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Memória

Meninas

Quem diria: Sandra (que foi Franco e depois Steiner) também fez 70 anos. Fato perfeitamente normal, mas minha memória só retém as imagens de um passado mais remoto, como se o tempo não passasse. Lembro-me de amigos longínquos como se eles fossem eternamente crianças, como Peter Pan. A Sandra dessas lembranças era uma das princesas da rua Veiga Cabral, entre Padre Eutíquio e São Pedro.

A rua ainda não era asfaltada, mas a terra batida dava uma boa consistência ao chão para a circulação de uns poucos veículos e pedestres. Era um reduto típico de classe média, algumas das famílias mais abonadas, outras ainda remediadas. Sandra, filha do desembargador Edgar Franco (que comandava a justiça eleitoral, e pai do futuro médico, Sérgio), era a princesa de cabelos pretos, enquanto Aldinha, Albinha, Lucinha e, um pouco mais tarde, Adelina (de uma família de italianos, incluindo o pintor Luigi Fazzio).

Convivíamos no fim de tarde e começo de noite. O programa conjunto começava com a audição de novela radiofônico (ainda não havia televisão nesse período, entre o final dos anos 1950 e o começo dos 60), como “Jerônimo, o herói do sertão”, de grande sucesso. Depois, nossa emprega, Creuza, contava histórias aterradoras dos cães diabólicos: Rompe Mato, Ouve Longe, Faro Fino e Quebra Ferro (suspeito que fossem narrativas inspiradas na lenda de Carlos Magno e os 12 pares de França, muito populares no interior amazônico, de onde a Creuza viera).

A escuridão avançando junto com a história, todos iam se agarrando à Creuza e não a largavam quando ela se levantava para terminar os seus afazeres domésticos.  O medo era grande, mas a curiosidade o superava. Ao final, era uma disparada, cada um de volta ao ninho seguro. No dia seguinte, a coisa se repetia, atestando a destreza da nossa querida empregada em conquistar a atenção dos seus ouvintes.

]Mas havia também as brincadeiras de pega,ladrão, cemitério e pira-cola, que avançavam mais pela noite, podendo resultar em punição. Como a que sofri depois que fugi, em tão desabalada carreira, para não ser apanhado e virado estátua, que fui parar no Jurunas. Ao voltar, todos já se haviam recolhido e as casas estavam fechadas. Mamãe abriu a porta e os braços, me dando uns trampescos.

A pancada era diária. Depois do almoço, quando todos deveriam estar deitados nos seus quartos, eu fugia para jogar bola no campo do João do Boi, uma autêntica fazenda urbana, com vaca e tudo mais. Era chegar e apanhar. Às vezes ficava de castigo,. Numa dessas ocasiões, os atletas sentiram minha falta e foram me buscar. O irmão que se seguia a mim, o Raimundo, que tinha dificuldades de expressão, respondeu, foneticamente, um “ele não bádi baúa”, como se dissesse “ele não pode ir pra rua”. Virou apelido: badibaúa. Risos gerais, menos dele, claro.

Eu também brincava de casinha com a Lucinha, irmã do Paulo “Manteiga”. Era o marido, mas só tinha direito ao título depois de comer a iguaria que ela preparava, composta de terra e folha. Pois eu comia, sim. Levava as coisas a sério. O bom e sadio moleque tem vacina natural contra tudo.

Eu era apaixonado – à distância, por inibição, timidez e princípios – por todas essas meninas, depois adolescentes, depois mulheres, que se espalharam por aqui, ali e muito longe. A mais misteriosa era a Albinha, a irmã da Aldinha, filhas do “seu” Ernesto. Ela morava no cobiçado Rio de Janeiro. Só vinha em férias. Era orgulhosa, pávula. Não prestava atenção aos moleques nativos,

Por isso, minha relação maior era com a Aldinha, a mais nova. Certa vez, fugindo de perseguição em um dos jogos de rua, entramos ao mesmo tempo atrás da enorme porta de casa. Ficamos bem juntinhos, o coração acelerado. Olhei para ela e lhe dei um beijo tão rápido quanto o relampejar no céu. E corremos ambos atrás de refúgio, o mesmo que agora me vem com a notícia de que Sandra é tão setentona quanto eu.

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