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Cultura, Política

Chico, único

Ainda eram os anos 1990, mas não lembro agora da data exata (talvez 1996). A socióloga e cientista política (e futura política) Aspásia Camargo me convidou para um seminário sobre desigualdades regionais na sede do BNDES, no Rio de Janeiro. Um hall enorme, asséptico, de alta tecnologia. Quando me debrucei na recepção, uma câmera já me fotografara para o atendente preparar meu crachá.

Fiquei impressionado. A sala de reunião dava a impressão de um cenário de filme de ficção científica. Os coffee-breaks eram refeições de alta qualidade. Os ocupantes das cadeiras em volta da caríssima mesa oval vestiam roupas de griffe, os homens de paletó e gravata. Menos eu, do Norte, um dos expositores, e Francisco de Oliveira, do Nordeste, o relator da sessão. Éramos do outro Brasil, metafísica para o Brasil de cima.

Minha vez era depois de Sérgio Besserman Vianna, o irmão do humorista (já falecido) Bussunda, celebrizado pela TV Globo. Oito anos mais novo do que eu, parecia mais velho. Muito mais famoso, sem dúvida. Uma autêntica celebridade no mundo acadêmico, típico representante dos intelectuais da zona sul do Rio.

Criticava os empresários da Amazônia, alvo do programa de investimento PAI (Programa Amazônia Integrada), com caixa de um bilhão de reais. Ao receberem o dinheiro, os empresários compravam logo um carrão, viajavam para o exterior, adquiriam um imóvel, montavam escritório luxuoso. Não tinham mentalidade de verdadeiros empresários. Por isso, acabavam quebrando e o recurso público vazava pelo ralo.

Concordei com o diagnóstico, mas critiquei asperamente o BNDES, que nada fizera para criar a mentalidade desejada. Seu maior investimento na Amazônia fora em favor do bilionário americano Daniel Ludwig, que cometera erros enormes no seu projeto Jari. Destinara (suplementado pelo Banco do Brasil) 500 milhões de dólares ao empreendimento, que não dava lucro e não devolvia o recurso estatal, obrigando os dois bancos a subscrever ações, mas sem direito a voto. Negócio ruinoso.

Bugre, perturbara o ambiente elevado de abordagem científicas bem posta, ganhando um olhar fulminante de Besserman, que dirigia o IBGE. Tratei de ir embora, mas Chico de Oliveira me pediu para esperá-lo. Logo que concluísse seu relatório, iríamos juntos. Estávamos no mesmo hotel, em Copacabana. Mal saímos daquele templo da tecnoburocracia estatal, Chico me abraçou com força e me beijou o rosto, eufórico.

Eu dissera o que ele diria se não estivesse prestando ali um serviço profissional. Aquela posição posuda, paternalista e distantemente crítica dos ocupantes da mesa o irritava. Um pouco de lama (ou outra matéria) no ventilador, espalhada pelo local, seria necessária. Enchemos a cara, eu de água, como se fosse também ardente, tal a de Chico de Oliveira.

Ele morreu anteontem, em São Paulo, aos 85 anos, digno, decente, honrado, independente, crítico e solidário com o povo brasileiro. Foi um grande acadêmico, competente no ambiente universitário, mas com os pés no mundo, aberto à sociedade, vivendo nela de olhos bem abertos e braços estendidos aos necessitados do seu labor e da sua inteligência. Atingiu o ápice da carreira aos 55 anos, quando assumiu a sociologia na USP, tornando-se titular quatro anos depois e emérito em 10 anos. Escreveu apenas quatro livros, entre os 39 e os 69 anos de idade, todos polêmicos, luminosos, desafiadores.

Ocupou o front cultural no Cebrap, um centro de pesquisas pluralista, de alto nível, do qual se afastou 25 anos depois, divergindo dos colegas, dentre os quais Fernando Henrique Cardoso, sem brigar com eles. Foi um dos fundadores do PT e se desligou do partido 23 anos depois, quando Lula chegou ao poder supremo. No PSOL, do qual também foi fundador, se desgarrou logo.

Entrou e saiu da militância com a visão aguçada, a ponto de ter percebido a formação de uma nova classe sindical, à sombra do poder e do dinheiro dos fundos de pensão, fonte de desvios e de corrupção com linguagem socialista. Constatou que Lula foi mais eficiente para o novo capitalismo brasileiro, com seus muitos bilionários engordados pelos bancos estatais e as verbas federais, do que FHC, pela vantagem de não parecer o que de fato era.

Não surpreende que o príncipe dos sociólogos tenha, no fundo, preferido o rei do povo ao também tucano José Serra como seu sucessor. Fernando Henrique disfarçou bem, mas não enganou o glorioso Chico de Oliveira, uma voz autêntica e firme até o final dos seus dias – e para sempre.

Discussão

6 comentários sobre “Chico, único

  1. Brilhante homenagem.Texto de primeiríssima.

    Comovente e verdadeiro.

    Obrigado,

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    Publicado por celso.. | 12 de julho de 2019, 13:48
  2. Lúcio, a história da distribuição de incentivos e financiamentos do governo federal reserva lances para muitos de nós que um dia chegamos a achar que estávamos perto desta via láctea-e-melífera. Momentos que certamente não deixarão nunca a nossa lembrança, a menos que tudo se acabe com a morte. De lembrar que um dia me levantei no meio de uma igreja, por entender que de fato “faltava gente interessada” em prestar serviços comunitários num, digamos… “empreendimento social de mentirinha” financiado pela SUDAM no interior do estado. Demorei a compreender que a minha insistência em trabalhar em troca de experiência profissional; quiçá um presente ou uma pequena retribuição; irritava quem já se acostumara com o dindin aplicado em outros beneficiários, deixando com a comunidade um elefante branco gordo. Aproveitamento zero.

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    Publicado por J.Jorge | 12 de julho de 2019, 16:42
  3. Texto excelente; grande homenagem a um grande homem. Chico equivocou-se na entrevista que concedeu em 2016 ao GHZ (está na internet), ingenuidade ou talvez pela idade. FHC “príncipe”? Só se pela pose ou pela exposição que obteve. Maior que sua inteligência, a capacidade detestável de sua dissimulação. Como se dizia na infância: joga pedra e esconde a mão.

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    Publicado por Alcides | 14 de julho de 2019, 01:22
  4. Caro Lúcio, esqueci( era tarde) de dizer que Besserman não tinha e nem tem autoridade intelectual para lhe lançar olhares fulminantes. Tenho certeza que sua exposição foi tão brilhante quanto certeira. Esses bessermans da zona sul pensam que usamos todos tanga e badulaques por aqui. O diagnóstico sobre os empresários amazônicos está correto. Eu mesmo trabalhei em empresa favorecida por incentivos fiscais e prestei assessoria a tantas outras. Nenhuma sobreviveu. Portanto não há dissenso. O BNDES errou desde sempre. Lá com o Jari e até ontem com o governo petista. Veremos daqui por diante.

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    Publicado por Alcides | 14 de julho de 2019, 15:34

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