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Colonização, Estradas, Fazendas, Floresta, Governo, Igreja, Militares, Política, Terras

Velho e novo colonialismo

Dizer que o pernambucano José de Moura Cavalcanti era o presidente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) era dizer pouco. Mas em 1971 ele se tornou o gestor do maior latifúndio do mundo. Por um ato de força, na forma de decreto-lei (o poderoso executivo usurpando função do legislativo amordaçado), o general Garrastazu Médici, o terceiro presidente da ditadura militar de 1964, incorporou ao patrimônio da União dois terços dos mais de seis milhões de quilômetros quadrados da Amazônia Legal.

Para ter o domínio de tanta terra, bastou ao governo federal transferir para si as terras até então estaduais situadas numa faixa de 100 quilômetros de cada lado das estradas construídas, em construção ou simplesmente projetadas na região. Esse vasto território seria usado para assentar os agricultores, principalmente do Nordeste, que não conseguiam se tornar proprietários rurais em seus Estados de origem.

Por isso, o ex-governador Moura Cavalcanti se declarava um novo Moisés, abrindo a Transamazônica a pelo menos dois milhões de colonos, como se fosse um Mar Vermelho no meio da mata densamente verde, Para apoiá-los, o governo lhes concederia um lote de 100 hectares, com uma casa, um hectare desmatado e um salário mínimo durante seis meses, para poder se estabelecer.

Os colonos poderiam plantar cana-de-açúcar e vender a produção para a usina Abraham Lincoln, que a processaria. A usina foi comprada como se fosse nova, mas na verdade fora recondicionada. Houve a suspeita de alguma transação envolvendo Cavalcanti, integrante de uma tradicional família de usineiros nordestinos. O projeto acabou fracassando.

Tanto por muitos erros detectados nos projetos de colonização. O problema é que o próprio governo se desinteressou pelos planos bíblicos de transformar camponeses sem terra do Nordeste em integrantes de uma nova classe média rural na fronteira amazônica. A partir de 1973, a opção passou a ser a venda de grandes extensões de terras (em geral, em lotes de 3 mil hectares). Era a vez dos que tinham capital. O momento do trabalho terminara.

A compra de muitos lotes, reagrupados em enormes fazendas, provocou oq que os teóricos consideraram o fechamento da fronteira por dentro. Foi colocado cadeado na porta de entrada dos colonos, que chegavam à Amazônia recrutados em suas terras natais e transportados pelo governo, naquilo que se definiu como a colonização oficial dirigida. A partir daí, só restou ao candidato a colono virar posseiro. Ao invés de proprietário, refez a condição de assalariado, parceiro, meeiro e outras formas de escravização à terra, sem os eu domínio.

Era comum ver-se esses lavradores à porta do Incra tentando uma audiência com um funcionário do instituto para receber orientação ou uma solução para os muitos problemas que enfrentavam. Quase sempre voltavam para os seus lotes sem sequer serem recebidos. Começaram a procurar as comissões pastorais da terra da Igreja, onde eram acolhidos, recebiam apoio e tinham assistência jurídica para resolver as disputas e conflitos de terras. Ou tinham cobertura para denunciar grileiros ou pistoleiros.

A sustentação doutrinária vinha da teologia da libertação, uma derivação  ou desvio – da doutrina oficial, frequentemente combatida pela ala conservadora do clero ou mesmo pelo papa.

Hoje, os militantes ditos esquerdistas da Igreja assessoram o papa Francisco no sínodo que ele convocou, dedicado à Amazônia. O principal objetivo deixou de se dirigir às frentes pioneiras e as caóticas disputas pela terra.

Não há mais dois campos definidos, de um lado os bons e do outro os maus, os mocinhos e os bandidos. Tanto a sociedade anônima como o João da Silva causam danos à natureza, que desconhecem, cada um na sua devida escala de destruição, é claro. Um como vítima de um modelo que se mantém pelo caos, que favorece os mais fortes; outros, como seus agentes. O resultado é um só: menos floresta, menos natureza, menos liberdade para os habitantes nativos, mais violência e devastação.

Ao invés de acompanhar a saga migratória, que se tornou descontrolada, a Igreja se dirige aos confins do que ainda subsiste como Amazônia para firmar a sua presença e assistir o homem maltratado, mesmo que para isso tenha que contrariar a ortodoxia e enfrentar os seus defensores, ordenando homens casados e mulheres para cumprir o ofício, hoje sem gente para realizá-lo.

A Amazônia redefine a sua estratégia e, de certa forma, volta ao início da colonização. Mesmo porque, de uma forma tecnologicamente tão diversa e economicamente tão avançada, a colonização de novo tipo, interna e externa, é o que mais mal faz à Amazônia.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

Um comentário sobre “Velho e novo colonialismo

  1. Os Cavalcante são donatários daqui insigne Lucio Flavio.

    São é pré colonialismo, he,he.

    https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/acervo/cavalcanti-saga-maior-familia-brasil-682213.phtml

    Curtir

    Publicado por celso.. | 10 de outubro de 2019, 09:57

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