//
você está lendo...
Memória

Minha amiga Margarida

Fiz jornais amadores desde que me entendo por gente. Os dois últimos antes da minha profissionalização, em 1966, aos 16 anos, foram, pela sequência, O Combate e O Social, que eu escrevia sozinho.  O primeiro, ao ingressar no curso secundário (o atual ensino médio; no meu caso, o clássico), ingenuamente politizado, era impresso em mimeógrafo a álcool. O segundo, um passo à frente nesse avanço arqueológico, a tinta.

Em pleno sábado, Alonso, funcionário da UFPA, ia para o curso de Letras, na praça do ferro de engomar (vulgo Janary Nunes), só para fazer esse serviço. A pedido do diretor, o cônego Ápio Campos, que endossou a aventura jornalística, cedendo a máquina e o solícito e maravilhoso técnico. Eram seis páginas do tipo A-4, com 100 exemplares, devidamente grampeados, que eu, correndo, distribuía imediatamente.

Durante uma folia de Momo, escrevi uma coluna social, noticiando o desempenho das meninas que participavam conosco do Clube de Jovens da paróquia da Trindade, dirigido pelo padre Carlos Coimbra, do qual fui presidente entre 1965/66. Disse que uma das foliãs mais destacadas era a Margarida Nassar. Estava fantasiada de Cleópatra. Poderia ter terminado o texto aí. Mas não resisti a uma pitada de veneno: à indumentária faltava apenas agregar uma placa, dizendo que se tratava mesmo de Cleópatra. Margarida estava um tanto gordinha na época.

Ela não gostou, evidentemente. Simulamos uma briguinha e logo voltamos à mesma boa relação de sempre. O que não nos faltava era dar valor à amizade e espírito esportivo, abre-alas de um humor sadio, que fazia rir de verdade. Inclusive de si mesmo.

Reencontrei hoje Margarida no supermercado. Não a via há muitos anos. Abraçamo-nos, como se o tempo não tivesse demorado tanto a passar, nos colocando em vias paralelas. Percebemos no olhar o quanto nossa amizade é antiga e boa. Depois seguimos nossos caminhos divergentes.

Na verdade, deveríamos ter suspendido as obrigações do dia e sentado no restaurante do supermercado para curtir melhor o reencontro e trocar notícias sobre aqueles jovens que se reuniram no salão paroquial da Trindade para atividades culturais nas tardes de sábado (Ápio foi um dos palestrantes) e a festinha na manhãs de domingo (com o concurso de dança, que eu e a Eliaci, minha irmã, chegamos a ganhar, ela exímia dançarina; eu, seu compenetrado partner).

Lembro de uma festa na casa da Margarida e da Lígia, a irmã mais nova (o Emanuel, o artista da família, ao que me lembre, não se interessava pelo clube). Lá estava Soninha, por quem eu me derretia. Com ela, Sandra, sua irmã, que, de grande porte, contrastava quando comparada à irmã pequenina, como uma joia mimosa.

Finalmente, ela dançou comigo, deixou que eu baixasse sua mão e, cumprido o ritual, encostasse o meu rosto ao dela, respeitosamente, mas com carinho. Num intervalo da dança, comecei a me sentir mal. Dona Lígia, a matriarca e uma das patronesses da paróquia, percebeu o meu estado. Estava ardendo em febre. Me mandou para casa.

Fui para o meu quarto. Delirando, vi no travesseiro um bicho enorme e selvagem, e atirei-o para longe da cama. Quando mamãe entrou no quarto, atraída pelo barulho, eu estava escondido no banheiro, temendo enfrentar a fera. Maternalmente, me trouxe para a cama, me deu remédio e esperou até que o sono fosse alimentando pelo sonho calmo da felicidade que a febre encerrara drasticamente.

Nunca mais me aproximei da bela Soninha. Era assim que éramos, cavalheiros, sonhadores, tímidos e desastrados, não é mesmo, Margarida, querida amiga?

Discussão

4 comentários sobre “Minha amiga Margarida

  1. Estimado Lúcio. Que delícia de lembranças, contadas com a própria delicadeza de homens forjados naquela época de educação, ternura, e muito respeito. Confesso que foram muitas as lembranças que me vieram à mente, embora tenhamos uma diferença de idade de seis anos, o que era muito naqueles 60’s. Forte abraço

    Curtir

    Publicado por José Maria Souza | 20 de setembro de 2019, 19:37
  2. Você também escreveu o Editorial do primeiro numero do jornal ” Alvorada” das alunas do curso de Serviço Social da UFPA , no ano de 1977 . Lembra disso ?

    Curtir

    Publicado por Marly Silva | 21 de setembro de 2019, 17:27

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: