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Desmatamento, Ecologia, Queimadas

Brasil verde

“Em tempos de obscurantismo” afloraram a Arminio Fraga, economista e ex-presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique Cardoso, “sentimentos que vão da indignação à profunda solidariedade. São emoções que alimentam a resistência. O estresse ativa defesas que nos levam a sonhar, ora como fuga, ora como projeto”. Foi Neste espírito, que ele disse ter escrito sua coluna dominical na Folha de S. Paulo de hoje. Reproduzo-a para que os amazônidas reflitam sobre o grau da questão ecológica, que volta ao topo da agenda mundial, com a Amazônia novamente prioritária.

O que parecia radicalismo e utopia, se tornou desafio concreto e pragmático: como parar o desmatamento e as queimadas e substituir essas práticas destrutivas por atividades sustentáveis e de valor social, mas também econômicas. O que antes ainda estava em causa (a autonomia do problema ecológico), agora é pressuposto. Quem não aceitar a premissa, levará a região, o país e o mundo ao colapso.

Imaginem um país onde as praias, lagoas e rios são limpos. Onde todos têm acesso a esgoto e água corrente. Onde o ar que se respira é puro. Onde os alimentos são saudáveis. Onde a natureza é preservada e apreciada. Que tal? Um país assim melhoraria nossa saúde, qualidade de vida e autoestima, atrairia muito mais turismo, de maior poder aquisitivo, e viabilizaria a abertura de mais e melhores mercados para exportações.

A Costa Rica e a Nova Zelândia são exemplos de que, em tese, se trata de um futuro a nosso alcance. Uma forma de mobilizar apoios e coordenar ações nessa direção seria a criação de um projeto intitulado Brasil Verde, que definisse como metas os sonhos listados acima. Para que elas fossem atingidas, a cada uma estariam associadas planos de ação.

Uma primeira meta deveria ser desmatamento negativo, ou seja, parar de desmatar e ao mesmo tempo recuperar áreas desmatadas e abandonadas. Esta é a proposta dos respeitados cientistas Thomas Lovejoy e Carlos Nobre e de especialistas como Tasso Azevedo e Beto Veríssimo. Eles avaliam que há risco relevante de a Amazônia atingir um ponto sem retorno (um “tipping point”): a partir de um certo grau de desmatamento, a floresta perde sua capacidade de regeneração. As consequências de tal evento seriam catastróficas para o clima do Brasil e do mundo. Desapareceriam os famosos rios voadores que irrigam a produção agrícola mais ao sul e haveria perda de biodiversidade, com seu imenso potencial inexplorado. A floresta precisa ficar de pé.

Vale lembrar aqui que estudos econômicos coordenados por Juliano Assunção da Climate Policy Initiative demonstram que a produção da agropecuária brasileira tem imenso espaço para crescer sem derrubar uma árvore mais sequer, apenas reaproveitando áreas degradadas ou subutilizadas. Logo não há qualquer vantagem para a sociedade como um todo em seguir desmatando.

Há quem imagine que em algum momento o resto do mundo nos pagará pela função de reserva ambiental do planeta. Melhor esperarmos sentados. Como a emergência já está próxima, é de nosso interesse agirmos logo, por conta própria. Se assim o fizermos, além de cuidar de nossa própria qualidade de vida, estaremos ocupando uma posição de liderança iluminada no contexto internacional, que nos traria preciosos respeito e poder de natureza “soft”.

Uma segunda meta seria a despoluição de nossas águas. Banho de mar sem língua de esgoto, pesca e lazer nos rios, menor incidência de toda sorte de doença recomendam uma blitz no front do saneamento, hoje uma vergonha, carente há décadas de uma resposta competente. Os ganhos em termos de saúde e bem-estar seriam enormes, muito maiores do que os custos.

No campo dos alimentos estaria a terceira meta. Aqui há grande espaço para queimarmos etapas. O mundo caminha cada vez mais para produtos saudáveis, não processados, que eliminem ou pelo menos minimizem os riscos de contato com agrotóxicos, antibióticos e hormônios. O Brasil pouco acordou para essa tendência, parecendo caminhar na direção oposta. Todo cuidado é pouco. Cabe uma guinada radical, o quanto antes, melhor.

Caberia falar também de poluição atmosférica, energia limpa, poluição sonora. Brasil Verde poderia virar uma marca de qualidade, que seria a nossa cara.

Esse sonho pode ser transformado em realidade. Mas quando? A tempo?

ALGUNS COMENTÁRIOS

Carlos Rogério de Mello

Ok sonhador; e de onde virão os recursos? Tenho uma sugestão: que tal extrairmos algo do setor monetário que o senhor tão bem representa? Como só banco consegue lucrar ao ritmo de bilhões no Brasil eles e sua banca poderiam muito bem financiar tais projetos. O que acha? Duvido que aceite.

João José de Matos

Claro que com esta tamanha inteligência Arminio já sabia disto há muitos anos e, possivelmente, tentou fazer algo, mas foi-lhe impossibilitado. Agora, sem amarras do Governo e do Ministro do meio ambiente poderá nos ajudar na economia que resultará das suas sábias intervenções e poderemos somar esforços.

Vladimir Micheletti

Quanta tolice! Nossa elite é uma m.

EVERALDO PIRES MARTINS

Lamentável melhor que continue escrevendo e falando sobre economia.

Adonay Evans

Como sempre, de Armínio, um banho de sensatez. Prá começo de conversa, para os que sonham com exploração sem critério da Amazônia, como o presidente Bolsonaro e o general Heleno, não há Uma Amazônia. Mas infinitas. Um antigo professor meu de Ciência dos Solos, dizia que nunca havia visto nada igual. Aqui uma mancha de terra de alta fertilidade, a poucos metros, areia pura. Receita para deserto. Melhor explorar o Saara, mon capitan e mon general.

Discussão

8 comentários sobre “Brasil verde

  1. “O ser humano é a Natureza condensada, sendo a ciência e a arte suas refinadas linguagens e a inteligência seu mais sublime subproduto” (L.Mário).

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    Publicado por Luiz Mário | 28 de julho de 2019, 11:56
  2. Armínio teve um surto de brasilidade. Deveria ter pensado assim quando esteve no poder. Mas que bom que ele mudou de idéia.

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    Publicado por Pedro Pinto | 28 de julho de 2019, 14:37
  3. Coisas pontuais não trarão solução. Nossa sociedade, a humanidade, está em declínio; vivenciamos uma inversão de valores! As virtudes são desprezadas, então a competição individualista, separatista e a ignorância se destacam!
    Vamos valorizar a educação em todas as suas vertentes, pois só assim haverá transformação para melhor!

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    Publicado por Joana Souto | 28 de julho de 2019, 15:44
  4. A universal crise estrutural capitalista faz com que a falida retórica retorne com toda força, como cortina de fumaça, para tentar escamotear que a humanidade é vilipendiada com Natureza.

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    Publicado por Luiz Mário | 28 de julho de 2019, 20:28
  5. Sugestão:

    “Mataram muito feito e estamos pedindo socorro”, relata cacique Viseni; Funai e demais autoridades ainda não se manifestaram ou prestaram socorro

    https://jornalggn.com.br/justica/garimpeiros-invadem-terra-wajapi-no-amapa-e-matam-lideranca-a-facadas/

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    Publicado por Luiz Mário | 28 de julho de 2019, 20:33
  6. é dissimulação característica das gentes brasileiras, no seu quadro mais decadente!

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    Publicado por felipe puxirum | 29 de julho de 2019, 10:34
  7. Fico conjuminando, prezado jornalista, como realmente foi a conquista do oeste americano. Como chegaram as famílias pioneiras? Como as diligências, cheias de colonos dispostos a abrir estradas, subiram as Montanhas Rochosas, naquela época, íngremes e inóspitas? Desmataram? Modificaram a paisagem? Que tipo de financiamento tiveram? O Sr. Armínio Fraga, em outras elucubrações futuras, deve se fazer essas indagações sobre a derrubada insana da floresta amazônica. Que o seu grupo, sempre rico e com grandes projetos de baixo impacto ambiental, implemente o desenvolvimento sustentável, tão falado mas de pouca prática. Daqui a pouco, vou passar por um município cujas ruas/estradas são poeirentas e esburacadas, mas, está, paradoxalmente, numa clareira da floresta. É preciso urgência, pessoal.

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    Publicado por alce | 1 de agosto de 2019, 22:02
  8. Tem duas coisas que podem ser feitas: uma é cobrar dos outros, a outra é por a mão na massa, aqui, agora, pelo menos como consumidor consciente. Isto tem um poder inimaginável! Se o consumidor quer este produto, e luta por isto, o agricultor produz, pronto e acabou. Agora o consumidor, de rico a pobre, não imagina a importância que ele tem. A palavra em questão é sacrifício, em qualquer significado do termo. Não tem outro caminho que não seja paralelo a este.

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    Publicado por Paulo | 11 de agosto de 2019, 12:17

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