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Política

Os heróis: quem precisa deles?

Lula estimulou a crença de que poderia ser candidato à presidência da república, no ano passado, até o último prazo legal para que o PT encontrasse outro nome, mesmo sabendo que seria quase impossível se livrar da sua inelegibilidade. O candidato acabou sendo Fernando Haddad, muito distante de ser o melhor nome de apelo popular dentro do Partido dos Trabalhadores. Mas era o nome que Lula tinha na algibeira. Como, antes, foi o de Dilma Rousseff.

Hoje, Lula praticamente lançou a sua candidatura à presidência da república, quase três anos antes da eleição. É a mesma contradição ambulante, o mesmo marco delimitador da história, o mesmo que não admite erros, o mesmo que não faz autocrítica, o mesmo do mesmo, ainda que se apresente como novo.

Prometeu que não faria o discurso do ressentimento, do ódio, do ajuste de contas. Sua primeira referência foi a um helicóptero que circulava sobre a sede do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, seu bunker, de onde fez o discurso, retomado sem tirar nem por do que fez em abril de 2018, o último antes de ser preso (numa “solitária”, na verdade, uma dependência administrativa da Polícia Federal em Curitiba, longe da cela dos presidiários). Reservou o primeiro palavrão para a Globo, por ele acusada de fazer jornalismo “de merda”, ataque transmitido pela Globonews para todo país, na cobertura integral de mais de uma hora do ato público que a Globo promoveu.

Lula também prometeu que, a partir de agora, iria se dedicar a fazer o que o atual governo não está fazendo: construir um Brasil melhor. Lula repetiu as críticas que uma proporção crescente de pessoas faz à administração de Jair Bolsonaro, muitas delas registradas pela Globo, tão atacada – com igual virulência – por ele como por Lula, faces da mesma moeda, unidades de uma dualidade siamesa que persiste, a despeito das suas diferenças, num messianismo que maltrata o Brasil já há tanto tempo.

Ao fazer a crítica, como de regra, Lula só não consegue ver o mínimo dos erros que ele cometeu, ampliadas em escala espantosa pela sucessora, cujo nome tirou da sua enorme algibeira de mágico de cartola, de onde retira palavras que se amoldam ao seu discurso unilinear, de iluminado, de ser perfeito, tão salvador da pátria, pelo caminho esquerdista, quanto Bolsonaro, pela trilha direitista, extremos condenados a colidir sem produzir ideias novas e saídas reais no labirinto para o qual conduzem os seus bandos.

Os bolsonaristas, ao buscar o Estado mínimo, deixam ao relento o cidadão comum, incapacitado para disputar um lugar no mercado em condições semelhantes aos integrantes da elite. Ao se propor a reconstruir o Estado, os lulistas ignoram quanto mal causaram ao poder público com sua corrupção levada ao maior grau de sistematização, numa engrenagem – estruturada – que tem sua matriz, em regimes democráticos, como no México, no modelo leninista do partido único.

Utilizando expressões chulas e ênfase passional, Lula esqueceu, na prática, o compromisso de serenidade e profundidade, que poderiam caracterizar o seu retorno à vida pública depois da prisão. Com sua rapidez de raciocínio, sua fluência na oratória, sua capacidade de falar ao povo numa linguagem inteligível, e seu imenso carisma, ele atraiu contingentes para a campanha de guerra que deverá iniciar nos próximos dias. Bolsonaro será a sua escada de ascensão ao topo, associando-o à má sorte dos trabalhadores, à violência do crime organizado, certo de que, assim, terá de volta o mesmo tratamento do inimigo, sem espaço para alternativa, se não deixando-lhe uma fração do eleitorado.

Nessa progressão, ao menos conforme a previsão que Lula deve ter da campanha que iniciou, ele poderá pressionar o aparato institucional a aceitá-lo em liberdade, permitindo-lhe provar a sua capacidade real de voltar à presidência, num acerto tácito com os setores que tiraram as principais barreiras que tolhiam o retorno do líder petista. O Brasil voltará a viver nesse movimento político pendular, numa regressão entre o populismo de esquerda e o populismo de direita, ambos enfáticos no discurso, claudicantes nas suas práticas e fraudulentos no compromisso com a nação.

Discussão

5 comentários sobre “Os heróis: quem precisa deles?

  1. enquanto os de baixo, mesmo entre aqueles que estão anestesiados pelo lula solto, pagam a conta cara demais para manter a festa de quem lucra a nossa miséria social, sustentando os de cima, certo?

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    Publicado por felipe puxirum | 9 de novembro de 2019, 16:29
  2. A corrupção é toda do PT.

    Por isso é que a maior parte dos corruptos presos é de gente do MDB, do PSDB…

    É que eles são petistas infiltrados nesses partidos, só pra desmoralizá-los. Todo mundo sabe que, antes do PT chegar ao poder, o pessoal do MDB, do PSDB, do PFL/DEM, etc., era todo honesto e devotado à construção de um Brasil melhor e mais justo. Era um pessoal tão bonzinho… Foi então que chegou o Lula, com o cão no couro!

    Foi o Lula que estragou tudo! Malvado!

    E em 2018? De novo, Lula foi o culpado! É o único culpado! Quem mandou ele indicar o Haddad?

    Se o Lula não houvesse feito isso, o PSDB teria lançado um ótimo candidato, uma liderança capaz, honesta e popular, que teria vencido a eleição e, agora, o Brasil não teria que aturar o Bolsonaro, não fazendo nada e falando bundice.

    Mas, aí, o Lula indicou o Haddad, e o PSDB se irritou e não quis mais brincar. Foi então que ressurgiu das cstacumbas a recandidatura do Picolé de Chuchu, que não conseguiu nem os votos do partido dele. Culpa de quem? Do Lula, claro! Quem é que não sabe disso?

    Todo mundo sabe que a obrigação do Lula é dar solução pra todos problemas políticos do Brasil, do PT e de todos os demais partidos que existem, que já existiram e que, eventualmente, venham existir neste país. Por que é que é que todo mundo consegue ver isso, e o Lula não?

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 9 de novembro de 2019, 18:55
  3. Onde posso assinar embaixo?Parabéns pelo artigo. Bolsonaro e Lula fazem um mal danado ao país.
    Tenha um ótimo domingo,Lúcio.Melhoras para sua a saúde,sempre

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    Publicado por rafael gomes araújo | 9 de novembro de 2019, 19:56
  4. Por um breve momento, fiquei em dúvida sobre se concordava com o texto ou com o título do texto.

    Sim, porque o título do texto sugere que o país não precisa de heróis (“coitado do país que precisa”, né?). Já o conteúdo exige tanta coisa do Lula, que parece pretender que o sapo barbudo seja não só um herói, mas também um mártir, pronto a se oferecer em holocausto, no altar das eleições presidenciais, para que as estrelas de outros partidos possam, crescer, aparecer e brilhar como nunca, no céu da pátria num instante.

    Isso é de uma ingenuidade paquidérmica! Simplesmente não é o que se faz, nunca se fez nem nunca se fará, em política.

    Lula é um político, líder de um partido político, e o que políticos e partidos políticos fazem é lutar pelo poder. Política é isso. As motivações, os propósitos, etc., podem diferir, mas política é luta pelo poder. Quem faz política, está lutando pelo poder, para conquistá-lo, para mantê-lo, para ampliá-lo e o raio que o parta. Mas isso é isso, e pronto.

    Lula errou em 2018? Então, tá! Errou!

    Prejudicou Haddad? Prejudicou o PT? Antes de responder, sugiro perguntar ao Haddad e ao PT, pra ver se eles estão reclamando. Haddad se tornou uma figura nacional, e o PT elegeu, isoladamente, a maior bancada de deputados federais do país. Que permanece sendo, isoladamente, a maior bancada na Câmara Federal (a segunda maior bancada, a do PSL, com a consistência de um sorvete ao sol do meio dia, já começou a derreter antes de receber os primeiros jatos do calor da luta política).

    Prejudicou o Brasil? Duvido! O eleitor brasileiro teve ao seu dispor um amplo leque de opções político-ideológicas. Escolheu uma delas. Isso é legítimo. Ficar responsabilizando o Lula pela vitória do Bolsonaro é até uma falta de respeito para com o eleitor brasileiro. Este fez a sua escolha. Vai pagar caro por ela, mas isso é do processo. Talvez tenha aprendido a lição. Se não aprendeu, paciência. Vai acabar escolhendo mal e pagando por isso.

    E o que aconteceu com os partidos que adotaram uma estratégia política mais inteligente que a do PT?

    O PSDB derreteu nas urnas e, ao que parece,continuará derretendo por mais algum tempo. Na Câmara Federal, virou nanico.

    O Henrique Meirelles, o gênio da economia que só conseguiu piorar ainda mais o que Dilma/Levy fizeram de muito ruim, foi menos que uma figura decorativa nas eleições de 2018.

    Mas é bem verdade que partido de ocasião do qual ele se serviu (e muito mais foi por ele servido, né não?), continua onde sempre esteve. Coerentemente, mudou o nome de PMDB para MDB. PMDB foi o partido da redemocratização. Já a sigla “MDB” remete àquele partido originalmente formado com o rebotalho que não conseguiu entrar na Arena (porque Castelo Branco não deixou), numa época em que o Brasil passou a ter somente dois partidos políticos: um que era a favor do regime militar e outro que NÃO era contra… Tudo a ver com o MDB dos últimos anos: aquela senhorinha de costumes fáceis, sempre requebrando a bunda e se dispondo a ir pra cama com quem quer que esteja no poder. Inclusive com o PT, que aceitou a tal senhorita em sua cama, e acabou contaminado por toda a sorte de DSTs (e infestado por enorme carga de parasitas na virilha).

    Marina e Ciro são pouco mais que duas piadas de mau gosto, fazendo o que podem e o que não deveriam, pra aparecer. Ciro, então, nem se fala. Só aparece quando diz alguma coisa muito desagradável sobre o PT, sem perceber que isso o torna ainda mais dependente do PT do que tem sido ao longo dos últimos 17 anos. O melhor que ele faz, acho, é aproveitar o próximo carnaval e desfilar por alguma escola de samba, na Sapucaí, de fio dental ou, talvez até nu, exibindo aquela bunda velha pra galera. Pode ser que assim ele consiga ficar em evidência por algum tempo, sem precisar do Lula e/ou do PT.

    Lula e o PT precisam fazer autocrítica? Nem tenha dúvida! Mas, a melhor maneira de fazer essa autocrítica, é estabelecer um novo padrão de prática política, dentre outras coisas, afastando-se das ratazanas de dentro e de fora do partido.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 10 de novembro de 2019, 15:23

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