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Imprensa, Política

Apenas jornalista

Edward Murrow cunhou um dos mais notáveis bordões do jornalismo na televisão mundial. Sempre que encerrava seu programa na rede CBS, o See It Now, ele desejava boa noite e boa sorte aos telespectadores.

Não era uma frase banal. Tinha muito sentido naquele momento, nos anos 1940, em que se travava na Europa a maior de todas as guerras da humanidade. Ter uma boa noite e boa sorte era um patrimônio precioso. Muitos não acordariam. Outros morreriam durante o dia. Às centenas. Ou milhares.

Paulo Henrique Amorim repetia a frase de Murrow no seu programa na TV Record, seu último emprego. Não citava a fonte. Certamente seu brado não tinha a mesma embocadura. E, sobretudo, Paulo Henrique não possuía a envergadura de Murrow, que defendeu a liberdade de expressão e de imprensa, e combateu o totalitarismo, que ameaçava o jornalismo, na era de perseguições promovidas pelo senador McCarthy.

Paulo Henrique também foi crítico feroz da TV Globo, dos tucanos, do neoliberalismo e da liberdade, tudo isso em ciclos, que se sucederam a períodos de apoio aos militares, a Delfim Neto, à Globo, ao fundamentalismo do bispo Edir Macedo, seu patrão em última instância, e a Lula.

Paulo Henrique sempre desejou, cortejou e cultivou o poder, a fama, o destaque, a glória. Quando caiu, se voltou contra as suas sucessivas origens. A última queda, aos 77 anos, menos de um mês atrás, o levou ao infarto violento e à morte, ontem.

Não foi sem méritos que ele subiu tão alto. Escrevia bem, apurava com competência, era inteligente, tinha raciocínio rápido, tratava com elegância e generosidade quando lhe convinha – e recorria ao seu estoque de humor e ironia quando necessário. Mas suas causas eram utilitárias e derivavam da sua busca pelo destaque e a evidência.

Foi recebido com tapete vermelho na Record por sua capacidade de fustigar e ferir a Globo. Entronizou Lula no pórtico dos heróis porque Lula também gostaria de diminuir a Globo, fazendo a Record crescer. Paulo Henrique serviu com brilho a esses dois projetos e se encantou com seu poder derivado.

Talvez não tenha avaliado adequadamente o quanto o seu protagonismo era dependente de terceiros. No meio do caminho, surgiu Bolsonaro, acoplado aos evangélicos e à Record, que precisou se desvencilhar de Lula – e Paulo caiu.

Lamente-se o final, que abreviou uma carreira de sucesso e pôs fim a uma pessoa simpática e de convívio agradável. Conversei com ele pela última vez sete anos atrás, no seu programa, quando me entrevistou sobre o livro que eu estava lançando, A Amazônia em questão.

Foi atencioso e generoso. Estendeu o registro ao seu blog, que virou um site. Devo-lhe essa gentileza. O jornalismo, nem tanto quanto disseram que deve os eternos conversores dos personagens dos quais se despedem como de santos ou heróis. Paulo Henrique Amorim não foi uma coisa nem outra. O jornalismo agradece, lamenta e segue – José, para onde?

Discussão

Um comentário sobre “Apenas jornalista

  1. Lucio,

    O Paulo Henrique Amorim foi polêmico a vida inteira, construiu uma história de sucesso no jornalismo por onde passou e criou os eus bordões, como você mesmo cita . Mas tem uma passagem dele por
    aqui que , ao meu ver, na condiz com o comportamento e ética necessárias ao bom jornalismo, que ele sempre fez questão de valorizar. Digo isso em relação a participação dele como analista na campanha do SIM pela divisão do Pará, no plebiscito de 2011, quando emprestou seu prestígio jornalístico nacional a serviço da publicidade de Duda Mendonça. As palavras e análises feitas por PHA nada mais eram do que que as repetições dos clichês da abordagem da campanha que defendia a divisão do Pará.
    Aquilo, verdadeiramente, não foi jornalismo. E o Paulo Henrique Amorim queria que o povo do Pará entendesse que era.
    Se isso não é maior do que o legado deixado por ele na carreira de sucesso profissional no jornalismo, de qualquer forma deixa aqui pra nós um registro que não condiz com a história de um bom profissional.
    Orly Bezerra

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    Publicado por Orly Bezerra | 12 de julho de 2019, 20:35

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