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Justiça, Política

O jogo da verdade

Os dados estão lançados. É hora de praticar um jogo perigoso,arriscado e grave, mas necessário à sempre frágil democracia brasileira.

A divulgação de conversas pessoais de autoridades públicas não é um dado aleatório. Tem um duplo objetivo: enfraquecer a Operação Lava-Jato e provocar a libertação do ex-presidente Lula.

Por trás dessa meta já óbvia, há uma complexidade de fatores a considerar para não se afastar dos fatos e não prejudicar a busca da verdade.

Um fator é a reprodução das conversas. É preciso, agora, publicar tudo, mesmo que sob o risco de comprar gato por lebre, desde que haja um princípio ético consequente: não avançar sobre os temas estritamente pessoais, privados, inclusive para prevenir ações de indenização.

É preciso considerar que, pelo menos até agora, não há áudios. As conversas foram transcritas e publicadas por escrito. É necessário chegar às matrizes para testar a fidedignidade da reprodução.

Concluído esse trabalho, os órgãos competentes no aparato estatal e a própria sociedade avaliarão as condutas dos personagens e as aproximarão das normas legais para seu enquadramento, seguidos por eventuais denúncias e julgamentos.

Ao mesmo tempo, a Polícia Federal, com o auxílio de setores competentes, conforme o caso, investigará a identidade do hacker ou dos hackers, e todas as suas conexões, para frente e para trás, para verificar se trata-se de uma conspiração ou de ação isolada.

Outra rota de apuração é nos autos dos processos judiciais, procurando-se verificar, checar e rechecar se há neles evidências de contaminação ou comprometimento por uma ação concertada do Ministério Público, dono da ação penal e fiscal da lei, e o julgador. Será, o teste de consistência das provas, mais uma vez, depois que foram confirmadas pelas instâncias superiores na sua instrução processual, já que, até aqui, há o pressuposto de que a apreciação foi técnica.

Esses fundamentos técnicos embasarão a discussão mais geral da questão.

Até agora, o que tem prevalecido é o ataque a Sérgio Moro, Daltan Dellagnol, outros integrantes da Lava-Jato e componentes do poder judiciário que apreciaram suas demandas. Tudo isso relacionado a Lula. Não chega a personagens quase tão notórios, como o ex-deputado federal Eduardo Cunha e outros presos, condenados, acusados ou indiciados. Nem sobre componentes do judiciário que têm se posicionado a favor do ex-presidente, como os notórios Lewandowski e Toffoli.

O que não ajuda essa ofensiva é o modus faciendi da interceptação, que inutiliza o argumento de que o feiticeiro está experimentando os efeitos do feitiço que criou. De fato, houve um abuso de Moro ao divulgar, fora do prazo legal, a conversa entre Dilma e Lula para proteger o ex-presidente da ameaça de prisão. Mas o ato, claramente político, foi coletivo, documentado e praticado na hora, ao vivo, como se diria, de imediato conhecimento da autoridade judicial, o STF, e por ela repreendido.

No caso das conversas dos integrantes da Lava-Jato, o método foi criminoso, provavelmente seguiu uma orientação pré-determinada e sua divulgação tem sido seletiva, acompanhada de comentários e interpretações unilaterais e parciais. A ousadia e a arrogância dos agentes dessa ação poderá reverter seus efeitos imprevistos contra eles.

Não só porque outros apenados pela justiça poderão se valer do material em seu próprio benefício como porque, no aprofundamento e adensamento das informações, que conduzem no sentido do enfraquecimento da Lava-Jato, a maioria do povo poderá ver nessa ofensiva uma ameaça à melhor e mais importante frente de combate à corrupção da história do Brasil.

Os dados estão lançados e o jogo terá que ir em frente. Para onde – ainda não se sabe. Espera-se que para não impedir que estanque a devassa sobre os escaninhos do poder que contêm esquemas de desvios de dinheiro público.

Discussão

12 comentários sobre “O jogo da verdade

  1. A lava jato vai sucumbir,pois os fins não justificam os meios.

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    Publicado por LIMA | 13 de junho de 2019, 10:22
  2. Após a divulgação dos dados vc ainda acredita que o julgamento de Lula foi técnico, como certa vez menos por aqui?

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    Publicado por Renan Monteiro | 13 de junho de 2019, 10:26
  3. “Afastamento”

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    Publicado por Luiz Mário | 13 de junho de 2019, 11:07
  4. Os procedimentos que segundo as imprensa , adotados pelas autoridades competentes, certamente alcançarão o(s) executor(es) e mandante(s), interessados esfacelar a democracia que estamos vivendo. Não esqueçam de que um dos condenados hospedava até pouco tempo um israelense “expert” em contraespionagem, como divulgou a imprensa nacional.

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    Publicado por José de Arimatéia Medeiros da Rocha | 13 de junho de 2019, 11:36
  5. Caro Lucio, mais uma vez leio seus comentarios sobre a realidade brasileira, e tomo o seu conhecimento, diria erudicao, sobre temas legais como baremo para a embasar a minha perspectiva sobre esses acontecimentos. No entanto, nesta sua avaliacao sobre as questoes que vc aponta, prefiro, de entrada, pensar nao nas possiveis motivacoes desses vazamentos (liberacao de Lula) e sim no fato, constatado, das implicacoes mais imediatas em termos de modus operandi dos implicados. Neste caso, o foco, para mim, deve estar num sistema judiciario que, caso continue nessa contaminacao e promiscuidade, nessa motivacao politica declarada, nao devera, certamente, trazer os beneficios que ela se propoe.

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    Publicado por SANDRO RUGGERI DULCET | 13 de junho de 2019, 11:39
  6. 1 – Autenticidade
    O próprio Moro não questionou a autenticidade. Ele disse, apenas, que nada vê de errado no que fez (o que já é outro enorme erro).

    2 – Enfraquecer a Lava Jato
    Não necessariamente, nem inevitavelmente. Apenas anular os efeitos dos atos manifestamente ilegais cometidos alegadanente em nome do combate à corrupção. Não se deve combater a corrupção com corrupção… porque aí a coisa se transforma em mera briga de gangues.

    3 – Ousadia e arrogância dos agentes dessa ação
    Essa ação só se tornou possivel, com os resultados que está produzindo, porque, antes, Moro e Dallagnol, ousadamente e arrogantemente, transpuseram a linha da legalidade. Se eles houvessem pautado sua (deles) conduta em observância aos preceitos legais, nada disso teria acontecido. No caso, entrou em vigor a terceira lei de Newton… aquela da ação e reação!

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 13 de junho de 2019, 12:14
  7. “Personagens da acusação e do julgamento estavam predispostos contra o Lula (e outros tantos, predispostos a favorecê-lo).”

    Agora embolou tudo!

    Quem são os personagens do julgamento? (1) o réu; (2) os acusadores; (3) os defensores; e (4) o juiz.

    1 – O réu só pode se declarar inocente (a menos que seja réu confesso, o que não é o caso).

    2 – Os procuradores (acusação), têm por obrigação estar convencidos da culpa do réu, e estar preparados para provar isso, sem sombra de dúvida.

    3 – Os defensores têm por obrigação estar convencidos da inocência do réu, e estar preparados para refutar a acusação, com argumentos consistentes.

    4 – O juiz têm por obrigação decidir com base no que lhe for apresentado pela acusação e pela defesa, à luz da legislação em vigor. E a legislação em vigor PROÍBE que o juiz preste auxílio de qualquer natureza, seja à acusação, seja à defesa.

    Ou seja: dos 4 componentes de um julgamento, apenas um deles — o juiz — não pode estar predisposto a nada.

    E foi essa regra elementar que Moro descumpriu e aviltou, tornando-se, ele próprio, um fora da lei.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 13 de junho de 2019, 12:34
  8. A corrupta elite se arvora a dona da verdade pela prerrogativa de possuir o poder? Quanta decadência. Deprimente!

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    Publicado por Luiz Mário | 13 de junho de 2019, 14:09
  9. Como Moro e Deltan só querem o bem do país e não falaram nada de mal nunca, além de serem apartidários, poderiam eles mesmos divulgarem a totalidade dos diálogos. Eles têm certamente o Backup. Que tal?

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    Publicado por ponzi | 13 de junho de 2019, 15:43
  10. Moro já disse que podem publicar TUDO!

    Entonces…

    Mas, se eu tivesse a oportunidade, eu perguntaria: “Tudo mesmo? Até as tuas conversas com a Dra. Gabriela Hardt?”

    Olha, rapaz! Não começa…!!!

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 14 de junho de 2019, 15:41
  11. Interessante que o mesmo jornalista que com facilidade e rapidez notáveis já descobriu que as divulgações dos diálogos de Moro com Deltan e cia têm duplo objetivo (“enfraquecer a Operação Lava-Jato e provocar a libertação do ex-presidente Lula”), durante longos anos não se apercebeu que a Lava Jato tinha um duplo objetivo: prender o ex-presidente Lula e tirar do PT qualquer chance na corrida presidencial.

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    Publicado por Kleber | 15 de junho de 2019, 10:38

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