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Cultura, Imprensa

No jardim do Quirinal

Um homem com luvas brancas, vestindo um traje a rigor, estende a mão para ajeitar o microfone usado por Giuseppe Conte, que discursa antes de tomar posse – de novo – como primeiro ministro da Itália. Vê-se, quando o homem se aproxima mais da câmera que registra a cena, o quanto ele é alto, de porte atlético e de boa estampa. É funcionário do palácio do Quirinal, em Roma, onde acontece a reunião.

Só homens com mais de 1,90 de altura podem trabalhar na sede e moradia do presidente da república. Não surpreende que os visitantes se impressionem pelo detalhe. Mas há outros, mais significativos e consistentes, no velho palácio, no alto do monte que lhe empresta o nome, inaugurado em 1583, como residência de verão do papa.

Seus imensos e maravilhosos jardins, ocupando área de 4 hectares (ou 40 mil metros quadrados), ordinariamente somente abrem-se à visitação pública duas vezes por ano. Mesmo o palácio só recebe visitantes num horário restrito nos domingos. O que é uma pena. Do teto de uma das maioressalas pende o maior lustre do mundo, destacado pelos inefáveis guias de viagem.

Considero-me um privilegiado em mais este item na minha relação com Roma. Fui ao palácio, visitei os jardins, percorri suas salas suntuosas e fui recebido pelo presidente Oscar Luigi Scalfaro, então com 79 anos (morreria em 2012, aos 93). O Archivio Disarmo conseguiu a audiência privada com os quatro ganhadores do prêmio Colombe d’Oro per la Pace de 1997. Eu era um deles, o primeiro não europeu a receber a honraria, valiosa (uma escultura banhada em ouro) para quem defende os direitos humanos e para quem é jornalista.

O encontro deveria durar 15 minutos, mas se estendeu por 45. O excesso começou quando lembrei ao simpático e atencioso presidente (que fora magistrado) um detalhe: um juiz de futebol de São Paulo também se chamava Oscar Scalfaro (ou era o que a minha memória me soprava). Ele riu e se interessou por saber a razão da minha premiação. Quando soube, me aconselhou a continuar o meu jornalismo, mas não ser tão impetuoso, para não sofrer tantas represálias (por que essa voz sábia se torna inaudível ao meu ouvido?).

Essa foi a última das minhas viagens à amada Itália, a mais emocionante, por essa e por outras circunstâncias, que se tornaram inesquecível e me vêm quando detalhes meteóricos iluminam o céu da minha boa lembrança.

Discussão

4 comentários sobre “No jardim do Quirinal

  1. É com enorme prazer que leio esse post. Como sabes, adoro viajar e fotografar, então tenho algumas histórias de viagem, mas nenhuma como essa! Fantástica.
    Outra que adorei ouvir foi a que me contaste sobre o Museu Van Gogh.

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    Publicado por Cristina Gemaque | 8 de setembro de 2019, 15:01
  2. Lúcio, um detalhe importante. O tal árbitro de futebol era Oscar Scolfaro.

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    Publicado por Pedro Pinto | 8 de setembro de 2019, 20:53

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