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Ciência, Colonização, Desmatamento, Ecologia, Estrangeiros, Floresta, Governo, Militares, Minério, Política, Queimadas

O fim – ao fim

Em outubro, foi registrada a menor quantidade de queimadas para esse mês desde o início da série histórica, em 1998. O satélite monitorado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) detectou 7.855 focos de fogo na região. Foi uma redução de 26,2% em relação ao mesmo período do ano passado. Até então, o outubro com menor número de incêndios aconteceu em 1998, com 8.777 registros.

Dois meses atrás, os pontos de fogo parecia que iam disparar. Foram 30.901 queimadas em agosto, 196,5% a mais do que em relação a 2018. A reação do presidente Jair Bolsonaro, cujo discurso de incentivo à expansão da fronteira econômica na região estimulou o desmatamento de novas áreas nativas, foi imediato. Desmentiu o Inpe e desdenhou da ameaça.

Sua posição foi desmoralizada pela ação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal contra uma ação coordenada de grileiros, fazendeiros e madeireiro em Novo Progresso, no Pará criando o “dia do fogo”, para avançar sobre a floresta.

A reação, nacional e internacional, obrigou Bolsonaro a voltar atrás. No fim de agosto, ele estabeleceu a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na região. Militares foram enviados para engrossar o combate às queimadas e outros crimes ambientais. Em setembro, os incendiários começaram a retroceder. Em outubro, fugiram das ofensivas e se abrigaram, à espera do verão do próximo ano.

A atuação excepcionalmente incisiva do governo mostrou que ela poderá ser mais eficiente se vier a se tornar permanente, proporcional à ação dos destruidores de natureza. Mas não poderá impedir a continuidade da destruição de novas áreas de cobertura florestal nativa, se o modelo de ocupação da Amazônia continuar o mesmo.

Essa forma de expansão de frentes pioneiras, desencadeada a partir da ligação da região ao restante do país por grandes estradas de rodagem, se expandiu durante a ditadura militar e não mudou sob as m ais de três décadas de restabelecimento da democracia.

O poder central vê a fronteira amazônica sob a ótica geopolítica da doutrina de segurança nacional, renovada por Sarney, primeiro presidente civil desde o golpe militar de 1064, com a edição do programa Calha Norte. Significa que, permanecendo ativa a cobiça internacional sobre a maior floresta tropical e a maior bacia hidrográfica do planeta, as fronteiras devem estar sempre bem guarnecidas.

O aliado no combate a essa ameaça é o pioneiro, com seu espírito bandeirante. É ele que vai acabar com o alegado vazio demográfico, que incentiva os apetites imperialistas sobre vastas extensões de terras sem a presença humana. Nessa concepção, o índio não é garantia de soberania nacional. Nem a floresta, substituída pelo conceito de VTN (Valor da Terra Nua0, a pedra de toque das benfeitorias (estradas, cidades, hidrelétricas, minas, cultivos agrícolas, soja, extração de madeira).

Onde ainda predomina o espaço da natureza é preciso introduzir o agente humano. Isso torna inevitável a progressão dos desmatamentos. Onde o espaço foi humanizado, a principal ação é a queimada, que transforma corpos carbonizados da floresta e da vegetação substitutiva em nutriente para os solos de baixa fertilidade natural. Onde há os dois elementos da composição, se combinam desmatamento e queimada.

O Pará é o Estado onde essa combinação mista é dominante, com o maior índice de queimadas e o segundo maior de degradação da floresta. O Amazonas é o novo ator, atestando que, apesar dos quase 200 mil quilômetros quadrados de destruição de floresta entre 2002 e 2018 (com o sacrifício de quase 45 bilhões de árvores), e 763 mil km2 de derrubadas acumuladas desde a primeira intervenção do homem na paisagem, a dinâmica dos primeiros dias prossegue – e não terá fim. Ou só chegará ao seu desfecho com o fim desta Amazônia que conhecemos, adoramos e lamentaremos.

(Publicado no site Amazônia Real)

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