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Política

A política no Pará (7)

(Dou continuidade à reprodução dos textos que escrevi em 1982)

A eleição de 1950 marcou a primeira vitória das forças antibaratistas. Foi também a primeira vez que a oposição conseguiu se unir em torno da Coligação democrática Paraense, formada pela UDN, PL, PRT, PSP e PST, acrescidos pelo Movimento de Resistência Democrática e o Movimento Independente.

A oposição recorreu de novo a Zacarias de Assunção, vencido na eleição anterior por Moura Carvalho, com uma diferença de quase 30 mil votos, para disputar o governo, desta vez contra o próprio Magalhães Barata, que era senador. Mas agora toda a oposição trabalhava pelo seu nome. Muitos advogados e políticos foram mobilizados para acompanhar a votação e a apuração no interior e na capital.

Uma intensa mobilização, através de aterros simbólicos de Barata, alegorias críticas, comícios, músicas (ficou famosa a paródia “carnaval da vitória de Assunção”, que dizia: “tá, tá, tá, tá na hora/ va, va, va, vale tudo agora/ sou, sou da oposição/ e viva Zacarias de Assunção”) contagiou Belém.

Essa pregação caiu em terreno propício: sem luz, esburacada e com problemas de alimentação, a cidade se sentia abandonada por Barata e seu PSD. Os antigos e eficientes serviços urbanos, como os bondes, simplesmente deixaram de existir.

Embora a ação ostensiva por todo o interior tenha sido uma das causas do sucesso da oposição, foi a grande votação de Belém que assegurou a vitória de Assunção. Na capital, ele conseguiu quase 39 mil votos contra 22 mil de Barata. Essa diferença, de 17 mil votos, obtida tanto nos bairros centrais quanto nos subúrbios, onde era grande a penetração pessedista, não pôde ser descontada no interior.

De pouco menos de 200 mil eleitores no Estado, 80 mil votaram em Belém. Uma grande parcela do eleitorado se concentrava em um grupo de cidades, que experimentaram um grande incremento demográfico. Essa incipiente urbanização facilitou um pouco o proselitismo oposicionista.

Terminada a apuração normal, Assunção vencia por uma pequena diferença: 93.461 votos contra 93.270 de Barata. Seguiu-se uma demorada, nervosa e desgastante batalha de impugnações, anulações e recursos, que culminou com uma eleição suplementar, da qual participariam dois mil eleitores, decidindo a disputa.

A guerra de nervos sustentada pelos partidos se espalharia por Belém inteira: se sucediam atos de violência e de ameaças entre os adversários. Sob diferentes pretextos e visando vários objetivos, inclusive a interferência sobre a apuração, o PSD trocou sucessivamente os governadores: Alberto Engelhard, que sucedeu Moura Carvalho  (para Moura se candidatar ao Senado), renunciou para assumir o então prefeito de Belém, Waldir Bouhid, trocado por Porfírio Neto, no lugar do qual foi empossado o desembargador Arnaldo Lobo, presidente do Tribunal de Justiça, que, finalmente, entregou o cargo para Abel Figueiredo, presidente da Assembleia legislativa.

Tentando forçar a queda do governo pessedista, o major Maurício Ferreira, da Polícia Militar, comandou uma rebelião da tropa. A sedição foi logo sufocada, mas persistiram conflitos de rua. A Folha do Norte publicou violentos editoriais, estimulando os atos contra o PSD.

Em outubro, o governo federal tomou uma decisão drástica: pela primeira vez no Brasil, tropas do exército foram deslocadas por via aérea de uma região para outra. Seis aviões Douglas passaram seis dias levando 264 praças e 14 oficiais do 19º batalhão de caçadores, sediado na Bahia, para reforçar o policiamento em Belém, praticamente decretando intervenção federal no Estado.

O comandante da 8ª região militar, general Sayão Cardoso, impôs várias medidas: proibição de reunião de mais de quatro ou cinco pessoas nas esquinas, fechamento de bares e botequins às 20 horas e proibição de bebidas alcoólicas a partir das 18 horas.

Essas investidas imobilizaram o governo do Estado e a luta passou a ser travada no TRE: o PSD comandado pelo senador Álvaro Adolfo, trazido às pressas do Rio de Janeiro, e os “bacharéis” da UDN do outro lado. Estes acabaram ganhando: com as suplementares, a diferença pró-Assunção subiu para 582 votos.

Já no Rio de Janeiro, depois de desistir de recursos para anular a eleição, Barata atribuiu sua derrota à interferência do comandante da 8ª RM em favor da coligação. “Bem fácil é avaliar-se o que representam, nas províncias, as simpatias dos chefes militares por partidos ou candidatos”. Barata revelou ter denunciado o “facciosismo” do general Sayão “às altas autoridades da república”, mas que, “por este ou aquele motivo, não foram tomadas providências”. Reconheceu que a união dos oposicionistas foi outro fator de influência, acusando ainda os comunistas de terem trabalhado para a CDP.

Apesar da derrota na disputa para o governo e o Senado (com a eleição de Prisco dos santos), o PSD elegeu 43 dos 57 prefeitos municipais, 5 dos 9 deputados federais e 18 dos 37 deputados estaduais (outros nove da UDN, sete do PSP e um do PTB, “sendo um comunista confesso”, segundo a queixa de Barata.

Discussão

3 comentários sobre “A política no Pará (7)

  1. Não só isso. Eu ouvia dos adultos que o governo do Moura Carvalho foi péssimo em tudo, teve até atraso no pagamento do funcionalismo; falta de uniformes para os policiais militares e os guardas-civis, etc. etc. Não sei se era verdade, pois não quis conferir

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    Publicado por Alcides | 20 de julho de 2019, 17:45
    • O Moura foi muito fraco, sim. Eu o conheci no gabinete do Romulo Maiorana, que tinha por ele grande apreço. Era uma pessoa muito agradável e simpática, mas a política o desviou do caminho certo. Um companheiro dele de farda, do exército, que chegou a tenente-coronel, me mostrou certa vez uma carta que escreveu a Moura, ele no auge do poder político. Lembrou dos “bonss tempos” em que empurravam um jipe do exército atolado na lama – e outras coisas mais que contrastavam com o Moura no poder.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 20 de julho de 2019, 18:12
  2. A paródia carnavalesca foi ressuscitada em uma outra campanha eleitoral de Assunção, qdo ele disputou o governo do Estado com Alacid Nunes. Assunção agora era aliado de seus antigos adversários peessedistas.

    Num claro recado a Jarbas Passarinho (ainda não rompido com Alacid), a paródia dizia:

    “Tá, tá, tá, tá na hora / bota o bicho na gaiola / sou, sou, sou da oposição / e viva Zacarias de Assunção”.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 22 de julho de 2019, 15:26

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