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Imprensa

Obrigado

Agradeço a todos que se manifestaram sobre o meu jornalismo e a minha saúde. Muitos deles companheiros de viagem neste blog, em outros blogs, pelo Jornal Pessoal e nos primórdios dessa companhia, mais de meio século atrás. Outros são elos invisíveis, silenciosos, mas ainda assim ativos, de uma corrente de transmissão vital. Há também nomes novos e, por vezes, surpreendentes de uma ciranda que ainda gira em torno da fogueira do saber, do conhecimento, da informação e da utopia. Aliviam minha sensação de solidão e até de loucura, ou desesperança.

Na sucessão de tentativas de parar e retomadas, por vezes mais intensas, muitos devem estar duvidando que eu consiga me libertar da sofreguidão do dia a dia, sobretudo neste momento melancólico – mas desafiador – que o Brasil vive. Amanheci sob vários impactos, que me colocam diante de ondas monumentais, desabando sobre quem não passou de pegador de jacaré na praia de Copacabana ou na maré alta de Salinas. Sempre foi assim: a cada amanhecer o cotidiano me impunha a sua pauta e eu procurava cumpri-la.

Havia coerência e harmonia, ainda que num caos aparente, na época da imprensa em papel – diária, semanal ou de menos frequência. O processo, da busca pela informação até a sua publicação, era mais ponderado, menos frenético, mais solitário, mediado pela escrita metódica. Na era da rede mundial de computadores, a história é vivida numa rotação de segundos. Acompanhá-la se tornou quase impossível, quando ela não atomiza o acompanhante pelas redes sociais – elípticas, superficiais e tendentes ao absurdo ad nauseam, selvagem.

Com mais de 50 anos nessa pisada, consigo ver alguma direção nos fatos que estouram como fogos de artifício na vastidão do universo humano. Pelo tempo de vigência como jornalista, esta é a minha mais útil contribuição. Daí este espaço internáutico diferente, estranho, mas coerente com minhas origens e desenvolvimento, em contraste com estes tempos de ira e ignorância. Os cavaleiros dessa besta-fera me agrediram o  tempo todo. Os seres humanos se harmonizaram ao espaço dedicado ao culto da inteligência, ao debate das ideias, à controvérsia que ensina, ilustra e faz avançar.

Amanheci ainda sob a ressaca da decisão de ontem, disposto a cumprir desta vez a ordem médica e ceder aos apelos das pessoas mais próximas, cuidando da saúde abalada e em deterioração. Mas não posso deixar de chamar a atenção dos meus leitores para dois dos fatos relevantes da véspera.

A desfaçatez do presidente da mais alta corte de justiça do Brasil, Dias Toffoli, na busca de uma razão decente para a decisão monocrática que tomou, ajudando Flávio Bolsonaro – e uma legião de corruptos, venais e cínicos, que começam a sair dos seus esconderijos – a se livrar dos seus crimes, que vão da primária apropriação de vencimentos pagos a assessores a acumulação de patrimônio em conflito com suas rendas.

Arrematando o golpe mais letal dentre tantos que têm sido desferidos ultimamente contra a Operação Lava-Jato (muitos deles camuflados de defesa da democracia, que depende de firulas formalistas na lei para se manter), a Polícia Federal, já sob outro comando e diretriz, se apressa a cumprir o despacho do ministro antes mesmo de ser intimada, mandando todos os seus integrantes da rede da Lava-Jato suspenderem as investigações e mandarem relatórios para orientar a ação do Grande Censor Judicial do Brasil, que retorna ao comando dos de sempre,

Sem precisar responder de imediato aos fatos, com sua exposição, completada pela apresentação do contexto que a ilumina e explica, fui buscar inspiração num livro que li no início dos anos 1990. Na exaustiva busca pela explicação real da razão de ser de um dos mais sangrentos ditadores da história humana, o historiador (e ex-coronel-general do Exército Vermelho) Dimitri Volkogonov, com a maior das autoridades para tratar do tema, mostra que não se tratou apenas de um fenômeno individual desnaturado ou grotesco.

Stálin sou explorar com extrema competência o seu íntimo conhecimento vivencial (e intelectual, pois lia muito e anotava o que lia) do seu povo, com seu caráter passivo, sua atração por líderes fortes (como Pedro, o grande, ou Catarina, ou a dinastia de meio milênio dos Romanov), sua falta de intimidade com a democracia e sua ausência de autonomia, que o leva a depender de gente como o Papá Stálin. Como, por outras características, fez o povo alemão entregar o seu destino a outro tirano do mesmo porte, Adolf Hitler.

Como homem do meu tempo, não vou fugir da raia, embora tenha que dar à saúde (ou à sua falta) a atenção que lhe tenho sonegado. Pretendo voltar ao Jornal Pessoal em agosto, tornando-o mensal. Tenho consciência do quanto é difícil manter uma publicação em papel, por todos os motivos já conhecidos. A tiragem do JP caiu à metade sem que disso tenha resultado venda maior. Claro que a persistência do prejuízo terá que impor o fim definitivo do jornal, o que tentarei impedir, sem fecharf os olhos para a realidade.

Se o leitor continuar a mandar o seu recado para acabar com esse tipo de jornalismo, só me restará ceder aos fatos e procurar um novo rumo, como procuro fazer aqui, ainda meio sem rumo.

Discussão

14 comentários sobre “Obrigado

  1. Boa sorte “Jornalista Necessário”.

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    Publicado por celso.. | 19 de julho de 2019, 11:36
  2. sim, eu preciso falar-te!

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    Publicado por Angela Sales | 19 de julho de 2019, 12:58
  3. Torço muito, estimado jornalista, que essas decisões de ares jurídicos, mas na, verdade, são decisões teratológicas, desse
    pseudoministro, não te desanimem, nem te deflagrem problemas de saúde. Os Toffolis e outros parças despreparados que hoje têm assento na Corte, vão passar, meu amigo. A situação há de melhorar, não há mais espaço pra cultura do mandonismo, muito menos a imposição de ideias ultrapassadas.
    Teu jornalismo sério, coerente, engajado e cheio de conhecimento já mudou gente.

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    Publicado por alce | 19 de julho de 2019, 16:09
  4. Descanse caro Lúcio, saúde em primeiro lugar.

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    Publicado por James | 19 de julho de 2019, 18:53
  5. Lúcio, que ótimo a tua continuação na luta que os verdadeiros democratas enfrentram a cada dia.
    Teu a ânimo se renova e te fortifica nos momentos difíceis pelos quais, passas.
    A decisão citada por ti de autoria do Toffoli é uma excrescência em qualquer universo, seja político, ético, moral, Jurídico …
    Segundo o Diogo Manardi, em “Crusoé”, a decisão do Toffoli beneficia ,dentre tantos outros marginais, a esposa do seu colega, Gilmar Mendes e o escritório da sua mulher.
    Estamos, apesar do constrangedor silêncio da grande imprensa, assistindo inermes a mais deslavada e imoral, destruição da tentativa de se por um fim na terrível destruição, corporificada na Lava Jato.
    Isso se chama de fascismo, nazismo, à escolha de um analista sério como tu.
    Sempre, amigo.
    Ronaldo Passarinho

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    Publicado por Ronaldo Passarinho | 19 de julho de 2019, 19:24
  6. Ânimo, Lúcio. E fé. Saúde e paz.

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    Publicado por Leal Kostav | 19 de julho de 2019, 19:42
  7. Aliás quero me desculpar com vc por alguns comentários mais agressivos e sarcásticos (embora não tenha saído nada de baixo calão), um jornalista como vc, que lutou a vida toda em tantas batalhas, merece muito respeito, torço profundamente pela que a sua saúde seja restabelecida e que vc fique bem… um grande abraço.

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    Publicado por James | 19 de julho de 2019, 22:22

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