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Cultura

Entre poetas

Triádicos – Poesia em pequenos formatos (Valer Editora, Manaus, 112 páginas) é um dos mais bonitos e valiosos lançamentos deste 2019 que já avança para o seu último trimestre. Capa linda, bela formulação gráfica, ilustrações inspiradas – tudo com o toque diferenciador do bom gosto e da sensibilidade artística. Um artefato próprio para abrigar o que talvez seja a melhor obra do poeta João de Jesus Paes Loureiro.

Aos 80 anos, ele voltou 800 no tempo para se inspirar na terza rima, inventada, no momento mais importante na história da poesia mundial, por Dante Alighieri, que trocou o latim pelo italiano e sepultou a Idade Média num ajuste de contas com sua época, abrindo as janelas para o renascimento.

Em tercetos como nunca houve igual, tanto pela abundância de versos quanto por sua genialidade, que tornou impossível traduzi-lo fielmente para qualquer outra língua. O melhor tradutor sempre acabou como traidor, numa eloquência negativa que só a sonoridade da consoante italiana possibilita.

Abandonando a discursividade trovadoresca, que assinala boa parte da sua criação, Jesus usou o terceto para deixar a sua mensagem poética, revendo a sua vida e o que fez, no alto da plena maturidade, combinando a tradição, própria dos seus 80 anos, com a fecundidade criativa.

Um presente maravilhoso, que acabo de receber, acompanhado por um também precioso caderno de notas que Violeta, sua mulher, trouxe para mim de Londres. Calendário tão peculiar que a editora Calendário de Letras (estabelecida do outro lado do Porto, em Vila Nova de Gaia, na – bem apropriada – rua Latino Coelho) chama de livro, com o elítico desenho de Fernando Pessoa na capa a apor o sinete de confirmação do título.

Agradecendo aos amigos pela gentileza e trazendo os leitores para esta reunião de letras, reproduzo o terceto que mais me toca na Divina Comédia, o último do Canto V (mesmo quem não entende o italiano, lendo em voz alta, entenderá):

     Mentre che l’uno spirto questo disse,
l’altro piangëa; sì che di pietade
io venni men così com’ io morisse.

 

     E caddi come corpo morto cade.

Discussão

Um comentário sobre “Entre poetas

  1. Parabéns ao professor Paes Loureiro!

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    Publicado por Marilene Pantoja | 15 de setembro de 2019, 18:52

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