviço Público Federal. Tradicionalmente, o COAF é avesso a influências político-partidárias. Quem acompanha as atividades do COAF sabe que, ali, em regra, o pau que bate em Chico bate em Francisco.

    Nenhum ministro jamais exerceu controle operacional sobre o COAF. Com Sérgio Moro é que, pela primeira vez, um Ministro de Estado se manifestou sobre o uso de cabresto curto no COAF. E isso depois do episódio envolvendo o filho do Bolsonaro…

    Dizer que a não aprovação da transferência do COAF para o Ministério da Justiça, enfraquece o combate à corrupção, é pular uma passagem, até porque ignora o que tem sido feito até aqui.

    Se alguns membros do COAF, ou todos os membros do COAF, são suspeitos de leniência, a providência requerida é afastá-los da função e instaurar PADs contra eles. A depender dos resultados dos PADs — quem sabe? — demiti-los a bem do Serviço Público. Até aqui, não se sabe de nenhum episódio de leniência com origem no COAF. Ao contrário, as ocorrências que chegaram ao conhecimento público envolvem outros órgãos, Judiciário incluso, mas não o COAF.

    Achar que o COAF vai se tornar mais eficiente, e/ou mais honesto, só porque passou a ser chefiado pelo Sérgio Moro, é, no mínimo, uma grande ingenuidade, além de revelar um enorme desconhecimento de como essa estrutura funciona. É algo próximo à idolatria.

    O COAF não vai ficar mais nem menos honesto e/ou eficiente, dentro do Ministério da Justiça ou fora dele. Evidentemente que não é isso que está em jogo. O que se decidiu, aí, foi a velha luta política, a luta pelo poder. No caso, Moro perdeu esse round (com o meu aplauso!). Mas haverá outros, claro. A coisa está só começando…

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 26 de maio de 2019, 14:11
  3. Um auditoria pública solicitada pelo presidente da República, em todas Estatais, não teria o condão de retirar toda a sujeira jogada para sob o tapete? Fica a sugestão.

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    Publicado por Luiz Mário | 26 de maio de 2019, 21:12
  4. caro leitor luiz mário, dentro do capitalismo, qualquer combate à corrupção, é falácia, aí sim, retórica falida, já que este sistema é corrupto por natureza e em essência, gênero número e grau… no mais, um ou outro na cadeia, é bode expiatório para dar manutenção ao jogo de poder mencionado pelo leitor elias granhen tavares: querem pior e maior corrupção, ou roubo mesmo, se só o que se manda para fora do brasil gira em torno de quase a metade do que fica dentro deste estado de coisas para a festa das escórias (a chamamos de elite) autolocupletadas, sob o nome bonito de pagamento de juros, para aplausos e tintins de banqueiros e demais privilegiados?

    respeitem a nossa inteligência, que aí sim, faz sentido falar de quem é quem na defesa e no combate a esta peste que moral e estruturalmente destrói mata e joga crianças como as órfãs das chacinadas e chacinados do guamá

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    Publicado por felipe puxirum | 27 de maio de 2019, 09:53
  5. Caro Puxirum, grato pela enriquecedora observação.

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    Publicado por Luiz Mário | 27 de maio de 2019, 12:07
  6. QUEM DEFENDE A DESINFORMAÇÃO? Mais que mais um texto pra exaltar Sergio Moro, a presente publicação do Lucio é uma nada sutil acusação aos que votaram a favor do Coaf sob o Ministério da Economia (entre os quais deputados com um trabalho sério no parlamento). Estariam defendendo a corrupção. Para isso, usou como argumento principal os resultados obtidos no combate à corrupção pelo Coaf sob o Ministério da Justiça. Ocorre que há um “pequeno” detalhe, já revelado apropriadamente acima pelo Elias Granhen. Nenhum dos resultados atribuídos ao Coaf podem ser creditados ao fato de o Coaf estar sob a guarda do Ministério da Justiça, simplesmente porque antes de Bolsonaro Presidente o Coaf sempre esteve atrelado ao Ministério da Fazenda/Economia. De tal sorte que todo o raciocínio de Lucio no artigo está prejudicado. Deveria refazê-lo, exatamente ao contrário. Por óbvio, não o fará. Então, fica o alerta aos leitores. Ao ler “Quem defende a corrupção” leia tudo com os sinais trocados.

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    Publicado por Kleber | 27 de maio de 2019, 18:30
    • Os sinais não estão trocados, Kleber. O Coaf integrou a força tarefa da Lava-Jato junto com os demais agentes, a novidade em relação ao caso Banestado. O fato de não ter pertencido ao ministério da Justiça antes, o que é verdade, não significa que não deveria passar para o âmbito da Justiça, da qual se tornou parte eficiente no esquema de conjugação de órgãos.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 27 de maio de 2019, 20:41
      • Ao longo da existência do partido não há veiculação de notícias de que algum parlamentar do PSOL esteja envolvido em corrupção ou coisas do gênero, em especial o deputado do meu estado, Edmilson Rodrigues. Se este votou pela transferência para o ministério da economia é porque existem outras razões para tal atitude que não se detecta a “olho nu!”

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        Publicado por José Luiz Paixão | 28 de maio de 2019, 11:36
  7. “A justiça é a conveniência do mais forte”…num tempo onde perdura a sociologia da reeleição para a manutenção do status quo, pois!

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    Publicado por Luiz Mário | 28 de maio de 2019, 08:10
  8. A corrupção no Brasil é proporcional a imaturidade de sua democracia.

    Um país com instituições democráticas fortes, estáveis e independentes de falso salvadores, com certeza tem índices de corrupção muito menores.

    Em vez de buscarmos esse grau de maturidade, ficamos cultuando figuras das quais as instituições ficariam supostamente dependentes e inviabilizadas com suas ausências.

    Se Sergio Moro fosse confiável, ele já estaria errado em cultuar tal papel para si. Mas não é, pois fica a cada dia mais evidente que sua cruzada tem objetivo muito bem definido e os bons resultados obtidos pela mesma, são efeitos colaterais, muitos dos quais indesejados por ele.

    Se a improvável revelação de quem é Aécio Neves não tivesse ocorrido, Moro continuaria no “face to face” com o mesmo em todos os bate cuia promovidos pela Globo.

    Por isso, muitos lhe tiraram o COAF por temor de sua suposta saga anti corrupção sim, mas outros tantos o fizeram, justamente por temor que ele transforme o órgão em uma ferramenta de suas vontades, perseguindo uns e protegendo outros.

    Logo tirar o COAF de Moro não é ponto pacífico de que sejam aqueles favoráveis a corrupção.

    Pode ser justamente o contrário, enquanto ele ficar sem dar respostas convincentes, para questões nebulosas protegidas pela grande imprensa, como o caso Tacla Duran o qual considero muito grave.

    Acho que o Brasil pode lidar de forma democrática e tecnica com o COAF na área econômica como é em todo o Mundo.

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    Publicado por Alonso Lins | 28 de maio de 2019, 22:58
  9. Essa narrativa de Sergio Moro ser o indispensável salvador da moralidade brasileira está ficando desgastante e chata, além de ser anti democrática, é anacrônica e cafona.

    Acho que deveríamos despender nossas energias com discussões mais elevadas.

    Se não, daqui a pouco contaremos com pessoas que não poderão morrer, a ponto de colocar o país em risco de inviabilidade.

    Que tal falarmos de meios para tornar nossas instituições mais eficientes e independentes de personalismos?

    Está lançado o desfio.

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    Publicado por Alonso Lins | 29 de maio de 2019, 10:12
  10. Para a corrupta elite, meu caro Alonso, as únicas instituições que existem são a Casa-Grande e a Senzala, e que, com o uso da mentalidade religiosa, mantêm-se revigoradas periodicamente. Deprimente.

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    Publicado por Luiz Mário | 29 de maio de 2019, 20:17

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