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Imprensa, Política

O jornalismo e a democracia

Nunca imaginei que iria ler uma notícia como a que reproduzo a seguir, extraída do portal do Uol de ontem:

O jornalista Augusto Nunes, da Jovem Pan, Veja e Record, agrediu Glenn Greenwald, do The Intercept, durante participação no programa Pânico, da Jovem Pan, hoje.

A agressão aconteceu depois de Glenn chamar Nunes de covarde por ter feito comentários sobre os seus filhos com o deputado David Miranda. Depois da agressão, o apresentador Emilio Surita suspendeu o programa por 12 minutos. Na volta, Augusto Nunes tinha deixado a atração, enquanto Glenn continuava na bancada.

Como foi a agressão

A confusão começou logo após Glenn questionar Nunes se um juiz deveria investigar sua família.

“Nós temos muitas divergências políticas, eu não tenho problema nenhum em ser criticado pelo meu trabalho – eu critico ele também. Mas o que ele fez foi a coisa mais feia e suja que eu vi na minha carreira como jornalista, inclusive fazendo guerra com CIA, governo Obama, governo do Reino Unido. Ele disse que um juiz de menores deveria investigar nossos filhos e decidir se nós deveríamos perder nossos filhos. (Que) eles deveriam voltar para o abrigo, com base nenhuma. Acusando que estamos abandonando, fazendo negligência de nossos filhos. Eu quero saber se você acredita que um juiz de menores deveria investigar nossa família com possibilidade de tirar nossos filhos de nossa casa, sem pai nem mãe, sem família nenhuma”, disse Glenn.

“Essa é a prova de que o Brasil criou o faroeste à brasileira. Quem tem que se explicar é quem comete crimes, quem fica cobrando quem age honestamente. Ouça-me: o que eu disse, vocês vão perceber, é que ele não sabe identificar ironias, não sabe identificar um ataque bem-humorado. Convido ele a provar em que momento eu pedi que algum juizado fizesse isso. Disse apenas que o companheiro dele passa tempo em Brasília, passa o tempo todo lidando com material roubado. Quem vai cuidar dos filhos?”, respondeu Nunes.

Glenn reagiu: “Você é um covarde! Você é um covarde! Eu vou falar o porquê”. Ele então foi interrompido por Nunes. A primeira tentativa de agressão não deu certo, mas depois Nunes atingiu o rosto de Glenn. O norte-americano tentou revidar, mas não conseguiu.

A volta ao ar

Depois de cerca de 12 minutos, o programa voltou ao vivo, sem Nunes. A Jovem Pan pediu desculpas pelo ocorrido. “Não foi nada irônico. (…) Ele nunca falaria que um juiz deveria investigar se os chefes que têm filhos, onde as duas pessoas trabalham. Ele só fala isso sobre nós. Isso é covardia”, disse Glenn.

Entenda o caso

A rixa entre eles começou em 1º de setembro. Crítico do jornalismo praticado pelo The Intercept com as revelações das conversas privadas dos procuradores da Operação Lava Jato, Nunes falou na Jovem Pan sobre os filhos de Glenn e Miranda. Veja abaixo:

A reação

Marido de Glenn, David Miranda usou as redes sociais para comentar a agressão. “Esse canalha usou nossos filhos p/ atacar o trabalho do meu marido. É tão covarde que não consegue escutar a verdade cara a cara e partiu para agressão física. Se os veículos em que ele trabalha forem sérios, vão demitir esse jornalista sem ética e escrúpulos. #SomosTodosGlenn”, escreveu no Twitter.

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Augusto Nunes e eu trabalhamos juntos na sede paulista de O Estado de S. Paulo. Ele escreveu a orelha do meu terceiro livro, sobre o projeto Jari, publicado em 1982 pela editora Marco Zero, de São Paulo. Eu o tinha por uma pessoa afável, amistosa e bem humorada. A agressão de ontem não guarda a menor coerência com essa imagem. Nem com o que deve ser um bom e experiente jornalista. Uma das suas condições essenciais é ser tolerante, aberto ao diálogo e capaz de enfrentar as divergências, mesmo as mais agudas ou violentas, sem perder o autocontrole, que garante o bom nível de atuação.

Augusto cometeu dois erros graves, além da imperdoável agressão. Um foi penetrar na vida privada de Glenn e Miranda, que nada tem a ver com o tema do infeliz comentário que fez antes do confronto direto. A vida privada de qualquer personagem só interessa se interferir na sua atuação pública. Este era um princípio sagrado para os bons profissionais.

O outro erro foi a superficialidade e leviandade na abordagem jornalística, que se tornou marca registrada na imprensa atual, mas sempre deve ser repudiada. A cultura difundida pela internet, que gerou a praga das notícias falsas e do julgamento açodado, se contaminar o jornalismo profissional, o liquidará de vez. Ao invés de servir à defesa e enriquecimento da democracia, ele acabará ajudando os que a querem destruir

Discussão

13 comentários sobre “O jornalismo e a democracia

  1. Difamação é crime, artigo 139 do CP.

    Chamar os outros de covarde é sim Difamação.

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    Publicado por celso.. | 8 de novembro de 2019, 11:51
  2. porra lucio flavio o cara é chamado de covarde 5 vezes na cara quer o que qual a tua reação se está certo ou não é outra coisa mas vem um cara que foi praticamente expulso do pais dele vem pro nosso pais trabalhar com heckers que são criminosos e vem querer tentar um criminoso que já foi condenado pela justiça quer o que tu ainda acha que ele tem razão

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    Publicado por luiz carlos | 8 de novembro de 2019, 13:25
  3. Um dia antes, Augusto Nunes havia publicado um texto curto, fazendo uma defesa rasgada dos filhos do Bolsonaro. Em especial um que teria sido namorado de uma filha do tal de Lessa, acusado de ter assassinado a vereadora Marielle.

    O que leva um jornalista como Augusto Nunes a colocar a reputação em jogo, arriscando-se a pagar um mico desse tamanho? Cegueira político-ideológica? Dinheiro? As duas coisas?

    Cada vez mais, esse Augusto Nunes tem só o passado pela frente…

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 8 de novembro de 2019, 13:48
  4. O jornalista Augusto Nunes tem vinculo com a Jovem PAN, ele sabia antecipadamente que ia participar do programa, na qual o Jornalista Glenn iria. Já o Gleen não tinha conhecimento da participação do Augusto.
    Percebe-se portanto, que o Augusto Nunes estava em plena vantagem….pois tinha consciência dos seus atos anteriores e tbm que naquela data, estaria lado a lado de seu desafeto. Poderia inclusive ter solicitado um lugar na bancada longe do jornalista americano!!!!!!!!!
    Lamentáveis cenas. Pior é ver um profissional como Sami Danna ….sendo da equipe de um programa tão abjeto.

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    Publicado por Celson | 8 de novembro de 2019, 15:55
  5. Pelo que estou vendo aqui, ainda tem gente que apoia a agressão covarde do Augusto Nunes. Isso é um absurdo.

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    Publicado por Ricardo Conduru | 8 de novembro de 2019, 16:54
  6. Conduru, não só apoia como distorce (ou desconhece) a verdade afirmando que o americano foi praticamente expulso do país dele. Com gente assim é perda de tempo discutir.

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    Publicado por Gleydson | 8 de novembro de 2019, 19:25
  7. Agradeço a oportunidade de ter comentado sobre o caso de extrema relevância e a ter comentado a relação pessoal que tiveste com Nunes.
    O titulo de alguns canais de esquerda já diz: “Augusto Nunes ao ser chamado de covarde ataca covardemente jornalista mostrando sua covardia”.
    Se por um lado tivemos o debate entre dois premiados jornalistas, por outro as pessoas, mesmo e, ressaltei características pessoais de cada um, um sendo, não diria estrangeiro, mas brasileiro naturalizado e um polemico septuagenário. Mas por que ressaltei este fato? primeiramente porque se Glenn agredisse fisicamente Nunes este não estaria nas mesmas condições e poderia ser acusado de algo mais que simples agressão.
    Se e um lado falei do ambiente em de entrevista que é a Jovem Pan, e da busca de audiência que contendas como estas buscam. Se por uma lado pegar pessoas, ou jornalistas, com ideias diversas para um debate seria um ótimo espaço para a pluralidade, que mesmo Nunes defende (pena não praticar) o ambiente não é tão isento. Personalidades de esquerda no programa não são questionados, mas quase atacados, com exceção de raros debatedores que sabem lidar e se mostram preparados para os ataques. Mas já simpatizantes do governo são quase bajulados e tem seu espaço para falar.
    Mas o que dizer sobre os contra o politicamente correto, ou os politicamente incorretos. Os que se acham no direito de fazer piadas de cunho pessoal ou a homossexualidade da pessoa, do direito dos racistas serem racistas, ou homofóbicos apenas por que estão brincando e seu direito de falar ou brincar. Tal ideia tentou criar um fundamento de politicas contrarias aos anseios e defesa do direitos de minorias e defendendo a meritocracia. Foram a fundo com tais filósofos e outras pessoas que tentaram ciar até livros com guias que traziam verdades alternativas ou versões diferentes sobre fatos. Tal conceito foi chamado até de pós-verdade, o que Leandro Karnal chamou apenas de desonestidade intelectual ao falar incorreções do também historiador Leandro Narloch.
    Este politicamente incorreto é o mesmo que segue as ideias de Olavo de gritar, não deixar falar, debochar do contendor. É o criador do Mitou e colocar olhinhos, se mostrar o mais forte de algum modo em uma contenda, mesmo que seja no porrete. São também as respostas curtas e mal educadas, os palavrões, os tapas no rosto. Ser adolescente de 14 anos falando palavrões em um programa que eternamente se rotula jovem e um candidato que discursa falando que vai acabar com os corruptos e quer apresentar soluções rápidas, não pergunte como resolverei apenas acredite em mim. É o mesmo que se diverte imitando o jeito do jornalista naturalizado de falar. Neste sentido que vemos a evolução do nosso homem cordial. Neste sentido também falo ao sociólogo sobre a evolução, ou involução do povo e a incivilidade que nos encontramos com exasperação de nossas passionalidades.
    abraços.
    avante JP

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    Publicado por Fabrício | 8 de novembro de 2019, 23:37
  8. Lucio, afinal de contas está correto ou não, hacker utizarem atos de invasão da privacidade de quem quer seja?
    O Glen tinha autorização judicial para divulgar conversas telefônicas entre membros do Judiciário?
    Quando a conversa entre Lula e Dilma vazou houve uma imensa “repulsa”, inclusive por parte de Ministros do STF.
    Aliás, na citada conversa o Lula foi muito feliz em definir o “ Supremo como acorvadado”.
    No caso do correto e íntegro jornalista Augusto Nunes a sua reação, após ser agredido verbalmente pelo Gleen, se caracteriza com legítima defesa da honra. O art. 25 do Código Penal não distingue os jornalistas de outras pessoas.
    Lamentável que se defina o Gleen como um jornalista isento.
    Seu passado nada recomendável em outro país cabe bem na decisão de Rui Barbosa: “magarefes da honra alheia”
    Na realidade a liberdade de imprensa não pode ser confundida com licenciosidade.
    Por fim, os jornalistas tbm são seres humanos e suas reações não são iguais.

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    Publicado por Ronaldo Passarinho | 8 de novembro de 2019, 23:41
    • Concordo com teus argumentos, Ronaldo. Mas o Augusto tem tempo suficiente na profissão para evitar armadilhas. De um lado, a Jovem Pan atrás de fatos que a promovam, tendo a direção que tem. De outro, o Glenn querendo o papel de vítima. Concordo que seria muito difícil suportar as agressões verbais do Glenn, ditas de corpo presente, quase à “queima-roupa”. Augusto teria evitado a situação se não tivesse descido o tom nas referências anteriores ao Glenn. E este, evidentemente, deixou de ser objetivo e isento. Já condenai aqui o método de obtenção e a forma de divulgação das conversas gravadas do pessoal da Lava-Jato e do Moro. No final, um passo para mais distante da democracia.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 9 de novembro de 2019, 09:27
  9. Vale ressaltar que depois de muito um comentador insistir deste tua opinião sobre o intercept. Sendo as notícias divulgadas mais oportunistas que jornalísticas Glenn ainda sim tem seus méritos. A discussão sobre o hackeamento das informações é longa e há quem defenda, não sei se essas ideias públicas, mas as vezes parecem defender insistentemente defender Moro independente do que ele fez apenas por ter preso Lula, outra discussão, da mesma discussão. Acho que Glenn se saiu muito bem no debate, este de verdade, no Roda Viva, apesar de nem sempre concordar de tentar isentar o meio como as informações foram obtidas apenas justificando o valor das informações. Mas vale o debate da ilegalidade da ilegalidade, qual a validade de tudo isso?
    Mas apesar de mesmo não concordares com Glenn, ressaltasse que ainda assim é possível defender-lo de ataques pessoais, principalmente quando desbancam em ataques físicos.
    Passionalidades a parte.

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    Publicado por Fabricio | 9 de novembro de 2019, 01:11
  10. Padrão bozo: homofobia, preconceito, violência, ódio para se manter em evidência

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    Publicado por Luiz Mário | 9 de novembro de 2019, 05:43
  11. Realmente o Lula foi infeliz, ao dizer que o STF é acovardado.
    Só porque o STF é acovardado,isso não dá a ninguém o direito de dizer que o STF é acovardado.
    O Lúcio entende bem coisas assim. Ele já foi condenado, na Justiça, por ter dito que um grileiro era grileiro. Que,aliás continuou sendo grileiro, e só deixou de ser grileiro porque bateu as botas, defuntou,virou cadáver.
    Espero que ninguém seja processado e condenado por chamá-lo de defunto. Ou de grileiro morto.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 9 de novembro de 2019, 09:45

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