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Cultura

Cláudio Barradas, 90 anos

A principal via de acesso à Cidade Velha é a doutor Assis. O caminho de saída é pela doutor Malcher. Homenagem a dois eminentes personagens da história republicana do Pará no que resta do sítio de mais antiga ocupação colonial na terra dos extintos tupinambás.

No sábado à noite, a doutor Malcher estava quase vazia, como em todas as noites. Raras pessoas andando. Desativadas as conversas em cadeiras de vime na frente das casas. É a sensação de insegurança, que uma vigilância pública permanente no bairro reduziria ao nível civilizado. A presença maior de carros, estacionados no meio-fio. As garagens das residências particulares não são suficientes para a demanda.

No meio do quarteirão, uma luz mais forte se destaca. Mas não o suficiente para dar a visibilidade necessária a uma pequena placa que informa: ali é o teatro Cuíra. Uma faz-tudo à entrada atende na calçada os interessados. É ali mesmo a nova sede do grupo teatral Cuíra, nascido na boca do lixo paraense, na ilharga da linda praça da República, um desafio à integridade física nas noites ventiladas e agradáveis da cidade insalubre, com rápido trânsito pela massacrada governador José Malcher.

Todas as pessoas que chegam cabem na sala de espera, ao lado da pequena escada de acesso, onde funciona uma bilheteria informal. É uma linda residência do século passado, numa das levas de construção que se seguiram à fase colonial, umas atropelando as outras, as mais recentes sendo as piores. Na parte da frente, ainda íntegra, com seu jardim, funciona o teatro. Atrás, em construção acrescida, a residência da líder do grupo, a atriz Zê Charone.

Na terceira sala, costumeiramente o espaço nobre do prédio de teto alto, está o teatrinho, sem palco formal e sem um auditório convencional. Cabem ali umas 40 pessoas. A lotação está completa quando todos se assentam. A luz é mortiça. Ainda dá para ver um homem deitado em um sofá, com a perícia de um gato, imóvel, como uma criatura de cera. O cenário nos remete aos anos 1950, por aí.

Uma luz ainda tímida, avermelhada, revela o personagem. Ele é velho. Veste um pijama que já teve dias melhores. A cabeleira, homogeneamente branca, não tem falhas. O rosto não é demarcado por rugas. A pele lisa e rija, mesmo no pescoço, onde a natureza promove uma autêntica prova dos noves da vitalidade dos mais velhos, mesmo quando a idade é atenuada por correções plásticas., ou escondida por uma série de maquiagens inúteis, ou disformes

O homem se lamenta, invectiva, solta palavrões indignados, remexe na televisão da época, no aparelho de som, nos jornais espalhados pela sala. A solidão candente da madrugada insone é violada pelo súbito aparecimento de uma mulher muito mais nova, com roupas da noite, que entremeia compreensão e candura com determinação e sutis ordens de comando. Ela engrandece o velho, definindo-o, afinal, como um homem bom, merecedor do descanso eterno. E vai lhe dando pílulas e pílulas contra a depressão, a ansiedade, a desilusão. Dança com ele, lhe faz carinho e o faz adormecer – para nunca mais acordar.

A luz acende e vê-se Cláudio Barradas e vê-se Zê Charone. Todos ali sabem que Barradas está completando 90 anos? Um turista jamais saberia. Barradas repete suas falas sem falhas, sem hesitação, com a ênfase necessária, senhor de si e do território cênico, numa história que supera meus 70 anos, numa longa amizade de meio século, marcada pelo respeito e a admiração. Há algum ator mais antigo do que ele em plena atividade em algum lugar deste planeta? Com a mesma devoção e fidelidade ao seu ofício?

No desenrolar da peça, escrita e dirigida pelo cidadão que é o único técnico presente, a manejar a mesa de controle, o jornalista e escritor Edyr Proença, o outro grande líder do Cuíra, com sua mulher, Cláudio Barradas solta palavrões majestáticos, que ribombam pelo ambiente, precisos, com naturalidade. Nenhuma suscetibilidade ou inibição pelo fato de que o ator é também um padre, sempre percorrendo locais distantes e difíceis.

Boa vida sacerdotal, Barradas nunca teve. Suas designações parecem castigos, represália pela heresia do duplo papel. E são mesmo paróquias indesejáveis, como agora, em Icoaraci, para onde voltará, como puder, depois do espetáculo. Ele nunca os designou como tal. Nunca reclamou. Não permitiu que os editos da autoridade eclesiástica prejudicassem sua dedicação à missão que assumiu voluntariamente, já na alta maturidade.

Barradas sempre teve um modo jeitoso e harmonioso de realizar-se vanguardista, contestador, como um outsider santo, sereno, alegre, brincalhão, mas determinado. Jamais freou sua veia teatral em função da vocação religiosa, e vice-versa. Como um sábio, colocou-as no paralelo das duas ruas do velho bairro de tantas histórias e tantas derrotas, onde, em qualquer papel, ele está a caráter.

Edyr Augusto deu a Barradas um excelente presente de 90 anos. Fez de Barradas o verdadeiro personagem da história de Abraço, um caso real, que ele reescreveu. Se o que aconteceu fosse reproduzido mimeticamente, seria uma história de suicídio, cometido por um locutor esportivo da Rádio Clube do Pará, a PRC-5, “a voz que canta e fala para a planície”. O repórter foi tomado por uma depressão pesada, se isolou num apartamento e saiu do mundo simbolicamente – e literalmente, quando o apartamento foi arrombado e seu corpo encontrado.

No palco, uma mulher, justa, mas sem o tom angelical de uma paródia rasteira, dá ao personagem sofrido uma morte justa, capaz de projetar on que ele foi quando, no dia seguinte, encontrando seu corpo solitário, os que continuarão o cremarem como um homem bom, aparências contrárias à parte. Nada melhor do que Cláudio Barradas, na gloria dos seus 90 anos, para nos mostrar o quanto ele nos honra e eleva com a sua liturgia da palavra, no palco e no altar. Quando morrer, aos 100 ou 110 anos, ninguém terá dúvida: ele sempre foi um homem bom, de Deus e do teatro.

Discussão

5 comentários sobre “Cláudio Barradas, 90 anos

  1. Obrigado, amigo. Fico orgulhoso que tenhas gostado. Tudo o que fizemos foi para festejar e glorificar o nosso Cláudio, tão querido e brilhante.

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    Publicado por Edyr Augusto | 22 de setembro de 2019, 12:23
  2. Somente um ator da estatura de Claudio Barradas, pode ter aquele desempenho no palco. Sua atuação me emocionou por dois motivos: o primeiro, porque lembrei de meu avô Vítor (eles até se parecem) andando o dia todo com aquele pijama pela casa; segundo, pela solidão na velhice é muito triste e me toca profundamente. Lucio, obrigada por compartilhar comigo esse tempo. Parabéns pelo texto! Desejo ao ator e padre vida longa para que ainda posamos desfrutar de sua arte e até mesmo de seus irreverentes palavrões.

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    Publicado por Marilene Pantoja | 23 de setembro de 2019, 23:52
    • Você foi a única espectadora a derramar suas lágrimas pela associação da peça com a sua história e pelo maravilhoso desempenho do ator nonagenário. Mas todos nós ali presentes, privilegiados pela oportunidade que o Cuíra nos ofereceu, nos deslumbramos pela rara vitalidade do Cláudio. Quem puder, não deve perder essa oportunidade.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 24 de setembro de 2019, 09:17

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