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Imprensa, Polícia, Segurança pública, Violência

O jornalismo policial

O Diário do Pará e O Liberal publicaram, na edição de ontem, notícia sobre um crime duplo. Ao chegar do trabalho, no início da noite de sexta-feira, o vendedor ambulante Domingos Barros Caldas, de 43 anos, encontrou a mulher, Tiane Mayara Souza, de 35, por encontrá-la conversando com uma vizinha na rua. O casal discutiu. O marido foi em casa, pegou uma faca e matou a esposa. Depois, se matou por enforcamento.

A notícia ocupou dois parágrafos nos dois jornais. A matéria tinha escassas informações, obtidas quase integralmente junto à polícia. Há mais especulações e condicionais do que fatos e afirmativas. Foi sugerido que o homem era usuário de drogas e nada mais. Domingos matou Tiane diante dos dois filhos. Até sobre o seu enforcamento não havia convicção.

Reduzido a registro policial, o jornalismo esquemático empobrece ou mesmo ignora a dimensão humana dos acontecimentos, sobretudo os mais trágicos, que resultam em morte. Buocrático e repetitivo, esse tipo de jornalismo amortece o impacto dos acontecimentos e da sua singularidade e especificidade, coisifica as pessoas e contribui, pela dessensibilização do leitor, para a banalzação da violência e a desvalorização da vida. Tudo isso sob a justificativa obtusa, burra e falsa de que é só isso o que o leitor quer. É a fórmula comercial mágica, o sensacionalismo.

Foz muitas matérias ditas de polícia em A Província do Pará e O Liberal de perspectiva completamente diferente, à maneira do novo jornalismo americano dos anos 1950/60, que imitava a literatura. O Jornal da Tarde, o vespertino de O Estado de S. Paulo,  foi o melhor exemplo dessa técnica no Brasil. Ainda acho que ouvir os personagens dos fatos, não apenas a polícia, ir ao lugar em que vivem, conversar com parentes e vizinhos, fazer fotografias em quantidade e qualidade iconográfica, e caprichar no texto para ocupar um espaço coerente com a relevância do tema, vendem tanto ou mais do que esse jornalismo de Instituto Médico Legal. E é muito mais edificante, como um bem em favor da sociedade, não uma reles mercadoria com sangue humano.

Permite dar a atenção devida a um fato que pode ser isolado, produto da demência individual, ou sintoma de patologia a caminho de se tornar coletiva: um homem que mata a mulher, aparentemente por motivo fútil, depois se suicida por enforcamento, e deixa dois órfãos. Nos jornais paraenses, o que parece decidir, particularmente na cobertura dos acontecimentos de sangue, é o tilintar do vil metal.

Discussão

4 comentários sobre “O jornalismo policial

  1. Desnaturalizar o sujeito, eis aí a “mão invisível” do sistema.

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    Publicado por Luiz Mário | 2 de junho de 2019, 11:52
  2. As pessoas se matam não porque consomem drogas ilícitas , mas porque a vida esta uma droga , para não dizer uma merda ! especialmente para os pobres que são a maioria confinada em campos de concentração e extermínio a céu aberto , desta urbes que se alimenta da brutalidade insidiosa da desigualdade econômica e social e da espoliação urbana .

    Viver se tornou insuportável .Estamos no limite . Mas a miséria do jornalismo passa ao largo desse entendimento …

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    Publicado por Marly Silva | 2 de junho de 2019, 21:06
  3. Pois é, há muito que se pratica, aqui por essas bandas, um jornalismo escrito simplório e madorrento. As fontes são escassas, e, já presenciei em sala de aula, um colega comentar com outro ( candidatos a algum cargo policial) que, se não tiver câmeras, não é possível investigar, aí, vale o que for dito ao jornalista policial. Ora, são setores, que por tradição, vivem da investigação, de cotejar informes, etc. Por isso, caro Lúcio, pra ser jornalista , é preciso cara, coragem e uma redação simples e cheia de veracidade. Muito parecido contigo.

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    Publicado por alce | 3 de junho de 2019, 23:33

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