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Imprensa, Justiça, Polícia, Violência

História Trágica

Reproduzo o texto que o jornalista José Queiroz Carneiro escreveu sobre a chacina do Guamá, que completou um mês, apresentando uma das vítimas da matança.

Neste domingo que passou, dia 19 de maio de 2019, houve um morticínio em Belém do Pará. Cerca de 16:30h cinco homens encapuzados invadiram um bar suburbano e assassinaram a tiros onze pessoas, seis mulheres e cinco homens, dos quais apenas três tinham registro de passagem pela polícia.

O bar estava lotado. Um dos assassinados chamava-se Márcio Rogério Silveira Assunção, de 36 anos, mecânico de motocicletas, um casal de filhos e separado da esposa há quase dois anos. Márcio Rogério era meu afilhado de batismo.

Fui avisado do assassinato cerca de18hs, por um telefonema dado por seu pai e meu compadre Hilmar Farias de Assunção, que ainda não tinha detalhes do ocorrido. Logo as emissoras de rádio e tv entraram em cena para fazer uma larga cobertura, ganhando espaço no Brasil e no mundo.

Para sintetizar, escrevo nesta terça feira de manhã, sem que a Polícia tenha descoberto qualquer pista dos criminosos da tragédia. No velório fiquei sabendo da estranha morte do meu afilhado: ele teria ido levar um vizinho, como sempre fazia às vezes de motoboy, para o tal bar. A corrida era tão curta e rápida que ele deixou em casa, onde morava sozinho, a televisão ligada e o celular carregando.

Ao chegar no bar, estacionou a pequena moto na frente e entrou não sei a título de quê. Voltou logo e deparou com os assassinos disparando suas armas. Foi um dos atingidos, até agora por motivos desconhecidos. Essa foi a primeira versão que recebi, mas há outras e prefiro não me debruçar sobre isso.

Agora vamos ao começo da história:

Conheci o pai dele, que veio a ser meu compadre, nas vizinhanças da casa da Conceição, mulher que eu namorava no bairro do Jurunas e que veio a ser minha esposa, com quem vivo há quase quarenta anos. O Hilmar, que hoje tem 58 anos, era um competente mecânico formado no Senai, que se especializou em operar o torno mecânico

De uma hora para a outra o Hilmar casou-se com a Maria, com quem nunca vi ele namorar. Ela veio a ser mãe do Marcio, que eu e Conceição batizamos no dia 10 de novembro de 1982. Pouco depois tiveram duas filhas gêmeas, que alcunharam de Branca e Preta, mas que se chamaram Márcia e Marcela. E pouco tempo depois o meu compadre Hilmar teve séria desavença com a comadre Maria e acabaram se separando em definitivo, da forma mais grosseira possível, ou seja, rompendo as relações para sempre.

O meu compadre continuou solteiro, mas decaindo cada vez mais profissionalmente, fazendo bico aqui e ali, pulando de emprego para emprego e sempre brigando com os patrões. Nessa decadência moral e financeira, ele só não abandonou o vício do cigarro, que o acompanha até hoje e abalou sua estrutura física. Nós nos víamos com pouca frequência, mas eu sempre sabia o que ele andava a fazer, aprontando aqui e acolá.

Com o passar do tempo, e com a chegada do telefone celular, fiquei sabendo que ele e o Marcio estavam de relações cortadas, por motivos que nunca entendi, mas que eram para valer. Segundo ele, o Márcio tinha exigido ajuda para montar sua própria oficina e ele recusou por não ter recursos. A filha chamada de Preta, ao saber dos motivos da separação dos pais, rompeu com o pai em definitivo. Restou a Branca, a lhe fazer algum carinho filial, conforme ele me dizia esporadicamente.

Em meio a tudo isso, eu convivi algumas vezes com o Marcio, vendo-o crescer e se profissionalizando por conta própria, sem realmente nenhuma ajuda efetiva do pai. Nas vezes em que eu o vi, ele e o pai ainda se relacionavam. Depois o perdi totalmente de vista e estava sempre me informando por meio do distante pai. Com a comadre Maria deixei de vê-la, sempre obtendo notícias por parte do Hilmar que fechava a cara quando era obrigado a me falar da ex-mulher.

O velório do Márcio Rogério: ponto final

Na segunda-feira à tarde, o compadre Hilmar me telefonou dizendo que o Instituto Médico Legal havia liberado o cadáver, já a caminho do Jurunas, para o velório. Seguimos para lá, eu e a Conceição, e nos deparamos com o que talvez nem esperássemos: o caixão exposto num pequeno salão do que seria uma igreja, sem nome. O compadre estava nos esperando, levou-nos para cumprimentar a Branca e a Preta e, finalmente, pude abraçar a comadre Maria, com quem o compadre Hilmar não trocou cumprimentos nem num momento tão difícil de suas vidas.

Revimos mais alguns parentes dos dois compadres, conversamos mais um pouco e nos despedimos do Márcio Rogério Silveira Assunção, que foi enterrado hoje, terça feira, dia 21 de maio de 2019 no cemitério Parque das Palmeiras, em Marituba. Assim Caminha a Humanidade.

Discussão

6 comentários sobre “História Trágica

  1. Infelizmente é mais um caso que a corrupta elite elegeu outro cristo. O mesmo acontecerá no caso da droga com a segurança do presidente.

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    Publicado por Luiz Mário | 1 de julho de 2019, 08:29
  2. … “Assim caminha a humanidade” … parabéns caro Lúcio Flávio pela crônica da vida real…

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    Publicado por David Oliveira | 1 de julho de 2019, 13:50
  3. Lucio, obrigada por publicar esse texto. A grande imprensa tornou a violência tão banal em Belém, que as notícias acabam se limitando a nomes e números. Os repórteres, se é que podem assim ser chamados, não explicam o que aconteceu, não investigam os porquês, limitando-se a repassar dados estatísticos sobre execuções horrorosas que vem sendo cometidas diariamente em Belém. Estão prestando um desserviço ao povo paraense, por escreverem de forma tão banal sobre um fato tão grave, como é a morte violenta, que está se tornando corriqueira na RMB. Parecem esquecer que são vidas, pessoas com famílias, sonhos, projetos, desejos, dores e tudo mais que é levado com a morte. Não são números; são seres humanos e cada um desses assassinatos devem ser mostrados como algo grave, com informações detalhadas, a exigir do poder público medidas repressivas urgentes. Quando vemos metade da folha de um jornal apresentando um cadáver de corpo inteiro com um mísero texto de apenas dez linhas escritas sobre aquele fato, somos induzidos a naturalizar a violência, olhando para aquele cadáver como mais um, entre o que morreu ontem e o que morrerá amanhã. O texto do jornalista que você reproduziu nos mostra que foram onze pessoas que morreram deixando filhos, pais, irmãos e todas as perdas impostas pela morte, sobretudo a violenta. Isso não pode ser tratado como estatística.

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    Publicado por Marilene Pantoja | 1 de julho de 2019, 17:05
    • Para os jornais, parece que as pessoas são feitas apenas de sangue, sem sarne,s em osso, sem alma, sem psique sem nada. Um item na contabilidade do faturamento. Com seu noticiário sensacionalista e cruel, o jornal do próprio governador atenta contra as metas de Helder Barbalho para reduzir a criminalidade.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de julho de 2019, 18:31

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