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Índios, Educação, Grandes Projetos, Hidrelétricas, Polícia, Violência

Megausina, mega massacre

(Para incrementar o necessário debate, uma visão crítica: o artigo Belo Monte e o massacre no presídio de Altamira, de André Aroeira, publicado no blog Esquerda Democrática.)

Já contei aqui várias vezes como funciona a dinâmica de ocupação de áreas adjacentes a grandes obras na Amazônia brasileira: uma massa de homens sem rumo atraídos por um punhado de vagas fazem explodir a pressão sobre equipamentos e serviços públicos, levando a invasões de terras públicas, proliferação de criminalidade, prostituição, inflação, especulação imobiliária, por aí vai.

Mais de 50 mil homens migraram para Altamira com a promessa de alguns milhares de empregos precários na construção de Belo Monte. Uma cidade média que aumentou em 50% a sua população em um par de anos – e só com peão de obra pesada.

Tudo isso é, ou deveria ser, previsto, avaliado e mitigado pelo licenciamento ambiental, que basicamente trata de mitigar e/ou compensar os impactos ambientais e sociais negativos.

Mas incontáveis vezes eu também já contei aqui, no The Intercept Brasil e no IHU Online, que o licenciamento de Belo Monte é um grande tratado de como fraudar estudos e procedimentos socioambientais.

Por decisão deliberada do governo Dilma, o licenciamento foi feito na porrada. Impactos foram sumariamente ocultados e subdimensionados. Os que sobraram depois de muito sofrimento foram adulterados, esquecidos, contestados na justiça, empurrados com a barriga. O governo federal foi parte fundamental na fraude enquanto idealizador, financiador, fiscalizador e licenciador.

Como Dilma disse aos microfones algumas vezes, a prioridade em Belo Monte era fazer tudo no menor horizonte temporal possível.

Um dos programas da lista de condicionantes era o fortalecimento da segurança pública na cidade pela construção de presídio e delegacia e pelo fortalecimento da estrutura de segurança pública da cidade que recebeu dezenas de milhares homens com vagas de emprego suficientes para cerca de 20% deles.

Em 2015, um ano antes da concorrida inauguração da usina, Altamira chegou ao óbvio posto de cidade mais violenta do Brasil, com 5 vezes mais homicídios que RJ e 10 vezes o número de SP. A cidade ganhou uma facção própria, o CCA [Comando Classe A] – que, ao que parece, comandou o motim nesta segunda-feira –, para dar conta das oportunidades de crimes. Nada que abalasse o descaso e o ritmo lento com que a Norte Energia tocava todas as condicionantes da obra, de índios a saneamento, respaldada pelo governo.

A licença definitiva foi dada pelo staff de Dilma mesmo sem o cumprimento de inúmeras condicionantes que, como indica a língua portuguesa, deveriam condicionar a operação do empreendimento. Estamos em 2019 e o Complexo Penitenciário de Vitória do Xingu, que deveria desafogar o sistema prisional da região antes do início das obras, no auge das ondas migratórias, não foi finalizado. A Norte Energia segue o protocolo de sempre: notas oficiais dizendo blá-blá-blá.

Com a criminalidade em níveis insuportáveis há 5 anos e ninguém capaz de cobrar condicionantes de um empreendimento com todas as licenças, não é de se estranhar que um Centro de Recuperação Regional muito sobrecarregado tenha virado um barril de pólvora e escrito mais um triste capítulo de massacres no rastro da construção da maldita hidrelétrica do Xingu.

Discussão

2 comentários sobre “Megausina, mega massacre

  1. Interessante a recorrência das “barbáries” nos mega empreendimentos da Amazônia.

    O atual, em Altamira, ceifando vidas e expondo mais uma facção endógena amazônica…

    O anterior, foi no episódio da rebelião dos barrageiros que incendiaram ônibus e alojamentos no campo da Usina de Jirau em Rondônia….

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 5 de agosto de 2019, 12:02
  2. A ditadura feriu de morte a Região com a Transamazônica, a maior experiência de atentados com o ambiente e ser humano, até então perpetrado contra o Pará.
    Depois veio o desastre de Tucuruí, tudo para atender a demanda de energia da então Vale do Rio Doce, Albras, Alcoa e Alunorte, entre outras que não me ocorrem agora, mas que LFP denunciou em sua vida jornalística.
    Não bastara a Belém\Brasília, que inaugurou a devastação orquestrada e a migração redentora das Regiões Nordestinas mais miseráveis, e a migração dos pioneiros em devastação, trazendo a pecuária ao lugar da floresta, transformada em capinzal. Outros projetos teriam que vir para resolver problemas do Brasil, sem se pensar nos nossos e nos que seriam criados.
    Agora temos os 4 municípios mais violentos do Brasil, talvez do mundo, e temos que engolir isso nos noticiários que não fazem nenhuma ressalva a nosso favor.
    Resolvemos problemas da Matriz e ficamos com a pecha de terra sem lei, refúgio de bandidos.

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    Publicado por Jab | 6 de agosto de 2019, 21:31

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