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Agenda Oficial, Cultura

Farra total

Há alguns anos a cultura se tornou moeda de troca e instrumento de favores para políticos e grupos de artistas, que criaram uma ação entre amigos com o dinheiro público, favorecidos pela conivência ou omissão dos órgãos encarregados de vigiar pela lisura e licitude no trato da coisa pública. Tem sido uma farra, um autêntico escândalo. Mas ninguém se escandaliza.

Verbas públicas podem ser acionadas por emendas apresentadas por deputados estaduais. Eles destinam o dinheiro principalmente a grupos musicais, em regra desconhecidos ou destituídos da notoriedade sem a qual não poderiam receber os recursos através do mecanismo da inexigibilidade de licitação pública.

São desconhecidos e não passaram por um teste de qualidade competente, mas, justamente por serem paroquiais, possibilitam o desvio do dinheiro, de volta ao autor da emenda parlamentar, ou o uso dessa verba para fins políticos ou pessoais.

A outra forma de favorecimento é a entrega direta do dinheiro pela Fundação Cultural do Estado, sempre em valores muito acima do padrão do mercado.

Gosto muito do Elói Iglésias, como gosto da atual secretária de cultura, Úrsula Vidal. Gostaria de manter a amizade pelos dois. Como aceitar, no entanto, que o artista receba 12 mil reais por uma única apresentação? Quem lhe daria tal cachê artístico na iniciativa privada ou em qualquer outro Estado que não o Pará, na forma aqui praticada?

A distorção é produto das irregularidades cometidas, protegidas pela falta de disposição do aparato estatal para investigar os fatos. Até mesmo procedimentos burocráticos elementares são deixados de lado. O pagamento poderia ser efetuado integralmente aos artistas, desde que criassem empresas individuais. Como isso não acontece, parte da verba vai para intermediários, quando poderiam perfeitamente dispensar a presença de empresários.

Só na edição de hoje do Diário Oficial foram publicadas nove inexigibilidades de licitação, por meio das quais serão destinados 600 mil reais. Os nomes dos favorecidos e dos seus empresários, os valores que receberão e o que farão para merecer tanto são estes:

PAGAMENTO DIRETO

* Elói Iglesias, apresentação no Arraial Para Todos 2019: R$ 12 mil.

Intermediário: Alexandro Teixeira Valente

POR EMENDA PARLAMENTAR

* Serginho Nóbrega, Ana Selma, Diego do Cavaco, e Arthur e Jaqueline, por suas apresentações no evento Musicarte, no bairro da Cremação, em Belém: R$ 50 mil.

Contratada: Tryce Pantoja Produções e Eventos.

* Jade Lima, Ana Selma, Diego do Cavaco, e Arthur e Jaqueline, por suas apresentações na Domingada Cultural, no bairro da Cremação, em Belém: R$ 50 mil.

Contratada: Tryce Pantoja Produções e Eventos.

* Aparelhagem Super Pop Som, por apresentação na XXXV Festa do Mingau, em Nova Timboteua: R$ 50 mil.

* Beto Farias e Banda, Banda Pérola Negra, Banda Camarote VIP, Banda Forró do Bacana, Samy Lourinho e Banda e Suanny Batidão por sua apresentação no evento Temporada de Veraneio, no Acará: R$ 100 mil.

Contratada: E. S . de A. Pinto e Serviços.

* Banda Camarote VIP, Forró do Bacana, Suanny Batidão, Jorginho e Banda, Cantor Hugo Santos, Forró Bom de Farra por sua apresentação no projeto Veraneio Cultural, em Salvaterra: R$ 100 mil.

Contratada: E. S . de A. Pinto e Serviços.

* Forró do Bacana, Samy Lourinho e Banda, Cantor Hugo Santos, Forró Bom de Farra, dupla Henrique e Gabriel, Adriana Oliver e Banda, por sua apresentação no projeto Verão Cultural, em Colares: R$ 100 mil.

Contratada: E. S. de A. Pinto e Serviços.

* Cantor Hugo Santos, Banda Forró Bom de Farra, dupla Henrique e Gabriel, Banda Camarote Vip, Jorginho e Banda e Suanny Batidão, por sua apresentação no projeto Estação Verão, em Soure: R$ 100 mil.

Contratada: E. S. de A. Pinto e Serviços.

*  Viviane Batidão e Açaí Latino por sua apresentação no evento Sabor Musical, em Oeiras: R$ 40 mil.

Contratada: Chaf Produções – Cleber Henrique Figueiredo.

Discussão

8 comentários sobre “Farra total

  1. De fato, tais favorecimentos são verdadeiros absurdos.

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    Publicado por Ricardo Condurú | 15 de julho de 2019, 12:21
  2. Acho que esse julho lhe deixou com a vista cansada. Está assustado com esses cachês?? Acabou pulando o repasse de mais de dois milhões…. Isso mesmo. 2 milhões de reais para o verão de Conceição, via fundação.

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    Publicado por Augusto | 16 de julho de 2019, 01:58
    • Como não sou capaz de abarcar tudo que é importante ou exige crítica, me ajude, se acha que sou um jornalista de boas intenções: mande as informações.
      Ah, sim>: viajei para tratar da saúde, que está exigindo atenção, e não para tirar férias, embora, com a sua devida permissão, acho que estou merecendo um longo afastamento desta fonte de stress, que se tornou veneno para mim.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 16 de julho de 2019, 09:19
  3. Enquanto isso os grupos folclóricos, pássaros juninos e bois bumbás vivem à míngua atrás de um mísero cachê que lhe proporcione manutenção de suas indumentárias e pagamento de músicos que só se apresentam por dinheiro, muitas das vezes, com raríssimas exceções. Triste

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    Publicado por Jorge Anderson | 16 de julho de 2019, 11:18
  4. E a propaganda governamental nos veículos da RBA?
    Seria interessante ver o portal transparência funcionando

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    Publicado por Jorge | 16 de julho de 2019, 12:09
  5. se essas bandas fossem fazer um evento privado todas juntas… nao teriam 500 pessoas dispostas a pagar ingresso, no valor de 50 reais…logo esses valores estao completamente super valorizados

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    Publicado por mario | 16 de julho de 2019, 12:16
  6. Creio que o governo do estado poderia investir sim na cultura do estado, mas com mais lisura e transparência…
    Investir mais nos valores culturais dos interiores

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    Publicado por Udimar Pereira | 17 de julho de 2019, 00:07
  7. Tempos estranhos estes.

    Por outro lado, a iniciativa privada paga trinta mil reais pela palestra mequetrefe do Daltan Dallagnol e ainda dá de gorjeta o passeio no Bach Park para toda a feliz família do palestrante.

    Lendo o conteúdo da dita cuja, lembrei de alguns “coches” picaretas tentando vender palestras motivacionais para RHs de algumas empresas que conheço.

    O interesse pelos cachês dos artistas paraenses tem motivação e interesses claros e condenáveis, agora o interesse pelas palestras do DD eu não entendo.

    Acho que esse tipo de contratação intrigante merece um pouco de reflexão, não?

    Será que o interesse é mesmo na melhora do desempenho dos funcionários das empresas?

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    Publicado por Alonso Lins | 18 de julho de 2019, 07:48

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