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Política

Bolsonaro, o destruidor

Se fosse um verdadeiro chefe (do poder executivo federal, no caso), o presidente Jair Bolsonaro teria convocado o ministro da Economia, Paulo Guedes, em audiência privada, e lhe pedido para comunicar ao presidente do BNDES, Joaquim Levy, que demitisse um dos membros da sua diretoria. O presidente, chefe de todos, considerava inadequada a permanência de Marcos Pinto no comando do mercado de capitais. Se a ordem dada não fosse cumprida e Levy não renunciasse, não restava a Bolsonaro se não demitir Levy e Pinto, com o endosso do superior deles, Paulo Guedes.

Ao invés de agir conforme a ética, a racionalidade e o protocolo, o que ele não fez nem quando era militar da ativa do exército (descumprindo sempre os preceitos da disciplina e da hierarquia, sem os quais não existe instituição militar), improvisou uma entrevista apressada para tomar a iniciativa de dizer desaforos a Levy e a Pinto, e lhes mandar recados desrespeitosos, à base do “posso, faço e mando” autoritário. Mais do que isso: estúpido, burro mesmo.

Levy e Pinto tomaram a atitude decente que lhes restava: o imediato pedido de demissão conjunto. Não aceitaram nem o prazo dado por Bolsonaro, que iria até amanhã. Como a decisão foi formalizada de madrugada, fora de Brasília, Levy nem fez o contato prévio com o ministro da Economia. Os dois só conversaram depois de consumado o fato, hoje de manhã. Não apenas pelo envio da carta de renúncia. Levy foi além: divulgou uma nota pública, tornando irremediável a sua decisão, deixando bem claro ser ela pessoal.

Da maneira pela qual agiu, não se limitou a entregar o cargo e retomar sua brilhante carreira profissional. Disparou petardos em direção ao alto do poder. Agradeceu a Guedes, o único responsável pela sua nomeação, mas ignorou o presidente. Recusou-se a fazer o rapapé formal de hábito, agradecendo a confiança do chefe maior, que nele jamais confiou. Bolsonaro e sua corte desarvorada e truculenta tinham Levy por infiltrado no governo, a ponto de ter trazido outro petista para a diretoria do maior banco de fomento da América do Sul.

Levy flutuou entre os tucanos e os petistas graças à sua origem e à sua trajetória. Dotado de personalidade própria e experiente pelos cargos exercidos, no aparato estatal e na iniciativa privada, dentro e fora do Brasil, era homem de missão. As circunstâncias políticas lhe eram indiferentes. Certamente se surpreendeu ao ser chamado para o ministério de Dilma Rousseff. Os petistas, ainda mais do que ele. Como Levy adotou medidas que poderiam ser enquadrados na demonologia neoliberal, foi combatido e boicotado pelos petistas radicais, que ainda pensam pela leitura desatenta de lorde Keynes, apostando suas fichas todas no papel do Estado como fomentador do desenvolvimento. O choque foi inevitável.

Para os bolsonaristas, teleguiados por um pensador primário como Olavo de Carvalho, o mundo é branco e preto. São incapazes de perceber semitons e a realidade concreta. É luta permanente entre o bem e o mal, o “nós” e o “eles” como termos excludentes da conquista e da manutenção do poder. Espantam não por serem do outro lado, mas por sua primariedade, como quem fundou sua teologia no catecismo primário e jamais teve uma leitura inteligente e clara dos textos do cânon. É uma lástima ver um país imenso, complexo e diverso como o Brasil ser governado por esses fundamentalistas.

Calado e sério, Levy acrescentou à omissão ao nome de Bolsonaro outro golpe inteligente: elogiou a “longa tradição de excelência e responsabilidade” do BNDES. Certamente não é o que ele pensa. A sua biografia mostra que ele jamais adotaria o keynesianismo pervertido simbolizado por Guido Mantega e Luciano Coutinho, que levou ao tratamento – mais do que favorecido, criminosamente generoso – aos súbitos bilionários das “multinacionais” brasileiras no mundo. Foi o que começou a fazer no governo Dilma, sendo derrubado por isso.

Foi o que alguns economistas tentaram fazer no governo Temer, procurando sair do âmbito da organização criminosa funcionando em torno do presidente, de passado alvo (em tese) e negro (na prática). Seria a tarefa maior do governo Bolsonaro, uma das razões mais profundas para a sua vitória sobre Haddad. Ao atirar contra Levy, Bolsonaro atinge a si. Vai perdendo o que havia de mais substancial no seu governo, reduzindo-o a uma desconexa e exótica engrenagem ideológica, à frente da qual está gente que, de ideologia, tem uma noção de almanaque capivarol – quando muito, de almanaque de Seleções (para quem não é absolutamente jejuno em inglês, como o monoglota Bolsonaro).

Já Paulo Guedes verá a diminuição ainda maior do super que Bolsonaro agregou ao posto do seu ministro da Economia, como está fazendo com o outro super do par, Sérgio Moro. Afinal, como demonstra mais esse episódio, o capitão sabe destruir, mas, ao que parace, cabulou outra vez a aula no dia em que seus superiores ensinaram os alunos a construir.

Discussão

25 comentários sobre “Bolsonaro, o destruidor

  1. Levi era o responsável pelo tal atraso na liberação da caixa preta do BNDES q tu mesmo vieste aqui grasnar q nem o Bolsonaro tinha tido a coragem de publicitar.

    Grande dia! Dois comunistas com uma mesma cacetada e ainda humilhados, servindo de exemplo e aviso a quem tem vivido à base de mortadela q agora vai voltar ao capim.

    Só quem tem pena é quem pertence à mesma laia.

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    Publicado por Adriano Guimarães | 16 de junho de 2019, 11:15
    • essa é para os cínicos!

      TSE acoberta crime eleitoral de Bolsonaro
      18 de junho de 2019 admin Destaque, Todos os posts, Últimas notícias
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      Oito meses depois de o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) abrir uma ação para apurar o impulsionamento de mensagens pelo WhatsApp contra o PT, durante as eleições de 2018, ninguém foi ouvido no processo.

      A ação, ajuizada pelo PT, foi aberta em outubro, após uma reportagem da Folha noticiar que empresários apoiadores do então candidato e hoje presidente Jair Bolsonaro (PSL) bancaram o disparo de mensagens em massa contra seu adversário na disputa, Fernando Haddad (PT), que acabou derrotado no segundo turno.

      Disparos em massa utilizam sistemas automatizados que não são permitidos pela legislação eleitoral. Além disso, pagamentos em benefício de um determinado candidato teriam de ser declarados à Justiça Eleitoral —do contrário, podem configurar caixa dois.

      No cenário mais grave, caso fique comprovada a prática e o suposto abuso de poder econômico nas eleições, a ação poderá resultar na cassação do mandato do presidente e de seu vice, Hamilton Mourão (PRTB). O processo é de relatoria do corregedor-geral eleitoral, ministro Jorge Mussi.

      A área técnica responsável pela condução do processo informou, por meio da assessoria do TSE, que ainda não houve decisão quanto aos pedidos de depoimento de testemunhas.

      A corte também não recebeu nenhum relatório da Polícia Federal sobre o tema. Também no ano passado, a PF abriu investigações sobre o suposto uso irregular de WhatsApp durante a campanha.

      Dono da agência Quickmobile, uma das suspeitas de prestar o serviço de disparos em massa pelo WhatsApp, o empresário Peterson Rosa Querino foi excluído do processo no TSE pelo ministro Mussi.

      Segundo a decisão, Querino não foi localizado pela Justiça nas três tentativas realizadas. Ele é considerado uma das peças-chave para a apuração.

      Em abril, o PT recorreu da decisão de Mussi, requerendo que o TSE tentasse notificar Querino em um novo endereço. O ministro negou o recurso, sob o argumento de que ele foi apresentado fora do prazo e é preciso manter a celeridade do processo.

      “Ademais, não se poderia garantir o sucesso da nova notificação no endereço […], ante o tempo já transcorrido, de modo a tornar essa busca interminável, com grave comprometimento à marcha processual, sendo certo o dever do juiz de dirigir o processo, cumprindo-lhe velar por sua duração razoável”, escreveu o ministro do TSE.

      Advogados do PT, Eugênio Aragão e Marcelo Schimidt então entraram com mandado de segurança no TSE contra a decisão de Mussi, com o objetivo de tentar garantir a citação de Querino. O mandado de segurança é um processo paralelo à ação e está sob relatoria do ministro Edson Fachin.

      O PT alegou nesse pedido que “é nítida a tentativa do representado Peterson Querino de se furtar à execução da lei”. Para o partido, há indícios de que o empresário registrou em documento recente um endereço onde não residia, o que impossibilitou sua localização.

      “O abuso [de poder econômico na eleição] emergiria da contratação de disparos em massa de forma ilícita. As empresas contratadas para concretização do abuso, portanto, são peças fundamentais ao deslinde da controvérsia”, sustentou o PT.

      “Verificou-se no curso do processo –por meio das defesas apresentadas pelos antigos sócios– que o sr. Peterson é o único sócio da empresa Quickmobile […] Consequentemente, a negativa de citação do único sócio responsável por uma das empresas envolvidas no esquema denunciado representa óbice grave à devida instrução processual e a eventuais sanções.”

      Ainda não há decisão do ministro Fachin quanto pedido formulado no mandado de segurança, que interfere diretamente na ação que investiga o impulsionamento de mensagens.

      Da FSP
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      Publicado por felipe puxirum | 18 de junho de 2019, 17:36
  2. Lúcio, só faltou dizer uma coisa: muita gente no Brasil ainda está com o mesmo padrão mental do Bolsonaro, mas este número está dimninuindo. Se um dia lá nas pistas de corrida de fórmula 1 o Emerson Fitipaldi aproveitava o vácuo do carro do Jack Stuart para chegar várias vezes ao podium, hoje em Brasília o político que mais se beneficia com o vácuo de bomsenso e habilidade política do capitão é o deputado Rodrigo Maia, que já está sendo comentado em muitas bocas como o sucessor.

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    Publicado por J.Jorge | 16 de junho de 2019, 12:05
  3. É claro que o Brasil não precisa do Estado pra voltar a ter crescimento econômico.

    O Levy provou isso! Henrique Meirelles provou de novo. Guedes toca a mesma música. E o resultado é esse que se vê: um crescimento econômico fantástico!

    Falar nisso, lembram do que diziam os neolibs? Que a legislação trabalhista precisava ser “flexibilizada”, para que houvesse mais geração de emprego.

    “Flexibizaram” a legislação trabalhista e… bingo! Aí está a estonteante geração de empregos profetizada pelos gurus neolibs.

    Mais uma vez os neolibs estavam certos! Tão certos quanto certos estavam ao dizer que, cortando investimentos estatais, a economia brasileira voltaria a crescer.

    Credo!!!

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 16 de junho de 2019, 13:47
  4. É um fato corriqueiro na República……das Bananas. Cristovam Buarque foi demitido pelo Lula, por telefone, quando era ministro da Educação. Cristovam estava em Portugal! Dilma demitiu, também por telefone, o ministro da Saúde, Arthur Chioro. Às favas com a ética.

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    Publicado por Bernstil | 16 de junho de 2019, 16:26
  5. Podes prever, escrever, sobre o tempo que virá?

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    Publicado por Valdemiro A. M. Gomes | 16 de junho de 2019, 17:36
  6. A notícia de acordo com a conveniência.
    Jornal “Estado de São Paulo”: “Demissão de Levy é mal recebida no mercado financeiro”;
    Jornal “Folha de São Paulo”: “Setor produtivo critica e mercado financeiro minimiza a queda de Levy”.

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    Publicado por Bernstil | 17 de junho de 2019, 06:34
  7. O que esperar de um embusteiro milico?

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    Publicado por Luiz Mário | 17 de junho de 2019, 08:17
  8. Deixa eu ver…

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    Publicado por Diniz | 17 de junho de 2019, 10:26
  9. Ainda estou sob censura…

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    Publicado por Diniz | 17 de junho de 2019, 10:27
    • Você não está sob censura, mas sob processo de reeducação e civilidade. Sempre que deixar de lago a agressão e a ofensa, seus comentários serão publicados. Não é por serem críticos. É por negarem a razão de ser deste espaço, que criei e mantenho, gratuitamente à disposição dos que se manifestarem regidos pela razão, o diálogo baseado na demonstração dos fatos e o respeito mútuo.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 17 de junho de 2019, 11:14
  10. Caro Lúcio, libere o Diniz. Afinal, não és o Moro.

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de junho de 2019, 10:31
    • Mantive este blog sem qualquer moderação por mais de quatro anos e meio. Absorvi ofensas pessoais, à base de calúnias e propósito evidente de agressão e intimidação, apesar de esse tipo de manifestação contrariar a razão de ser deste espaço, aberto ao diálogo e à crítica de ideias, fatos e informações. Quem quer fazer apenas ataque pessoal, sem qualquer compromisso com a verdade e mesmo a verossimilhança, que vá para outros espaços ou crie o seu.
      Não vou mais admitir que venham sujar este blog. Gratuito, sem propaganda nem mecenas, ele me custa imensamente. As duas mensagens nas quais o Diniz não fez ataque pessoal saíram. E sairão, conforme o conteúdo. Eu o tolerarei, se possível. Mas ele não é mais bem recebido, por seu passado. Não por me criticar, mas por ofender a minha inteligência e a dos meus respeitáveis leitores..

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de junho de 2019, 11:27
  11. O único erro de Bolsonaro foi tornar publico a demissão de Levi, ou de falar que iria fazê-lo. Não sei porque tanta crítica por parte do Presidente da Câmara dos Deputados Maia, uma vez que o Levi é da turma do Lula e só beneficiou seus capachos e asseclas. Já vai tarde. Bolsonaro só tem um problema, estar mal assessorado, e tem uma boca grande. Ou vc preferiria o HADADD? Com certeza estaríamos pior.

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    Publicado por Pedra | 18 de junho de 2019, 12:05
  12. Apenas uma observação, caro Lúcio: o antídoto para o veneno da cobra está na própria cobra.

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de junho de 2019, 19:07

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  1. Pingback: Bolsonaro, o destruidor — Lúcio Flávio Pinto – VERDADEIRO VALOR - 16 de junho de 2019

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