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Justiça, Polícia, Segurança pública, Violência

Chacina do Guamá: fim de caso?

Não há dúvida: as oito pessoas denunciadas hoje pelo Ministério Público do Estado participaram mesmo da execução sumária de 11 pessoas, deixando ferida mais uma, na passagem Jambu, no bairro do Guamá, em Belém. no dia 19 de maio. Todos os oito, denunciados pelos crimes de homicídio qualificado e lesão corporal, estão presos.

Caso encerrado? Não. A singela denúncia de José Rui de Almeida Barboza, 1º promotor do Tribunal do Júri da capital, nada diz sobre a motivação do crime ou a existência de um mandante oculto. A reconstituição dos fatos é tão categórica quanto deficiente. Conta uma história simples e inverossímil.

O atentado foi planejado e mobilizou oito pessoas, com um automóvel e três motos. Os chefes da operação foram quatro cabos no serviço ativo da Polícia Militar: Pedro Josimar Nogueira da Silva (o cabo Nogueira), José Maria da Silva Noronha (cabo Noronha) e Leonardo Fernandes de Lima (cabo Leo). Mais um militar, atuando como segurança: Wellington Almeida Oliveira (cabo Wellington). Com o concurso de Ian Novic Correa Rodrigues (o Japa, “de estado civil e profissão não declarados”, segundo a identificação na denúncia), Jonatan Albuquerque Marinho (Diel, segurança), Edivaldo dos Santos Santana (agente de segurança) e Jailson Costa Serra (microempresário).

Conforme a denúncia do MP, às três horas da tarde daquele domingo, Jonatan Marinho ligou para Edivaldo Santana, dono de um automóvel Celta, de cor preta, perguntando onde ele estava e foi ao seu encontro. Na conversa, o convidou para a realização de uma “missão”, expressão típica de policial. Edivaldo “aquiesceu sem hesitação”.

Jonatan passou então uma mensagem via whatsapp para Pedro Josimar Nogueira. Informou-o que já arranjara o carro para o apoio. Em seguida, subiu na sua motocicleta, de cor branca, enquanto Edivaldo Santana entrou no carro e foram apanhar Ian na rua Santa Rosa, no bairro do Guamá, de lá seguindo para a Panificadora e Confeitaria Esquina do Pão, de propriedade de Jailson, localizada na Rua dos Paríquis, esquina como a travessa Quatorze de Abril, bairro do Guamá.

Nesse local se reuniram com Pedro Josimar, José Maria e Leonardo Fernandes de Lima para acertar detalhes da operação. Ela consistiria no ataque ao Wanda’s Bar, localizado na passagem Jambu, no bairro do Guamá, de propriedade de Maria Ivanilza Pinheiro Monteiro. No bar já estava Wellington Oliveira, na função de olheiro, identificando e localizando os alvos a serem executados, “que inicialmente eram apenas duas pessoas”.

Na reunião, ficou definido que a execução das vítimas ficaria a cargo de Josimar, José Maria e Leonardo, que iriam no carro de Edivaldo, porque o carro de cor prata, um Honda Fit, pertencente a Leonardo Lima, “já estava manjado”, e na motocicleta, de cor vermelha.

Uma vez definidas as funções dos executores e dos partícipes da operação, objetivando não serem identificados, encobriram a ordem alfabética da placa do carro, retiraram a placa da motocicleta, Pedro Josimar Noronha e José Maria Nogueira trocaram de roupas, passando a usar camisas de mangas longas e colocando brucutus e capacetes.

Em seguida, Jonatan passou mensagem de áudio para Wellington, dizendo para ele sair do bar, uma vez que para lá já estavam se deslocando, e foi para a sua casa aguardar o desfecho da “missão.

O grupo passou por cinco ruas até atingir a passagem Jambu. Lá chegando, Josimar, José Maria e Leonardo entraram no bar empunhando as armas e atirando, matando 11 pessoas e lesionando uma. Fugiram e foram para a 14 de Abril, ponto inicial da partida, de onde continuaram para a casa de Wellington, mas já no Honda Fit, de cor prata, que foi trocado pelo Celta, “objetivando retirar do contexto dos fatos delituosos”. Lá, ficaram bebendo, “totalmente alheios à gravidade e repercussão dos fatos, insensíveis à dor de familiares das vítimas e à sensação de insegurança causada à sociedade”, observa o promotor.

Por essa reconstituição, o crime é quase uma ação entre amigos. Os participantes do grupo moram em locais próximos entre si e do bar da Wanda. Dois deles no próprio bairro do Guamá, dois na Condor e dois na Terra Firme. Um no bairro de Fátima, Só o cabo Noronha reside e é domiciliado fora de Belém, no município de Tracuateua, na zona Bragantina.

Mesmo tramando a ação desde algum tempo antes, ela é primária e os sujeitaria a ser descobertos rapidamente. Tanto que a denúncia foi apresentada antes de o crime completar um mês. As reuniões foram realizadas num local visível, a padaria de Jailson Costa, que a abriu naquele domingo, “dia em que o estabelecimento não abre”.

Se o plano foi concebido para executar apenas duas pessoas (uma seria a dona do bar, mas isso é especulação; o nome da outra vítima nem foi identificação), por que “os executores entraram no bar empunhando armas e atirando, alvejando”, conforme relata o promotor?

Evidentemente, todo aparato, envolvendo quatro militares da ativa e uma verdadeira milícia particular, não seria mobilizado pelo que, da descrição, se é levado a pensar que se trata de uma vingança pessoal, uma guerra doméstica, a materialização de impulsos bárbaros em uma patologia grupal.

“Quanto aos onze crimes de homicídios qualificados, deve ser observado caráter hediondo, conforme preceitua a Lei 8.072\90, porquanto, os denunciados, com suas condutas, afetaram valores morais e éticos, o direito fundamental à vida, revelaram comportamentos inescrupulosos, perversos e inaceitáveis pela sociedade”, bradou na denúncia o promotor de Justiça Rui Barboza.

Com os oito denunciados no proscênio com todas essas luzes da condenação e do repúdio, é mais difícil observar o contexto dessa chacina, fato “que ocupou espaço na mídia e ganhou repercussão nacional, dada a ousadia com que agiram e o desprezo pelos bens jurídicos tutelados”.

Só isso?

Discussão

2 comentários sobre “Chacina do Guamá: fim de caso?

  1. Lúcio, o conluio entre autoridades e imprensa tradicional esconde a motivação e os mandantes. Uma boa investigação jornalística vai chegar aos beneficiários da tragédia.

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    Publicado por Carlos Oliveira | 26 de junho de 2019, 05:00

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