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Economia, Estrangeiros, Governo, Grandes Projetos, Minério, Multinacionais

O invisível

O novo – e maior – ciclo econômico da Amazônia, o dos minérios, completou 40 anos no mês passado. Começou no dia 13 de agosto de 1979, quando o navio Cape Race desatracou do porto privativo da mineradora, no extremo oeste do Pará, a mil quilômetros de distância do mar, na região central da Amazônia brasileira. O cargueiro levou 21 mil toneladas para o Canadá, destinadas à Alcan, uma das “seis irmãs” do cartel internacional do alumínio.

A capacidade de produção era de 3,3 milhões de toneladas por ano de bauxita, o minério do alumínio. Hoje, é quase seis vezes maior: 18 milhões de toneladas. Em 40 anos, a Mineração Rio do Norte (MRN) embarcou quase 450 milhões de toneladas. Dá uma média de 10 milhões de toneladas por ano. Ao preço atual, de 30 dólares a tonelada, significa uma receita de 12,5 bilhões de dólares (ou 50 bilhões de reais). É quase o dobro de todo o orçamento do Pará deste ano.

A mineração é responsável por 85% das exportações do Estado, que se tornou o quinto maior exportador do Brasil, o terceiro em saldo de divisas e o maior minerador do país, desbancando Minas Gerais de uma hegemonia de três séculos. O Pará é um produtor de grandeza mundial de minério de ferro, manganês, níquel, cobre, ouro, caulim – além da bauxita.

Essa corrida começou logo depois da Segunda Guerra Mundial. Com boa informação de campo, o império que nasceu desse morticínio, sem igual na história humana, deixou de lado a busca de petróleo. Apesar de possuir a maior bacia sedimentar do planeta, o petróleo amazônico era alvo para iniciativas posteriores. Hoje, é o maior produtor de óleo no continente, mas muito abaixo do que emerge no mar.

O objetivo imediato eram os minérios, que deveriam estar nas terras altas, geologicamente as mais antigas, do pré-cambriano. Acima de tudo, manganês. A poderosa siderurgia dos Estados Unidos dependia do suprimento da África, distante, incerto e politicamente instável. A Amazônia estava muito mais perto.

A Bethlehem Steel, segunda maior siderúrgica, encontrou ótimo manganês no Amapá, na metade dos anos 1950. A líder do setor, a United States Steel, descobriu em Carajás o minério de ferro mais rico do planeta, na década seguinte. A canadense Alcan localizou o terceiro maior depósito de bauxita no vale do rio Trombetas e iniciou um projeto de pequenas proporções, para um milhão de toneladas, em 1972, exatamente quando os países exportadores de bauxita tentavam organizar uma associação em defesa do minério semelhante à Opep do petróleo. Um novo cartel de produtores virou cinza.

Parecia que as multinacionais iriam ser donas de todo subsolo da Amazônia. O governo militar (1964-1985), se orientando pela doutrina de segurança nacional, não aceitou. O comando deveria ficar com as empresas estatais, em particular a Companhia Vale do Rio Doce, como aconteceu. Vitória do nacionalismo, com gosto, porém, de vitória de Pirro.

Sem poupança nacional suficiente para suportar os pesados investimentos da mineração e as obras de infraestrutura do setor público, o governo recorreu a empréstimos internacionais, avalizados pelo tesouro nacional. Assumiu a maior dívida do mundo. A posição acionária minoritária das multinacionais, na nova associação, não as impediu de serem as maiores compradoras dos minérios, em contratos de longo prazo.

A internacionalização veio de fora para dentro, através de circuitos comerciais, sem violar qualquer regra legal. Ao contrário do que previa a doutrina de segurança nacional, que resultou no Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), ninguém cogitou de ocupar militarmente a região, como apregoavam os profetas das conspirações.

Houve uma combinação de interesses. Do governo central, acantonado em Brasília, de transformar a Amazônia numa usina de dólares, graças aos seus produtos de aceitação internacional. Das multinacionais, assegurando as rotas de commodities para seus parques industriais, que continuam a resistir a precipitados dobres de finados, novamente entoados pela mais recente onda tecnológica (já estamos na quarta, que tornaria obsoletas as fábricas).

Quanto à Amazônia propriamente dita, continua a ver, impotente, o trem passar, deixando seu apito no ar, em viagens contínuas das minas, no sertão, aos portos de embarque para o exterior, no litoral. Não um trem qualquer. Nada menos do que o maior trem de cargas do mundo, de dar inveja aos colonizadores europeus da África e da Ásia. Eles não morreram, ao contrário do que reza a lenda apressada. Nós é que não os vemos.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

2 comentários sobre “O invisível

  1. Se os outros cargueiros que atracaram no porto do rio Trombetas tinham a mesma capacidade do primeiro, então ocorreram 21 mil viagens nesses 40 anos. Com certeza tem algum ribeirinho que cresceu vendo essas máquinas passando na sua porta. Ele deve saber contar bem essa história. Bem melhor inclusive que o sertanista que viu o trem.

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    Publicado por Pedro Pinto | 21 de setembro de 2019, 12:33
    • O primeiro trem de minério saiu de Carajás com pouca carga também. E foi manganês e não ferro. Ainda era uma viagem pioneira. O porto de Trombetas pode receber navios com tonelagem três vezes m,aior do que a bauxita embarcada 40 anos atrás. A quantidade de navios, portano, é menor. Mas impressionante.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 22 de setembro de 2019, 09:59

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