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Ecologia, Economia, Grandes Projetos, Minério, Multinacionais

O começo da Albrás

Vou começar a pagar a promessa que fiz algum tempo atrás: recuperar textos meus – já publicados em papel ou inéditos – que possam ser úteis à compreensão da Amazônia dos nossos dias.

Revendo centenas de artigos e reportagens, fica a impressão de que nem sempre caminhamos para frente. Parece estarmos sempre a voltar a pontos anteriores, pensando serem inéditas questões já abordadas – e, por vezes, mais bem abordadas no passado. Também é forte a impressão de que a experiência tem sido desprezada e o conhecimento, sem memória, não se consolida.

Tive essa sensação ao ler a transcrição da 1ª reunião do Simpósio sobre o Meio Ambiente, realizado no auditório da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Pará na noite de 31 de maio de 1982 (37 anos atrás), convocada pelo deputado federal Fernando Coutinho Jorge. Participaram os médicos Camilo Vianna e Almir Gabriel (ainda como secretário de saúde no último ano do segundo mandato de Alacid Nunes como governador do Estado), o geólogo e deputado Gabriel Guerreiro e outros pesquisadores.

Faço uma pequena transcrição apenas para mostrar que preocupação com a instalação de grandes projetos havia. Ela poderia não ser procedente, mas precisava ser levada em consideração. E ser aprofundada, para ter consequência.

Dei início a uma das minhas intervenções com o que era (e talvez ainda seja) a minha maior credencial: o acesso a informações primárias, documentos oficiais e estudos técnicos e científicos, muitas vezes inéditos ou confidenciais. Utilizei os estudos de viabilidade de 1976 e 1980 para a implantação da Albrás, tratando de um tema atualíssimo: a poluição.

Transcrevo o que disse então, sem revisão:

Segundo esses estudos e os cálculos que fiz, a partir de dados primários, vão ser despejados no lago de lama 1.383.000 de toneladas de lama vermelha [o dado estava subestimado], com um teor altíssimo de soda cáustica. Foi dito que esses lagos vão ser impermeabilizados. O dr. Guerreiro já falou sobre a duração dessa impermeabilização, que é relativamente curta na Amazônia, o que levaria, talvez, a pensar que, em vez da impermeabilização, deveria ter revestimento.

O que me parece  é que, a cada ano, segundo o projeto atual, se vai inutilizar oito hectares de cada lago que está previsto para a Albrás/Alunorte. São lagos de 40 hectares. Cada lago terá uma vida útil de cinco anos e o lago será recoberto porque toda parte líquida voltará ao ambiente. Retirada a água, sobrará uma argila seca e estéril, com problemas sérios por causa da presença de soda cáustica, que poderá se infiltrar pelo solo poroso para a água subterrânea.

Há um outro problema que nos preocupa muito. É uma pena que o auditório não tenha um número proporcional de pessoas para se informar sobre o problema do dióxido de enxofre. Segundo os cálculos que fiz com base nos estudos da Montreal, vão ser emitidas por ano 6.800 toneladas de dióxido de enxofre. Não há controle nenhum previsto, Serão lançadas na atmosfera. Com a alta precipitação pluviométrica que há nessa área, com a média anual de 2 mil milímetros. Esse dióxido de enxofre poderá ser precipitado em formas cristalizadas, provocando poluição do ar e do solo. São questões que não estão sendo tratadas publicamente, que vão afetar diretamente a população.

Estes são alguns problemas que existem em relação a esses grandes projetos.

Discussão

4 comentários sobre “O começo da Albrás

  1. Foi se queixar ao bispo (de Roma)…
    O cacique Raoni engrossa o caldo dos descontentes com Jair Bolsonaro. Foi se queixar ao Papa Francisco, que o recebeu em audiencia especial no Vaticano e dedicou muito interesse pelos problemas das minorias étnicas da amazônia, agravados com a disposição do presidente Bolsonaro em entregar a floresta e suas riquezas a gananciosos invasores, capazes de superar em gênero e grau toda uma tradição de grilagem, exploração predatória e afronta aos direitos humanos.

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    Publicado por J.Jorge | 27 de maio de 2019, 19:46
  2. O cacique Raoni andava bem com o Sting. Pensei que já falava com seus antepassados, há tempos.

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    Publicado por Jab | 27 de maio de 2019, 21:11
  3. O Papa Francisco deveria ouvir mais os religiosos e menos esses enganadores que nada fazem pelos índios.
    Vê se eles se preocupam com os indígenas venezuelanos que vivem mendigando pelas ruas de Belém, morrendo uma cultura por exclusão de um Governo ditatorial, que se impõe naquele País na barba do Papa.

    O que dizem bispos, padres e religiosos daquele País ao Papa?

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    Publicado por Jab | 1 de junho de 2019, 16:11

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