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Energia, Grandes Projetos, Hidrelétricas, Justiça, Polícia, Violência

Mais sangue

No dia, 17 de julho, a Norte Energia acionou a 14ª turbina da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, tornando-a a maior usina inteiramente nacional do Brasil e a terceira maior do mundo. Será capaz de suprir as necessidades de 60 milhões de consumidores (30% da população brasileira) quando toda sua potência, de 18 máquinas, for atingida, até o final do ano.

Menos de duas semanas depois, a guerra entre as duas organizações que disputam o controle do crime organizado no Brasil, o PCC e o Comando Vermelho, resultou num dos maiores massacres na história penitenciária do país. Foram executados 58 detentos, carbonizados ou decapitados, no interior da penitenciária de Altamira, a principal cidade da região, que fica a 50 quilômetros da gigantesca hidrelétrica.

O presídio abriga mais do dobro da sua capacidade. A superlotação, fenômeno nacional no sistema, foi apontada como um dos fatores que proporcionou a matança. Ela não seria consumada se a nova penitenciária já estivesse concluída.

A obra é um dos compromissos que a Norte Energia assumiu como contrapartida e compensação pela aprovação da usina, que enfrentou forte resistência do Ministério Público Federal, de ambientalistas, defensores dos direitos sociais e de parte da população. A empresa foi criticada e denunciada pelo atraso no cronograma da construção do presídio.

Três dias depois do massacre, ampliado pelo assassinato de mais quatro detentos no interior do veículo da polícia que os transportava para Belém, por outros prisioneiros, que também estavam no caminhão, a Norte Energia distribuiu uma nota para “refutar qualquer indução ao entendimento de que a construção de um novo presídio”, seria “motivadora de um massacre cujas causas são complexas e conjunturais”.

A concessionária rejeitou “com veemência qualquer intenção de atribuir responsabilidade” à “maior usina hidrelétrica totalmente brasileira, por problemas de ordem conjuntural, e novamente afetar a imagem e os benefícios gerados pelo empreendimento para Altamira, para a região, e para o país”.

Na nota, a empresa citou as benfeitorias que possibilitou, “como o controle da malária e a evolução da qualidade de vida de famílias que saíram de palafitas para residir em casas construídas em bairros com pavimentação asfáltica, saneamento, escolas, unidades de saúde e áreas de lazer”.

De fato, o novo presídio já poderia estar em funcionamento e, ainda assim, talvez não impedisse a chacina, que se repete em vários Estados, a partir das sedes dos dois grupos rivais, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O atraso do cronograma, porém, é tanto um sintoma da distorção nas prioridades do governo (e da empresa) quanto do grave incremento da violência em Altamira.

Por causa das obras da usina, que provocaram o acelerado crescimento da população local, com a chegada de 50 mil migrantes no período das obras, aumentando em 50% a sua população, sem o correspondente atendimento das novas necessidades sociais e humanas, Altamira se tornou a segunda mais violenta cidade brasileira. Para este resultado negativo contribuiu decisivamente o despreparo da administração pública municipal, que agravou os erros e distorções do modelo dos “grandes projetos” implantados para transformar a Amazônia numa fonte de dólares para o país e de vantagens para seu núcleo dominante, no sul/sudeste.

O espantoso e chocante morticínio, mais um evento dramático na história recente da maior fronteira do Brasil, das maiores do mundo, não se deve diretamente à falta de um novo presídio, que desafogasse a superlotação do único em uso, mas pode ser entendido como mais um sinal de alerta, dos mais sangrentos.

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