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Estrangeiros, Militares, Multinacionais, Política

O demônio ao meio-dia

A “linha dura” era a ala mais radical do Exército. Foi a mais ativa na execução do golpe militar de 1964. Desceu dos quartéis para as ruas, combateu, bateu, matou, às vezes em nome da pátria, às vezes tomando em vão o nome de Deus. Os generais disputavam o poder como numa partida de xadrez, na sede do Ministério da Guerra (substituído na redemocratização pelo débil ministério da Defesa, entregue, nos governos do PT, à esquerda colaboradora).

Num andar, os “sorbonianos” (encastelados na Escola Superior de Guerra) e “castellistas” (do marechal Castelo Branco), que acabaram ganhando. Em outro andar do prédio, os “duros”, que, pelo menos, conseguiram manter no ministério o general Costa e Silva. Em seguida, colocaram-no no poder, contra a ardorosa intenção d Castello de livrar o Brasil dele. Foi triturado.

A “linha dura” era – e continua sendo – nacionalista, o que deve servir de advertência para os nacionalistas de catecismo, que veem o mundo pela bitola dos dogma. Assumiram a propriedade intelectual da Amazônia, produzindo teorias geopolíticas, centradas na cobiça internacional dos países poderosos, desjosos de retirar a Amazônia do Brasil, conforme o capítulo regional da doutrina de segurança nacional e seu braço executivo, o II PDA (Plano Nacional de Desenvolvimento da Amazônia, 1975-79).

O ideólogo dessa fabulação era o grande historiador amazonense Arthur Cezar Reis, cuja carreira, até assumir o governo do seu Estado, logo depois da supressão dos políticos populistas locais, reforça a convicção de que o escaninho cativo do intelectual é o exercício da razão e não do poder, que costuma transformá-lo em tirano, a exemplo de Lênin, Trótski e Stálin na revolução bolchevique na Rússia).

O primeiro combate a um foco de ameaça à soberania nacional foi a compra de terras por estrangeiros, que resultou numa CPI na Câmara Fedral, tendo como relator o brigadeiro e deputado federal pelo partido do governo, a Arena, no Pará, o  ultradireitista) Haroldo Veloso.  Por vários depoimentos, a Amazônia já fora internacionalizada. No entanto, boa parte das transações eram de terras de Goiás e a maioria dos agentes eram meros grileiros e especuladores oportunistas. A gritaria, porém, levou o governo Costa e Silva a adotar uma drástica lei para limitar a formação de propriedades rurais por estrangeiros. Não sem alguma razão: o milionário Daniel Ludwig pretendia ocupar 3,6 milhões de hectares na divisa entre o Pará e o Amapá (afinal, reduzida a “apenas” 1,6 milhão). Mas era um caso extremo – e solitário.

Depois, a cobiça era não mais para a formação de capital fundiário, mas sobre a madeira. Estrangeiros – de ´início japoneses, depois malaios – estavam se tornando donos de extensas florestas. Novo grito ecoou: a Malásia chegou! Não chegou, no entanto.

Tantas advertências têm sido feitas nesses 60 anos, uma das maiores prenunciando a invasão da Amazônia pelos marines americanos através da Guiana e se utilizando do Sivam, realizado pela americana Raytheon, depois de conturbadas histórias de favorecimento e corrupção.

Reproduzo a seguir um texto que acabo de postar em outro blog, o Amazônia Hoje (uma tentativa de enciplopédia da Amazônia contemporânea), que, lida, deveria levar o cidadão a se convencer de que só há boa teoria se ela for irrigada com fatos suficientes para aproximá-la ao máximo da realidade – e, como consequência da verdade. Há muita teoria para poucos fatos, em geral, com escassez de informações ou informações falsas ou interpretaçõs equívocas dos fatos. Daí a importância da batalha pela informação bem checada e a teoria atrelada a uma sólida e rica base factual.

É a única maneira de não seguir como integrante de manada ou não ir além da boa intenção, que, em abstrato e superficial, pode levar não ao nirvana da verdade, mas ao inferno.

As madeireiras em 1968

Em artigo publicado no jornal Folha do Norte, de Belém, em agosto de 1968, o engenheiro agrônomo Humberto Marinho Koury apresentou dados sobre as relações desfavoráveis no comércio exterior enfrentadas pela atividade madeireira amazônica.

Argumentou que a tora de mogno (ou “aguano”), “uma das espécies florestais mais importantes do Estado do Pará e uma das madeiras mais luxuosas do mundo”, estava sendo vendida por 100 dólares o metro cúbico para o exterior.

Os compradores desdobravam a tora em lâminas muito delgadas, vendendo cada metro quadrado a US$ 3. Esse rendimento permitia que o metro cúbico da madeira laminada pudesse alcançar US$ 14 mil o metro cúbico.

Como para cada metro cúbico de madeira laminada são necessários de dois a três m3 de madeira bruta, para um custo máximo de US$ 300, obtinha-se um rendimento de US$ 14 mil.

A situação se aplicava à comercialização de outra madeira valiosa que o Pará exportava, a virola ou ucuúba. Saíam anualmente de 4 milhões a 6 milhões de pés quadrados de ucuúba do Pará, por aquisição de empresas estrangeiras, como a Georgia Pacific Corporation, a Lumquar Limited e a Bruynzeel Suriname Houtmaatschappy.

 

Discussão

4 comentários sobre “O demônio ao meio-dia

  1. de golpe em golpe, a ditadura do capital e do mercado manda no mundo!

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    Publicado por felipe puxirum | 23 de agosto de 2019, 13:44
  2. E o “bunda-suja” esfrega excremento na cara do País para o mundo ver.

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    Publicado por Luiz Mário | 24 de agosto de 2019, 20:17
  3. Obrigado pela aula, onde a parte pertencente a história, é apenas parte do ensinamento. parabéns pelo encadeamento das idéias e a ligação com a doutrina militar de 1964, que nos parece, apenas dormitava esperando uma chance de ressuscitar.

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    Publicado por Arlindo carvalho | 24 de agosto de 2019, 21:15

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