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Cultura, Imprensa

“Debate” à internet

No dia 28 de agosto, o fotojornalista Moisés Sarraf publicou um comentário em seu Facebook sobre um artigo meu neste blog. Só alguns dias depois tomei conhecimento do texto, que me foi enviado cortesmente pelo próprio autor.

Tive um choque. Que diabo de debate era aquele, dominado por agressões, impropérios, irracionalidades, absurdos e um profundo desconhecimento dos fatos, da cultura e da própria língua. Um típico “debate” de internet. Transcrito neste blog, faz lembrar alguns momentos de intolerância infiltrados neste espaço, que cumpre, pela ênfase que se deva dar à inteligência, combater.

Numa revisão da correspondência, encontrei a matéria, que transcrevo com a seguinte pergunta: quem não fez igual, atire a primeira pedra; quem nunca se deixou atrair por essa algaravia, se manifeste.

Moisés Sarraf

28 de agosto ·

Lúcio Flávio Pinto ficou conhecido pela contribuição ao jornalismo sobre Amazônia, mas também poderia ter sido pelo racismo de seu blog. Foi assim quando criminalizou as festas de aparelhagens, o que não é uma novidade nas terras em que capoeira e carimbó já foram crime também. E, quem diria, tudo ritmo e cultura de preto da perifa. Mas a última falsa polêmica foi tentar exercer seu poder de escrutínio sobre a Feira Pan-Amazônica do Livro. Ele parece almejar transparência, mas só conseguiu preconceito ao se referir aos convidados do evento. Pode ser que muitas vozes não seja o forte dele. Um desrespeito com quem tem uma vida de pesquisa, militância e saberes diversos no Brasil!

“Ótimo que o Estado induza seu surgimento ou apoie sua criação. Mas quem são? É preciso identifica-los para que não seja uma ação entre amigos, proselitismo político ou mesmo formação de agente comunitário e cabo eleitoral.”

Ou é ignorância ou é má-fé. Ambas são inaceitáveis. Não conhece a Zeneida Lima, do Caruanas do Marajó, pajé de Soure, ponto forte da cultura marajoara, que dá entrevista vez por outra e já foi referência do enredo da Beija-Flor? Ou nunca leu Djamila Ribeiro, uma das mais conhecidas militantes e acadêmicas do movimento negro da atualidade? Não conhece a jornalista Cristina Serra? Não conhece a escritora Conceição Evaristo? Elas são aquilo que somos: nossos saberes, nossas perspectivas de mundo; a cultura de nossas mães, a cultura de nossas avós, a cultura de nossas intelectuais.

Talvez seja má-fé. Talvez não conheça mesmo. Isso é o que significa o pensamento decolonial. Virar do avesso o olhar pra enxergar aquilo que se esfrega na nossa cara: como as culturas negra e indígena são fundantes do Brasil e mesmo assim estão marginalizadas, escondidas, silenciadas. Essa iniciativa da feira é a exceção.

Mas LFP explica um dos seus problemas com o evento: “Observa-se que vários dos artistas, desconhecidos ainda, moram na periferia”. É sério! Já imaginou um evento LITERÁRIO com povo NEGRO e da PERIFERIA?

Um bom termômetro é a crítica recebida. E a tomar por essa do LFP, o evento mirou no periquito, acertou no papagaio, como dizem por aí. Que a feira dê vigor a quem tá na militância nestes tempos, em Belém, no Brasil.

  • Socorro PereiraMeus sais aromáticos ervas da Amazônia! Matinta Perera! Salve Jorge!

  • Socorro PereiraDeus salve o Rei da Amazônia;

  • Roberta BrandãoLúcio Flávio faz parte daquela elite intelectual de homens brancos hetéros da classe média. Ou seja, não fazem mais sentido akhgajhgaj

  • Luah Sampaio!!!

  • Yasmim UchôaNão é ignorância e nem má fé, é puro racismo mesmo. Declarado e aberto. É preciso que se dê nome aos bois, né?

  • Jane MargarethYasmim Uchôa fechei contigo…RACISMO!

  • Anderson JorNão é de hoje que o LFP anda pisando na bola e demonstrando um conservadorismo igual ao de todos os que ele ataca como agentes econômicos de uma sociedade colonizada e explorada. Esqueceu de sair dos debates da macro economia e atualizar sua visão sobre o que está sendo reivindicado hoje pelas minorias historicamente excluídas. É racismo e elitismo. Talvez um pouco de recalque por não ter sido lembrado nessa edição. Falar sobre o LFP é importante e corajoso. Ele continua como matriz intelectual pra uma porrada de gente.

  • Aline RodriguesPerfeito, Moisés Sarraf!!!

  • Cilene NabiçaÉden Costa

  • Cilene NabiçaArrazô, amigo!

  • Flávia Do Amaral VieiraMuito bom!

  • Dominik GiustiPerfeito! E já tem tempo que ele está com esse discurso mesmo….

  • Ádria AzevedoAfrontosa Ribeiro

  • Tomaz PennerTextão!

  • Lílian Oliveira

  • José BessaQue pena. Alguem tão combativo e tão importante pra nós enveredar por esse sendero.

  • Elias CostaMuito bom texto. Eu não li o que o Lucio escreveu, mas há um tempo não espero nada diferente. Que viva a periferia, sua produção intelectual, seus saberes, sua gente, seus intelectuais, artistas, e que a arte continue saindo das mãos de gente branca, rica, hetero, para a grande gente. Essa gente que somos. E que bom!

  • Irna CavalcanteMoisés Sarraf, fostes cirúrgico. Olhai, Afrontosa Ribeiro

  • Iego RochaPor tudo, Moisés! ❤️

  • Leonora Simões da CruzManda ele tomar no fiofo

  • Flávia LisbôaMaravilha de reflexão, Moisés Sarraf👌🏿

  • Zek NascimentoNão li o que ele escreveu, ando lendo mais o que tu escreves. Parabéns pela reflexão.

  • Aita KardelEventos que sustentam o sistema capital em colapso, e o desacreditado Estado, sustentado pelo bloco interessadx na alternância de poder!

    Os Barbalhos, sendo Barbalhos!

  • Ivânia NevesCom muito orgulho estarei na Feira amanhã, ao lado de Matânia Suruí!

  • Moisés SarrafSimmm, prof. E eu mt grato pelo convívio que tive com vc e com o Gedai!

  • Rafaela NogueiraMuito bom!!! Concordo com tudo!! E é sempre bom e importantíssimo sair se nossa bolha!

  • Sidney OliveiraConcordo plenamente, amigão Moisés Sarraf. Fui fazer uma crítica sobre ele na faculdade, quase apanho…

  • Aline BrelazA periferia tá saindo da invisibilidade na marra, construindo projetos reais, incluindo-se na marra, chegando com o pé na porta. Aos preconceituosos: lasquem-se

  • Beta AragãoÉ por isso que bebo ctg. É isto amigo!

  • Moisés Sarrafamiga, inclusive quero!

  • Agenor SarrafTexto INCRÍVEL, Moisés. Tu és FODÁSTICO.

  • Raimundo TocantinsMaravilha de texto e de lambada nas colonialidades do poder que pairam por aí e tentam sempre empurrar as diversidades para a invisibilidade.

  • Kélem Cabralque triste fim

  • Dio FerreiraEu sou do Ceará, conheço a Djamila Ribeiro e a Conceição Evaristo, mas não sei quem diabos é Lúcio Flávio Pinto. E continuaria sem saber quem é essa pessoa irrelevante se não tivesse lido essa postagem.

  • Lúcio Flávio PintoProvavelmente raros dos que me atiraram à fogueira da inquisição leram o que escrevi. Agem como manada. O líder dos gnus lavrou a condenação (talvez sem ter lido meu texto ou não saber ler) e todos fazem eco. Gritam e trombeteiam, mas não argumentam. Ignoram os fatos, da história nada sabem, nenhuma pesquisa sobre o tema de que tratam. Voltamos intelectualmente à era neolítica, à academia dos macacos, criada por Kafka, na qual tem razão quem esfrega os artelhos com mais força. Quando a maioria nem existia, 53 anos atrás, eu já defendia os explorados, massacrados, excluídos. Não em bar ou pela internet: na linha de frente dos ataques, ameaçado de morte, agredido, sofrendo 34 processos judiciais (de poderosos, sempre, e não de gente do povo, de quem sempre estive ao lado). Escrevi milhares de textos. Encontrem em um único deles o que me atribuem agora. Não avaliei ninguém. Apenas exigi que a secretaria de cultura ou a fundação cultural justificassem a inexigibilidade de licitação para o pagamento de cachês (de alto valor, muito acima do padrão do mercado), a grupos musicais que não tinham a notoriedade ou a excepcionalidade de qualificação para receberem direto do governo o dinheiro do povo, sem passar pela obrigação republicana e democrática da concorrência pública. Não esteve em causa a condição dos beneficiados, apenas a burla a uma sábia exigência legal. Ademais, muitos grupos são usados por políticos inescrupulosos e desonestos, principalmente no interior do Estado. Através de emendas que apresentam, obrigam o governo a pagar elevados cachês a esses artistas e ficam com parte do dinheiro, no mesmo esquema usado por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Por ser Bolsonaro, os inquisidores deste espaço denunciam o filho do presidente. Mas e os personagens iguais que há por aqui? Silêncio geral. Eu continuarei a denunciar, mesmo que sofra agressões primárias como estas, que não justificam um debate. É defunto ruim para merecer as velas de um velório digno. Pobre Pará se essa gente chegar ao poder. Vem-me à memória a cena de meio século atrás, em São Paulo: Caetano Veloso, impedido de cantar Proibido Proibir, pelos intolerantes de sempre, protestando sob o eco de vaias fascistas, como estas.

  • Lúcio Flávio PintoSchopenhauer ensinou que a melhor maneira de sair ganhando numa polêmica é atribuir ao contendor o que ele não disse, mas que você diz que ele disse para poder dispor de argumentos que destruirá facilmente. Qualquer pessoa com o cérebro mais arejado e mais bem irrigado de sangue não verá qualquer conexão entre o trecho que você cita e as pessoas que arrola. Não me referi a nenhuma delas nem pensei nelas (embora conheça quase todas), mas nos casos concretos, que já apontei, de malversação de dinheiro público usando como pretexto a destinação de somas razoáveis a pessoas sem qualquer notoriedade. Elas ficarão com uns 20% do dinheiro. O resto irá para os bolsos dos políticos autores das emendas. Em outros casos, os critérios de seleção – autoritária, sem passar por qualquer colegiado, sem termos de referência – é politiqueiro, de igrejinha, grupal. Você poderia pedir a opinião de Cristina Serra a meu respeito, para ficarmos entre jornalistas. A sua opinião vale nada. Como você. O resto é silêncio, que vale ouro quando o excesso de palavra só agrava a ignorância de quem fala, sem o mais elementar conhecimento de causa.

  • Moisés SarrafNinguém contesta tua trajetória, Lúcio Flávio Pinto. Minha crítica – e a de outras pessoas – é quanto ao racismo e elitismo de teus posicionamentos sobre cultura. Críticas que reitero. E sem ofensas. Forte abraço!

  • Lúcio Flávio PintoContinuo a dizer que sua crítica é completamente sem fundamento, Moisés, além de ofensiva. Reitero o desafio de encontrar um único texto meu racista ou contra o povo. Com milhares de textos escritos em mais de meio século, será fácil para você provar. Admiro o seu excelente trabalho como fotojornalista, mas lamento que tenha desviado a questão para o sombrio subsolo da irracionalidade, insensatez, dogmatismo, intolerância e ignorância. Sei que não foi a sua intenção, mas contribui para criar biombos bonitos para quem rouba o dinheiro público, impedindo a opinião pública de ver a realidade graças às pitadas de pimentas de boa intenção. Aplaudo a sua última mensagem. Um forte abraço também

  • Socorro PereiraDez meu amigo Lúcio Flávio, vc é pra mim pra cem milhões de pessoas um profissional do jornalismo, paraense, nacional e internacional, um ser humano dos mais valiosos no que faz e faz bem feito! Eu, como sua colega, amiga te respeito muito! Não ligue para esses da cultura da maldição! Vamos continuar nas nossas lutas!

  • Lúcio Flávio PintoMuito obrigado, Socorro. Parodiando Mário de Andrade, mas às avessas nesses nossos tempos de absurdos, desafina o coro orquestrado dos descontentes.

 

Discussão

13 comentários sobre ““Debate” à internet

  1. Começou o Yom Kippur, perdoe Lucio Flavio.

    Muita maconha molhada deve dar naquilo.

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    Publicado por celso scatena de andrade sant anna | 8 de outubro de 2019, 21:55
  2. Lúcio é bem maior que tudo isso! Muito maior!

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    Publicado por NALDO ARAÚJO | 9 de outubro de 2019, 09:24
  3. A réplica e a tréplica diante das ofensas e rotulações indevidas, mesmo invioláveis no processo democrático do debate, pela resposta recebida, inflexível, deixa margem para interpretar que não passou apenas de gotas homeopáticas que com o devido tempo tratarão de curar as más interpretações e juízos de valor sobre seu posicionamento Lúcio, sobre a questão reiteradamente, anunciada aqui em seu blog, sobre a questão fundamental, a “ausência de transparência legal sobre a aplicação de recurso público pelo governo”, o demais é apenas barulho e ataques virtuais……..

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 9 de outubro de 2019, 09:52
  4. Esses grupelhos de internet não possuem nenhum valor.

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    Publicado por Ricardo José Condurú Conceição | 9 de outubro de 2019, 10:13
  5. Bom dia, Lúcio Flávio!
    Faço um pedido a você, mas se não for possível, entenderei, pois por aqui temos alguma vaga ideia do teu estado de saúde. O atrevido pedido é se tens alguma análise para compartilhar sobre o Sínodo da Amazônia e suas implicações. Creio que o pedido tem algumas justificativas, a saber: um evento dessa monta está sendo realizado em um dos espaços mais cobiçados do mundo, mas não tenho notado, como sempre, os escribas da terra fazerem pelo menos fofoca sobre o assunto; o Sínodo é nas imensas e ricas terras onde moramos; e a ultima justificativa é que a Amazônia parece fazer parte do teu DNA de assunto para vida e morte. Agradeço, qualquer que seja tua resposta.

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    Publicado por Diniz | 9 de outubro de 2019, 11:13
  6. Minha solidariedade a ti, Lúcio!

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    Publicado por Victor | 9 de outubro de 2019, 11:13
  7. Lúcio, há algum tempo venho te avisando do preço caro que pagarias, e agora estás a pagar, por manteres a coerência em tuas críticas.
    Creio que hoje sabes que ser coerente, ao apontar erros e desvios de quem quer que seja, de colorações partidárias e/ou ideológicas és atacado pelos que tem no ódio o ideal matéria prima como lema.
    Abraco

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    Publicado por Ronaldo Passarinho | 9 de outubro de 2019, 12:17
  8. O que antes ficava restrito a pequenos grupos, com a internet se expandiu. O que importa é fazer parte de algo, é concordar sem questionar e se questionar. Não interessa dialogar, se não está de acordo, como ensinou o Olavo de Carvalho, na boca do atual Ministro da Cultura, chama-se um palavrão para o adversário, e o cala.

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    Publicado por Everaldo | 9 de outubro de 2019, 15:28
  9. Lúcio, está cada vez mais difícil ser inteligente, bem informado e emitir opinião. Há como que milícias com a agressividade de uma matilha raivosa a bater, insultar, sem sequer ter lido o que foi escrito. Os cachês pagos através da Secult a partir de emendas parlamentares não são democráticos e sequer contribuem para o crescimento ou existência de um mercado cultural, este, sim, que deveria ser estimulado por nossos parlamentares. A maioria dos que insultaram, revelam não ter lido nada. Ao menor estímulo, saem atirando para todos os lados. Nesses dias em que vivemos, os inteligentes, bem informados e formadores de opinião serão caçados feito ratazanas prenhas, como diria Nelson Rodrigues, pelos cretinos, burros e incultos.

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    Publicado por Edyr Augusto | 10 de outubro de 2019, 00:31

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