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Cultura, Política

O “tenente” Barata

(Como texto suplementar à história da política no Pará, reproduzo artigo de 2014)

Em 1924 o tenente Magalhães Barata ocupou militarmente Óbidos, a caminho de Belém, vindo de Manaus, à frente de tropa sublevada do exército. Pretendia dar sua contribuição para o fim da oligarquia carcomida da República Velha. Mas ficou aí.

Reprimido, o movimento não se prolongou. Mesmo porque o comandante esteve muito longe de ter um comportamento heroico. Oito anos depois, o tenente revolucionário estava no topo do poder no Pará e a rebelião que irrompeu de novo em Óbidos era contra ele e o novo poder estabelecido dois anos antes. Desta vez houve combates e mais determinação.

No entanto, a versão desse episódio que prevaleceu foi a do interventor. Segundo sua reconstituição utilitária, os revoltosos foram comandados por um oportunista de fora, o baiano Athenógenes Pompa de Oliveira. Seu objetivo foi apenas saquear o comércio e os pecuaristas, ficando com o dinheiro e praticando arbitrariedades. Não havia verdadeiro conteúdo político nesse movimento.

O jornalista e historiador Walter Pinto de Oliveira desmonta essa artimanha no livro 1932 – A revolução constitucionalista no Baixo Amazonas (Paka-Tatu, 304 páginas, 2013). Consultando meticulosamente uma alentada bibliografia e documentos primários que vasculhou em diversos arquivos para o que, originalmente, foi a sua dissertação de mestrado, Walter mostra que os fatos foram deturpados e manipulados.

O objetivo de Barata era valorizar a rebelião de 1924, da qual foi líder, e diminuir a insurreição de agosto de 1932, da qual foi o alvo imediato. O interventor se preocupou em eliminar os propósitos políticos dos insurgentes, que tomaram por inspiração a revolução constitucionalista de São Paulo.

Como em 1924, em 1932 o Pará era um lugar distante do centro hegemônico nacional. Mesmo personagens importantes da revolução constitucionalista tinham, a partir de São Paulo, uma visão idílica e falsa do que podia estar acontecendo naquele ponto em que o Amazonas fica mais estreito em todo o seu curso em território brasileiro – e só por isso Óbidos, com seis mil habitantes, conquistou uma função estratégica.

Era a sede 4º Grupo de Artilharia de Costa e de uma fortaleza da época colonial, onde não mais do que uma centena de homens acompanhavam as subidas e descidas dos milhares de embarcações que singram até hoje o maior rio do planeta.

Analisado num mapa, o local podia parecer mais relevante do que efetivamente era. Mereceu por isso a anotação de Getúlio Vargas em seu diário. “A revolta tende a alastrar-se como uma furunculose. Rebela-se o Forte de Óbidos no Amazonas”. Afinal, era a “primeira manifestação efetiva de apoio à causa constitucionalista no Norte, após 50 dias de combate”, como Walter observa.

No entanto, como em 24, novamente foi fácil controlar a rebelião. Só havia uma saída para os amotinados, pelo rio. Eles não passavam de duas centenas de homens “mal armados e sem nenhuma embarcação para deslocamento”. Foi o “único combate naval dos 64 registrados durante a Revolução Constitucionalista”.

A “batalha de Itacoatiara” foi, porém, desigual: do outro lado estava a flotilha do 27º BC, formada por seis navios, com 230 homens, mais bem armados. Houve mortes., em número até hoje não apurado com precisão.

Quando o navio Poconé atracou em Belém, trazendo 72 prisioneiros de Óbidos, no dia 6 de setembro, estudantes, guardas civis e militantes comunistas iniciaram outro movimento de adesão à causa de São Paulo, que durou até o dia seguinte, com o saldo final de três mortes na dura repressão desencadeada pelo governo, que contou com apoio popular.

Joaquim de Magalhães Cardoso Barata já empregava o seu estilo populista e autoritário, combinando violência contra os adversários e tolerância para com seus partidários, admiradores e aderentes. Mas utilizando a imprensa de aluguel ou partidária para formar opinião pública favorável. Era um jeito novo de fazer política, embora sua novidade fosse muito mais de forma do que de conteúdo.

Fiel a essa tática, ele declarou a respeito dos conflitos na capital: “Açularam umas crianças, mentiram a esses ignorantaços da Guarda Civil”. Um dos três mortos era da guarda. Outro era da extinta Força Pública (o terceiro era um comerciário desempregado). Desacreditava as lideranças da revolta e atraía para o seu perdão a massa de manobra. Além de conter a oposição, queria exibir força para o poder central, de onde extraía sua legitimidade. Queria ser admirado como um tenente revolucionário – valente, corajoso, estadista.

Não era o que a sua biografia sugeria até então. Em 1930, quando se tornou interventor federal, estava há 10 anos no mesmo posto no exército, o de primeiro tenente, ao qual foi promovido em janeiro de 1920. No primeiro ano no poder ascendeu sucessivamente a capitão e major. Sua maior façanha, o motim de 1924, terminou com a rendição incondicional ao general Mena Barreto, embora “com orgulho”.

Mas era o bastante para o jornal oficioso Diário da Tarde incensá-lo. Apesar do mandato ainda curto de dois anos, já era “um governo por todos os títulos o maior de quantos já tivemos, honesto, trabalhador, brilhante, e que vai deixar na sua passagem por esta terra um rastro luminoso de benemerência que jamais se apagará”. O major se tornara, ao mesmo tempo, “símbolo do povo, símbolo do Exército, símbolo da revolução de Outubro”.

Como todo ditador, Barata parecia acreditar nos qualificativos comprados e se esmerava em poli-los e azeitá-los, conforme Walter Pinto demonstra em seu livro, uma tentativa de relativizar os termos da oração oficial e recuperar a história real. O movimento não foi tosco nem mal intencionado, como quis o interventor.

Há vários fatores que influíram para a sua eclosão: “a própria organização militar, o confronto nacional entre centralismo e regionalismo, o sistema de promoção nas Forças Armadas, a carreira militar, a insatisfação contra o autoritarismo”.

Se os vencedores procuraram destacar as requisições em dinheiro e mercadorias feitas pelos revoltosos, Walter lembra que o valor requisitado pelos rebeldes de 1924 equivalia ao pagamento de duas folhas salariais do exército em Óbidos, enquanto oito anos depois o valor correspondia a apenas duas folhas de pessoal.

A manipulação dos dados, o uso imoderado da força, a busca da voz única e a intolerância pela oposição já se revelavam no início da presença de Barata no poder e iriam se manter até o fim da sua passagem, ao longo de três décadas.

Se foi o coveiro da oligarquia da República Velha, o tenentismo foi também o parteiro de regimes de força que evoluiriam até a ditadura aberta, em 1964. A revolução de 1930 foi a porta de entrada para essa nova era, acentuada nos “Estados do Norte”: dos 11 que havia, em nove o governo foi exercido por tenentes como Barata. O livro de Walter Pinto é o melhor registro da abertura desses tempos.

Discussão

2 comentários sobre “O “tenente” Barata

  1. De fato,um excelente trabalho de Walter Pinto. Para quem quiser ,está disponível para empréstimo na Biblioteca Arthur Vianna,na Fundação Tancredo Neves(Centur). Parabéns pelos textos sobre a política no Pará.
    E assim que o jornal pessoal estiver disponível,vou comprá-lo.
    Um ótimo fim de semana,Lúcio.

    Curtir

    Publicado por RAFAEL GOMES ARAUJO | 14 de junho de 2019, 18:08

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