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Economia, Energia, Estrangeiros, Governo, Hidrelétricas

A China no Brasil

Na visita que fez na semana passada à China, o presidente Jair Bolsonaro entregou à estatal chinesa State Grid Corporation o termo de liberação para a operação de uma das mais extensas e mais modernas linhas de transmissão de energia do mundo, que custou 8,8 bilhões de reais.

Com 2,5 mil quilômetros, passando por outros três Estados (Tocantins, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro), ela vai da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, a quarta maior do mundo, até a região sudeste, onde se concentra o consumo de eletricidade do Brasil. O empreendimento é de responsabilidade da Xingu Rio Transmissora de Energia S/A (XRTE), subsidiária da State Grid.

A obra era para ficar pronta só em dezembro, a mesma data da conclusão da instalação da última das 18 máquinas de Belo Monte, que tem capacidade nominal de 11,3 mil megawatts, o suficiente para atender as necessidades de energia de 60 milhões de brasileiros.

O custo da hidrelétrica está alcançando 40 bilhões de reais, para um orçamento inicial de R$ 19 bilhões. A primeira linha de transmissão, inaugurada em 2017, custou R$ 5 bilhões. Com a duplicação, o orçamento chega a quase R$ 14 bilhões. E as linhas, somadas, somam cinco mil quilômetros.

A estatal chinesa tinha pressa em concluir os trabalhos da linha dupla e nenhuma preocupação com dinheiro. Cinco das imensas torres metálicas foram derrubadas no início de agosto, em atos classificados como “vandalismo”, causando prejuízos à empresa. Mas não só não atrasaram o cronograma como sequer atrapalharam a sua antecipação. A State Grid venceu a concorrência em 2015.

A empresa investiu pesado na tecnologia, de corrente contínua em ultra-alta tensão, utilizada pela primeira vez no Brasil. Essa carga reduz perdas de energia no longo trajeto entre a usina e o sudeste. A rentabilidade será maior, porém exigirá cuidado especial de manutenção e operação nos primeiros anos de operação.

No comunicado distribuído em Pequim, o governo brasileiro afirmou que o empreendimento “contribui significativamente para o aumento da disponibilidade, capacidade e segurança do sistema elétrico nacional”. Também garante “maior uso de energia limpa e sustentável, impacta positivamente na recuperação dos níveis dos reservatórios da região Sudeste, e reduz as emissões de gás carbônico na atmosfera e o custo operacional do Sistema Interligado Nacional”.

A conclusão e operação comercial da extensa linha “consolidam a parceria entre Brasil e China, e, sobretudo, demonstram a grande atratividade do setor elétrico brasileiro para investimentos estrangeiros no país. Signatários”, afirma o memorando de entendimento, assinado por Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, e por Kou Wei, presidente da State Grid Chin Corporation.

Não é bem assim. Na concorrência para a primeira linha, realizada em 2014, a State Grid integrou um consórcio com duas estatais brasileiras, subsidiárias da Eletrobrás. Só que Furnas (com 24,5% das ações) e a Eletronorte (24,5%) participam como minoritárias. A estatal chinesa ficou com a maioria do capital, de 51%.

Talvez por isso, o consórcio aceitou receber a menor remuneração já oferecida não só no leilão dessa linha, entre Belo Monte e Estreito (em Minas Gerais), vencendo outros dois concorrentes por larga margem, como em todas as licitações. Ofereceu uma proposta de remuneração anual de R$ 434 milhões, 38% menor do que o teto fixado pelo governo, bem abaixo da média de outros leilões, de 24% de deságio.

A presença de estatais do setor elétrico também permitiu que o BNDES se comprometesse a financiar até 55% do valor da obra, orçada em R$ 5 bilhões, com juros inferiores, o que deve ter sido fundamental para a vitória do consórcio.

Para a segunda linha, o BNDES foi ainda mais generoso. Aprovou financiamento de R$ 5,2 bilhões, valor equivalente a 61% do custo total do projeto, que era então de R$ 8,5 bilhões. Só que neste empreendimento a State Grid já estava sozinha, dona de tudo.

Não por acaso, a estatal chinesa se tornou a maior empresa de transmissão de energia e vai se agigantando no setor elétrico como um todo. Desde 2010, já comprou sete companhias nacionais de transmissão de energia.

Assim, enquanto as estatais brasileiras vão saindo de cena, uma estatal chinesa, que está entre as maiores empresas de energia do mundo, vai ocupando um lugar de destaque no palco. Processo inusitado na história do Brasil.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

Um comentário sobre “A China no Brasil

  1. Na contramão do dogma da privatização. Por quê será?

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    Publicado por J.Jorge | 1 de novembro de 2019, 07:02

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