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Cultura, Memória, Política

JP (8) – História paraense

(Publicado no Jornal Pessoal 236, de junho de 2000)

História

Um povo que não cultiva a memória fica desmemoriado. A desmemória o incompatibiliza com a realização da sua história. Por isso, é de lamentar o silêncio da grande imprensa paraense sobre a morte, há duas semanas, do advogado Achilles Lima. Ele foi um ativo personagem da história que se escreveu (ou tentou-se escrever) a partir da grande derrota sofrida pelo baratismo em 1950. Uma leva de jovens profissionais, que pularam da academia para a luta política atraídos pela formação de uma frente oposicionista (a CDP – Coligação Democrática Paraense), emprestou sua competência e seu entusiasmo à nova classe dirigente.

Muitos deles iriam percebendo aos poucos que a mudança havia sido mais de nomes do que de programas. Mergulharam num cinismo conveniente, num niilismo perturbador ou voltaram aos seus locais de trabalho, desiludidos do que viram. Os que sobreviveram, sobreviveram porque se apegaram aos nomes e deixaram de lado os programas.

Durante os anos em que tivemos escritórios no mesmo prédio, naquele centro comercial de Belém que tanto amávamos e hoje é só ruínas, conversamos muito. Achilles Lima representou para os anos 60 a 80 o que, antes dele, Samuel Mac-Dowell e Octávio Meira foram para a primeira e a segunda repúblicas.

Em seus escritórios, montaram banca em defesa de grandes empresas, sobretudo estrangeiras, que necessitavam de advogados capazes de dialogar com seus centros jurídicos metropolitanos, sem defasagem ou diapasão. Achilles tornou-se um profissional de sucesso e respeito. Podia ignorar os ideais anteriores, que se frustraram. Mas continuou a ser um homem público, apaixonado, mas capaz de discernir idéias e aceitar oponentes.

Por isso, em campos opostos, travamos longos diálogos durante o período em que eu critiquei ou combati alguns de seus clientes. Mas foi sempre um advogado zeloso e ético. Quando eu chegava a pontos embaraçosos, ele encerrava a conversa e prometia que, aposentado, me abriria seus arquivos. Em alguns deles eu talvez pudesse mudar minhas ideias. Mas em outros (desconfio que a maioria), eu iria encontrar a prova material para coisas que esgrimia, às vezes em tese, e denúncias ainda pendentes.

A terra não fez justiça ao seu filho. Achilles Lima morreu já completamente fora da ativa, ignorado pelos mais novos e, talvez, amargurado ao confrontar o tanto que poderia ter feito e não fez por não lhe ter sido dada a devida oportunidade. Não para demonstrar que era um excelente advogado e um profissional de primeira, o que sempre esteve fora de dúvida. Mas exibir em plenitude a outra face da sua personalidade, a de homem público. Numa política definida pelas conveniências, essa plenitude é colocada fora de alcance, se as pessoas teimam em defender ideias e não apenas nomes ou interesses. Vão-se sem a oração fúnebre que mantém vivos os vivos e garante aos mortos a eternidade que construíram.

Discussão

Um comentário sobre “JP (8) – História paraense

  1. Falar em desmemória, quero aproveitar o espaço para relembrar apressadamente uma obra fundamental para a amazônia, e que este ano completa 200 anos de sua publicação, porém, sem as necessárias homenagens. Falo do poema épico “A Muhraida”, de Henrique João Wilkens, meu sétimo avô.

    Henrique João Wilkens e sua descendência.

    Henrique João Wilkens é o autor de “A Muhraida”, ou o Trinfo da Fé, obra escrita em 1785, mas sendo publicado somente em 1819 pelo Padre Português Cipriano Pereira Alho, e que trata da vitória dos Portugueses sobre os índios Mura, ou seja, há duzentos anos.

    A Muhraida é considerado o primeiro livro em língua portuguesa escrito na Amazônia.

    Wilkens chegou ao Grão-Pará em 1755, durante o governo de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal. Ele era enteado do Boticário da Rainha Mãe, Dona Maria. Ainda muito jovem, Wilkens foi destacado como auxiliar do Padre Szentmartonyi, tendo depois se engajado como engenheiro nas comissões de limites da Amazônia. Foi morar em Barcelos, onde se casou com uma índia. Desse casamento nasceram José Joaquim Wilkens, que acabou sendo aposentado por invalidez na praça de Macapá após um acidente, e D. Joana Tereza Wilkens, que se casou com Severino Euzébio de Mattos, também membro da Comissão de Limites. Desse casamento nasceram João Henrique de Mattos, Manoel Lourenço de Mattos, Raimundo Severiano de Mattos e Francisca Leonarda de Mattos. Esta casou-se com João Valente do Couto Tavares, e dessa união nasceu, em 1807, Margarida de Mattos Tavares, que por sua vez viria a se casar com John Hesketh, Vice-Cônsul e depois Cônsul Inglês durante a época da Cabanagem. Ambos morreram em 1838.

    Os netos de Henrique João Wilkens tiveram certo destaque na vida política do estado e também nos acontecimentos da Cabanagem. Manoel Lourenço de Mattos participou da revolta de 14 de abril de 1823, objetivando a adesão do Pará a independência do Brasil, mas acabou preso. João Henrique de Mattos fez parte da junta governativa eleita em 18 de agosto de 1823, após a adesão do Pará a independência, ao lado de Batista Campos e Félix Clemente Malcher. Ele também foi escolhido para comandar as forças de desembarque que apoiavam Ângelo Custódio, em 1835, mas acabou renunciando ao comando das tropas [ao final, o desembarque acabou com vários mortos]. Porém, durante a defesa do Presidente legalista Manoel Jorge Rodrigues, durante a 2ª tomada de Belém pelos Cabanos, João Henrique assumiu uma coluna de tropas legais com a finalidade de desalojar os cabanos. Já Raimundo Severino de Mattos, foi o cônego enviado por Eduardo Angelim até o General Jorge Rodrigues para tentar libertar sua esposa, que encontrava-se presa em um navio, após a retirada das forças legalistas.

    As últimas informações sobre Henrique João Wilkens datam de 1800, quando foi “exterminado”, ou seja, enviado para a Capitania de Mato Grosso por Francisco de Sousa Coutinho, Governador do Pará, após divergências com o governo português, onde provavelmente morreu.

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    Publicado por Ricardo Condurú | 16 de dezembro de 2019, 13:55

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