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Imprensa

Voz de Santarém

Atrevo-me a reproduzir a mensagem que o Cristovam Sena postou no seu Facebook a propósito dos meus 70 anos, no dia 23. Cristovam é um idealista batalhador, que assumiu o difícil desafio de preservar a memória de Santarém, minha – também sofrida – terra natal. É um depoimento que me emocionou pela sua simplicidade e autenticidade. Assim, partilho-o com o leitor que, eventualmente, estiver interessado pelo que já fiz na vida de utilidade pública.

Lúcio Flávio Pinto: 70 anos

O santareno Lúcio Flávio Pinto completa hoje, 23 de setembro, 70 anos.

Para quem quiser conhecer o jornalista Lúcio Flávio Pinto, no seu embate em defesa da Amazônia contra grileiros, madeireiros, empresários, políticos, intelectuais e poderosos em geral, recomendo a leitura do livro “O Jornalismo na Linha de Tiro”, editado em 2006.

Seu Jornal Pessoal, publicação alternativa, circula em Belém desde 1987.

É bom lembrar que o JP surgiu em virtude do Lúcio não conseguir publicar nos principais jornais da capital, a matéria investigativa que produziu sobre o assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles.

O envolvimento de dois empresários como suspeitos de mandantes do crime, ambos importantes anunciantes na grande mídia, fechou as páginas da imprensa para o Lúcio.

Em 1995, por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu o prêmio Colombe D’oro per la Pace, em Roma.

Em 2005, em Nova York, o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos.

Ele foi o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras, em 2014.

Além disso, recebeu quatro prêmios Esso e dois FENAJ, da Federação Nacional dos Jornalistas. E alguns outros que não recordo agora.

Não convivi com o Lúcio em Santarém, de onde saiu ainda criança. Em Belém acompanhei seu trabalho através dos seus escritos na imprensa local. Passei a visitá-lo em sua residência na Aristides Lobo.

Em 1993, no dia 22 de maio, um sábado, em companhia do seu amigo Carlos Meschede, veio conhecer o ICBS.

Filho do ex-prefeito Elias Pinto, dentre seus assuntos preferidos estão política e Amazônia. Mostrei-lhe alguns depoimentos do nosso Projeto Memória Santarena e tirei cópias de documentos de seu interesse.

No outro dia voltamos a conversar, ganhei de presente o livro “Amazônia a fronteira do caos”, editado em 1991, com a dedicatória: Para o Cristovam Sena, como estímulo ao seu trabalho pela memória de Santarém.

 O convidei para prefaciar o livro do Eymar Franco, “O Tapajós que eu vi”, primeiro livro editado pelo ICBS, em 1998.

No ano seguinte prefaciou “Tupaiulândia”, em sua terceira edição.

Sempre que vou a Belém levo os livros que editamos para presenteá-lo. Recebo em troca os da sua lavra.

Ele me enviava religiosamente o seu Jornal Pessoal. O JP, ainda hoje, é o que há de melhor na imprensa paraense, para quem quer saber o que realmente acontece nos bastidores do governo e dos grandes projetos instalados na Amazônia.

Inteligente, independente, atualizado, íntegro, Lúcio merece o respeito de todos e é reconhecido mundialmente pela sua luta em defesa da Amazônia.

Em maio de 2006, o jornal “O Estado do Tapajós” editado pelo Miguel Oliveira, dava início a publicação quinzenal do caderno produzido pelo Lúcio, denominado “Memória de Santarém”. Em junho de 2010 os cadernos quinzenais foram reunidos e editados, dando origem ao livro “Memória de Santarém”, impresso na Gráfica Tiagão, com 420 páginas, revisado e diagramado no ICBS. Com lançamento acontecendo no Museu João Fona.

A partir de 2007 começamos a digitalizar o JP. Depois que foi criada a página do ICBS (www.icbsena.com.br), um bom números das edições do Jornal Pessoal encontra-se a disposição dos interessados, a começar pelo nº 1, o do assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles.

Ele mesmo postava o jornal para os assinantes fora de Belém.

No acervo da biblioteca do ICBS contamos com 33 obras do Lúcio Flávio, sendo que em 10 consta no título a palavra Amazônia.

O mais antigo deles é “Jari, toda a verdade sobre o Projeto Ludwig”, de 1986. É coautor de outras publicações coletivas, dedicadas à Amazônia e ao jornalismo.

Recebeu o Prêmio Wladimir Herzog de 2012 pelo conjunto da sua obra.

Várias vezes encontrei-me com o Lúcio nos sebos de Belém. O mais frequente era o Relicário, do Anderson, quando ainda estava na Av. Presidente Vargas. Lúcio vasculhava as estantes do Relicário à procura de novidades antigas.

Outro sebo era o Cultura Usada, que fechou, que era do Carlos, perto da sua casa.

Em abril de 2006, pela manhã, passei pela sua residência para um papo com o amigo. Fui levando uma sacola com livros editados pelo ICBS.

Como eu tinha avisado que iria, ele preparou-me uma sacola contendo seus livros e jornais.

No início do ano passado, voltei a visitá-lo na Aristides Lobo. Encontrei operários  trabalhando na casa, a enfrentar o inverno que estava forte em Belém.

Livros espalhados por todos os cantos, aos montes. Fiquei com dó do amigo. Segundo ele, em torno de 50 mil livros. Perguntei-lhe o que faz para encontrar um livro, quando precisa dele. Respondeu que a maioria sabe mais ou menos onde está, mas quando procura não os encontra.

Legítimo Workaholic, compulsivo e dependente do trabalho jornalístico que desenvolveu ao longo de mais de cinco décadas, agora em 2019 Lúcio foi advertido pelo médico de que deveria pisar no freio e cuidar da sua saúde, a fim de reduzir os danos do Mal de Parkinson, doença que foi chegando sem avisar nem pedir licença, e ficou.

Segundo o próprio Lúcio, a composição de stress com ansiedade e angústia, que o dominam, é um veneno para um parksoniano como ele.

Vida longa ao Lúcio Flávio Pinto! É o que desejo-lhe ao completar 70 anos de existência e 54 de jornalismo em defesa da Amazônia.

23 de setembro. Além do Lúcio, nasceram nessa data meu pai Boanerges Sena, que estaria completando 102 anos, e o ICBS, que hoje chega aos 38 anos de existência.

Discussão

6 comentários sobre “Voz de Santarém

  1. Realmente Lúcio Flávio é uma Lenda a pulsar no jornalismo paraense é brasileiro!
    São pessoas como Lúcio que a imprensa, apesar dos percalços, conseguirá se manter na imparcialidade dos fatos, com total transparência e ilibada reputação!
    Um fraterno e saudoso abraço e que outras tantas primaveras ainda irão advir!!!

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    Publicado por Fernando Pereira | 28 de setembro de 2019, 18:53
  2. querido Lúcio, envio, direto do Xingu, felicidades a você no seu aniversário. E obrigado por ter concordado em participar de uma palestra que, em garoto, organizei na antiga FCAP, há uns 20 anos, pra falar de Amazônia. Lembro de você simples e inteligentíssimo, um dos primeiros intelectuais que conheci, me fez um bem danado aquele dia, como hoje me faz a lembrança. abraços.

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    Publicado por Paulo Vieira | 28 de setembro de 2019, 21:00
  3. Um resumo simples e perfeito. Parabéns ao Lúcio e ao Cristovam Sena, querido amigo e colega do Dom Amando. Em 2008 o Lúcio vinha insistindo para que eu escrevesse um livro, mas eu estava totalmente inseguro, não sabia nem como começar. Aí ele mandou pra mim o livro O Tapajós Que Eu Vi, do Eimar Franco, dizendo que esse poderia ser minha bússola. Li o livro e nele encontrei o remédio para curar minha insegurança. Assim nasceu Catalinas e Casarões, que ganhou um prefácio antológico do próprio Lúcio e que também faz parte das prateleiras do ICBS.

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    Publicado por Ademar Amaral | 29 de setembro de 2019, 05:27

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